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A limitação de Satanás - Parte II


Estudo teológico sobre a natureza do Diabo, veja a primeira parte aqui

“Eras um selo de perfeição, cheio de sabedoria, de uma beleza acabada. Estavas no Éden, jardim de Deus, estavas coberto de gemas diversas: sardônica, topázio e diamante (...). Tamboríns e flautas estavam a teu serviço, prontos desde o dia em que foste criado. Eras um Querubim protetor colocado sobre a montanha santa de Deus; passeavas entre as pedras de fogo. Foste irrepreensível em teu proceder desde o dia em que foste criado, até que a iniquidade apareceu em ti. (...) Por isso eu te bani da montanha de Deus e te fiz perecer, ó Querubim protetor, em meio às pedras de fogo. Teu coração se encheu de orgulho devido à tua beleza, arruinas-te a tua sabedoria, por causa do teu esplendor; precipitei-te em terra, e dei com isso um espetáculo aos Reis.(...) foste banido para sempre.” Ezequiel 28, 11-19.

Se ele é bonito por ser o excelso dos anjos, como ele é retratato de forma horrenda nas pinturas?


Ele não foi criado com beleza material. Seres espirituais têm beleza à medida que têm bondade e estão na verdade.

O próprio texto mostra a indicação de tempo (antes e depois da queda).

Os verbos utilizados no passado: “Eras um selo de perfeição, cheio de sabedoria, de uma beleza acabada. Estavas no Éden, jardim de Deus, estavas coberto de gemas diversas: sardônica, topázio e diamante (...). Tamboríns e flautas estavam a teu serviço, prontos desde o dia em que foste criado. Eras um Querubim protetor colocado sobre a montanha santa de Deus; passeavas entre as pedras de fogo. Foste irrepreensível em teu proceder desde o dia em que foste criado, até que a iniquidade apareceu em ti."

E porque "o coração se encheu de orgulho devido à beleza"...

"eu te bani da montanha de Deus e te fiz perecer, ó Querubim protetor, em meio às pedras de fogo. Teu coração se encheu de orgulho devido à tua beleza, arruinas-te a tua sabedoria, por causa do teu esplendor; precipitei-te em terra, e dei com isso um espetáculo aos Reis.(...) foste banido para sempre.”

O diabo certamente não tem essa aparência, pois é um puro espírito. A perfeição natural dos anjos é pelo intelecto. Um anjo é mais perfeito do que outro na medida em que necessita de menos ideias para conhecer (a inteligência mais simples é a mais perfeita, tendendo para Deus). Agora, além da perfeição natural, Deus deu a todos eles a graça santificante, pela qual poderiam ordenar-se ao fim sobrenatural, que é a visão da essência de Deus. Satanás preferiu contrariar a graça, ao eleger sua própria natureza como fim último de sua bem-aventurança ou, se desejou a bem-aventurança que provém da graça de Deus, qui-la alcançar por suas próprias forças naturais.

Pecando, ficou confirmado no mal, pois o primeiro ato dos anjos foi seu único meritório ou demeritório. Os que mereceram a bem-aventurança alcançaram-na imediatamente depois de merecê-la.

Em 2. Is 14,12-14 o texto situa-se num quadro de oráculos sobre as nações estrangeiras; no caso é interpelado um rei da Babilônia: Nabucodonosor ou Nabônides. Todavia os antigos comentadores viam na queda da estrela dalva a queda do príncipe dos demônios.

O texto de Isaías pode ter sido uma referência imediata ao rei de Babilônia, todavia, pode ser também uma referência velada à Satanás. Sabemos muito bem que a Escritura tem mais de um sentido, além do sentido literal. Ela possui, na realidade, quatro sentidos. O rei de Babilônia e o rei de Tiro, no livro de Hezequiel, são tipos do diabo e seus anjos.

Os Padres da Igreja parece que interpretaram essas passagens desse jeito, e sabemos que o consenso dos Padres é norma católica para a interpretação da Escritura.

Vejam o caso da profecia de Isaías sobre a donzela que conceberia um menino. Isaías sequer usou a palavra "virgem" (betulah), mas usou "moça" (almah). Mais tarde, a LXX traduziu o termo por "parthenós".

O profeta do século VIII a.C. referia-se a um evento que acreditava se daria ainda no reinado de Achaz, pois o sinal se daria para o rei Achaz perceber que era Deus quem provocara a ruína dos seus inimigos: "Porque antes que o menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, cujos dois reis tu temes, será devastada" (Is 7,16). Podemos crer que essa profecia aplicar-se-ia tanto ao sinal recebido pelo rei Achaz, quando ao nascimento milagroso de Jesus Cristo.

Há uma tese despropositada, de que o Verbo se encarnaria independente da desgraça do homem. Essa tese é defendida pelos autores escotistas, os quais não li, mas, desde antes, Santo Tomás já a recusava e apontava seus defeitos. E Santo Tomás sabia, melhor do que Duns Scotus, harmonizar as fontes da Revelação com a reta razão.

Caso Adão tivesse passado na prova, o Filho de Deus nunca se encarnaria. Os anjos não tinham como saber os mistérios da União Hipóstatica, pois não conheciam os mistérios da graça. O mistério da Encarnação só foi revelado aos anjos a partir de sua bem-aventurança, isto é, aos anjos bem-aventurados (S. Th., I, q.57, q.5, ad.1), e, assim, mesmo, Santo Tomás distingue a manifestação desse mistério aos anjos de duas maneiras: uma em geral, e outra, em condições especiais. Em condições especiais, nem mesmo os anjos superiores o souberam desde o início de sua bem-aventurança.

Há coisas que, embora sejam possíveis, como a Encarnação não ser devida ao pecado original, só se assentam sobre a vontade oculta da Divindade (pois a criatura não tem nenhum direito à tal elevação), a qual só podemos conhecer por Revelação. E, contrariamente à tese, as Escrituras assinalam a Encarnação como remédio para o pecado.

Há outras coisas que são impossíveis ou incoerentes com a natureza dos anjos, como Satanás querer ser Deus: Santo Tomás argumenta que isso não teria lugar na mente de Satanás, posto que, por conhecimento natural, sabia ser impossível, e porque, a seu ato pecaminoso não precedeu nenhum hábito ou paixão que entorpecesse a sua capacidade cognitiva, de forma que errasse naquele caso concreto elegendo o impossível, como, às vezes, ocorre conosco.

E ainda que isso fosse possível, haveria de ser contrário ao desejo natural de conservar seu ser, pois desapareceria, se se convertesse em outra natureza. Nenhum ser pertencente a um grau inferior da natureza pode desejar o grau da natureza superior, como o asno não pode desejar ser cavalo, pois, tornando-se cavalo, deixa de ser asno. Mas, aqui, nos engana a imaginação, pois devido ao homem desejar elevar-se a um grau superior em que pode conservar suas características essenciais, mudando só acidentalmente, pensamos ser possível que um ser possa desejar um grau superior de natureza ao qual não pode chegar senão deixando de ser o que é. É evidente que Deus supera o anjo, não em condições acidentais, mas em grau de natureza, como também é esse o modo como um anjo supera o outro. Assim, um anjo não pode querer ser igual a Deus, nem mesmo ser igual a outro anjo, pois estaria desejando a sua própria aniquilação.

Santo Tomás também explica o sentido de Satanás ter desejado ser semelhante a Deus: e aí há duas possibilidades: ele pode ter querido ser semelhante a Deus em algo que não estava apto para ser (caso de desejar a Si mesmo, ou seja, sua própria natureza como fim último de sua bem-aventurança, ao invés de desejar a bem-aventurança sobrenatural, que consiste no conhecimento da essência da Divindade, para o qual fora criado), ou pode ter desejado a semelhança com Deus em algo perfeitamente lícito, mas querendo alcançá-lo por meios impróprios (caso de desejar a semelhança com Deus que provém da graça de Deus, mas querendo-a alcançar como prêmio de sua própria natureza, e não segundo a disposição do próprio Deus).

A última possibilidade adequa-se, segundo Santo Tomás, com a opinião de Santo Anselmo, que diz que, se o diabo tivesse perseverado, teria alcançado aquilo que desejou.

Em todo caso, o orgulho do diabo consistiu em não querer se adequar à lei do Criador. Uma vez que Deus estabeleceu a bem-aventurança como mérito que provém da graça, o diabo quis subverter essa lei. E, assim, foi por ela excluído.

A respeito dos demônios não poderem fazer o bem honesto: mesmo teólogos acham difícil explicar a obstinação no mal dos demônios e das almas condenadas. Essa obstinação fundamenta-se no fato de que, após a morte — e, no caso dos anjos, a queda —, finda o estado de merecer e desmerecer. Contudo, essa capacidade de merecer ou desmerecer diz respeito à bem-aventurança e ao mérito sobrenatural. Por que suas obras não são capazes do mérito puramente natural? Por que eles não são capazes de fazer o que a natureza é capaz de fazer sem a graça? A graça não é necessária sempre, e para todo ato honesto, em conformidade com o fim último.

Referências usadas nessa parte:

Livro: STEFFON, Pe. Jeffrey J. O Satanismo é real? Trad. Paulo Roberto Bernardo de Souza. Ed. Louva-a-Deus. Rio de Janeiro, 1994

Livro: FORTEA, Pe José Antonio. Svmma Daemoniaca: tratado de demonologia e manual de exorcistas. Trad. Ana Paula Bertolini. Ed. Palavra & Prece. São Paulo, 2010

PARA CITAR ESTE ARTIGO:

David A. Conceição,
A limitação de Satanás Parte II – Rio de Janeiro, junho de 2012, blogue Apostolado Tradição em Foco com Roma.

Contato tradicaoemfococomroma@hotmail.com

 

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