.

Espaço do leitor - cânon bíblico


Bom dia! Sou protestante batista e gostaria que vocês respondessem algo: A Septuaginta é a base do AT usada no canon da Igreja Católica. Por que esta não usa todos os livros da Septuaginta, como a igreja Ortodoxa o faz?

A Septuaginta é um conjunto de livros apenas. Quem definiu a canonicidade ou não de seus livros são as igrejas [protestantes].

Flávio Josefo, um dos mais importantes historiadores do primeiro século escreveu o seguinte:

"Desde Artaxerxes até os nossos dias, escreveram-se vários livros; mas não os consideramos dignos de confiança idêntica aos livros que os precederam, porque se interrompeu a sucessão dos profetas. Esta é a prova do respeito que temos pelas nossas Escrituras. Ainda que um grande intervalo nos separe do tempo em que elas foram encerradas, ninguém se atreveu a juntar-lhes ou tirar-lhes uma única sílaba; desde o dia de seu nascimento, todos os judeus são compelidos, como por instinto, a considerar as Escrituras como o próprio ensinamento de Deus, e a ser-lhes fiéis, e, se tal for necessário, dar alegremente a sua vida por elas" (Discurso Contra Ápion, capítulo primeiro, oitavo parágrafo).
A resposta:

A Septuaginta não tem o índice completo dos livros canônicos. Quem definiu foi a Igreja Católica, historicamente falando não tem como contestar, basta voltar ao passado, onde Cristo forma os seus e faz nascer Sua Igreja na Cruz, onde os Apóstolos seriam seus sucessores com toda Sua autoridade, para ensinar os povos, governá-los e ainda santificá-los, ou seja, dar a eles as graças necessarias a salvação, pelos méritos de Sua morte na Cruz.

O Cânon foi definido no Concílio de Hipona (393) e confirmado pelos concílios de Cartago III e IV, Trulos, Florença, Trento e Vaticano I.

O Cânon passou por uma definição já no Concílio regional de Hipona (393) e mais tarde tal definição foi confirmada por outros Concílios. Devemos lembrar, contudo, que o que Hipona fez e que foi confirmada por Concílios ecumênicos mais tarde, foi só uma explicitação de algo que já era regra de ortodoxia. Antes de Hipona, no Concílio de Roma, sob a autoridade do Papa Dâmaso I, o cânon já tinha passado por uma confirmação (menos explícita que em Hipona, mas completamente clara).

"Parece-nos bom que, fora das Escrituras canônicas, nada deva ser lido na Igreja sob o nome 'Divinas Escrituras'. E as Escrituras canônicas são as seguintes: Gênese, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reinos1, dois livros dos Paralipômenos2, Jó, Saltério de Davi, cinco livros de Salomão3, doze livros dos Profetas4, Isaías, Jeremias5, Daniel, Ezequiel, Tobias, Judite, Ester, dois livros de Esdras6 e dois [livros] dos Macabeus. E do Novo Testamento: quatro livros dos Evangelhos7, um [livro de] Atos dos Apóstolos, treze epístolas de Paulo8, uma do mesmo aos Hebreus9, duas de Pedro, três de João, uma de Tiago, uma de Judas e o Apocalipse de João.10 Sobre a confirmação deste cânon se consultará a Igreja do outro lado do mar11. É também permitida a leitura das Paixões dos mártires na celebração de seus respectivos aniversários" (Concílio de Hipona, 08.Out.393).

Raciocina comigo, se para fazer parte do cânon, o livro deve ser inspirado, porque então o próprio autor da inspiração (o Espírito Santo) faz listas diferentes em lugares diferentes. Seria Deus incoerente?

A Igreja Católica, que tem a autoridade de Cristo é que formou o verdadeiro Cânon, os verdadeiros livros inspirados, e lembre-se, antes da reforma protestante já existia a Bíblia de Gutemberg, com a lista correta, portanto é nesta lista que devemos crer.

É tolice se inspirar no cânon judaico, o tempo dos judeus passou, e todos haverão de se converter, pois Cristo o autor e consumador da fé já veio e sem Ele, não há salvação.

Outra coisa, quando Cristo veio, queiria ou não fundou UMA Igreja para todos aqueles que cressem se achegassem a esta arca da salvação, portanto, deu a ela a autoridade para saber quais foram os livros inspirados e deu ainda a autoridade da verdadeira interpretação destes livros, para que fossem a seta para se achegar a Ele.

Veja, a Didaqué, a Epístola de Barnabé, Inácio de Antioquia e o Pastor de Hermas são autores do início do Criatianismo que atestam a Igreja Católica como Igreja de Cristo, portanto, provando Sua autoridade para discernir o verdadeiro canon. Inácio de Antioquia que foi sucessor apostólico no século I, pouco mais de 70 d.C, já escrevia que onde estiver o Bispo e Cristo, ali estará a Igreja Católica. Essa é a universalidade, pois se assim não fosse, o catolicismo não passaria de um grupo de judeus revoltosos escondidos numa casa, sendo que nessa casa ocorreu o Pentecostes, e desse marco se apresenta a grandeza da Igreja. Ali nasceu a Igreja de Cristo.

Lutero é tido pelo protestantismo como o tradutor da Bíblia e por ter desmascarado a Igreja Católica que inseriu arbitrariamente os deuterocanônicos no Cânon Bíblico. A Bíblia de Gutenberg foi escrita no século XV, em 1450. Nela encontramos os deuterocanônicos, além de ser a tradução do latim para o alemão dos textos sagrados. O Concílio de Trento ocorreu no século XVI, tendo seu início em 1545, ou seja, 95 anos após a edição da Bíblia de Gutenberg. Como Trento poderia ter inserido os deuterocanônicos se já circulava a Bíblia de Gutenberg um século antes?

Naquele exemplar antigo, estavam Tobias, Judite, Baruc, Eclesiástico, Sabedoria, I Macabeus e II Macabeus, e os elementos gregos de Ester e Daniel que foram categoricamente retirados pelos reformadores. Trento não manipulou os textos sagrados, mas os manteve tais como eram desde os tempos apostólicos.

A Epístola aos Esmirnenses foi escrita no século I, junto dos apóstolos, Inácio da Antioquia cravava na história: “Onde comparecer o Bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo que, onde estiver Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica”.

O Cânon de Muratori decretava: “[os livros apócrifos] não podem ser recebidos na Igreja Católica”.

Policarpo de Esmirna quando foi martirizado - ele próprio discípulo do Apóstolo João - com seu ato de bravura por Cristo comoveu os cristãos que a tal ponto que o povo do episcopado de Esmirna - onde São Policarpo foi Bispo - escreveu para os povos cristãos de outros bispados: “A Igreja de Deus que peregrina em Esmirna à Igreja de Deus que peregrina em Filomélio e a todas as paróquias da Igreja Santa e Católica em todo o mundo”.

Os critérios usados pelos judeus para a formação do seu Cânon:

1. O livro não poderia ter sido escrito fora do território de Israel.

2. O livro não poderia conter passagens ou textos em aramaico ou grego, mas apenas em hebraico.

3. O livro não poderia ter sido redigido após a época de Esdras (458-428 aC).

4. O livro não poderia contradizer a Lei de Moisés (Pentateuco).

Este critério exclue os 7 Livros, E TODO O NOVO TESTAMENTO. Portanto, os protestantes "deveriam" rasgar o Novo Testamento, se seguem o cânon judaico.

O Novo Testamento nunca foi aceito pelos Judeus, foi a Tradição da Igreja Católica que definiu o Cânon do N.T, assistida pelo Espirito Santo.

Para definir o Cânon para os cristãos, a Igreja na Constituição Dogmática Dei Verbum, exige somente um requisito: Que ele tenha partido da autoridade apostólica da Igreja Católica, tanto para os livros do Velho Testamento, quanto para os livros do Novo Testamento, de acordo com as evidências históricas e teologicas.

"As coisas divinamente reveladas, que se encerram por escrito nas Sagradas Escrituras e nesta se nos oferecem, foram consignadas sob influxo do Espírito Santo. Pois a Santa Mãe Igreja, segundo a fé apostólica tem como sagrados e canônicos os livros completos tanto do Antigo como do Novo Testamento, com todas as suas partes, por que, escritos sob a inspiração do Espírito Santo (cf. Jo 20,31; II Tim 3,16; II Ped 1,19-21; 3,15-16), eles tem em Deus o seu autor e nesta sua qualidade foram confiados a Igreja. (Concílio Vaticano II - Constituição Dogmática Dei Verbum nº 11).

Não foi Lutero que retirou os 7 livros. Na verdade ele até os traduziu, mas deixando-os em anexo, o que seria mais um questionamento com relação ao "nível" de Canonicidade destes Livros. Os protestantes os utilizaram até meados do século 19, e foram retirando aos poucos. Os Apóstolos utilizavam a Versão dos Setenta, conforme o Antigo Testamento da Bíblia Católica (exeto 2 livros).

Sobre os apocrifos: Vem "do grego apókryphon = oculto, secreto) e tais livros contêm por vezes doutrinas contrárias ao conjunto da Revelação e nunca foram lidas nas assembléias de culto, dái o nome apócrifo (não públicos, reservados) [BETTENCOURT, Dom Estevão: Para Entender os Evangelhos pg. 12. Rio de Janeiro: Editora Agir, 1960).

Não confunda apócrifos com deutero-canônicos. A Bíblia Católica nunca conteve livros apócrifos, já que não são inspirados.

Alguns apócrifos se servem para alguma coisa, são somente para alguns fatos históricos, nada mais, e olhe lá ainda.

Espero ter respondido sua dúvida, continue escrevendo e possívelmente poderá compreender uma vez por todas que a Igreja Católica é a única Igreja de Cristo que mantém a promessa da assistência e fidelidade do Senhor Jesus e quem sabe poderá abjurar os erros do protestantismo e regressar à Barca de Pedro.

PARA CITAR ESTE ARTIGO:

David A. Conceição,
Espaço do leitor – Rio de Janeiro, junho de 2012, blogue Apostolado Tradição em Foco com Roma.

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino