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A morte de Deus na Cruz


Se foi Deus quem morreu na Cruz, então foi toda a Trindade?

Não se separa a natureza divina da humana em Cristo.

Por isso dizemos que a Divindade permaneceu com Seu Corpo (morto) e com Sua Alma (viva) antes da Ressurreição, já que a natureza humana é perfeita se o corpo está unido à alma (competia a Cristo ser perfeito homem) e, em Cristo, esta união se deu pela Divindade que permanecia em ambos.

Jesus depois de crucificado, morreu realmente e foi sepultado. Todos os Evangelistas concordam em afirmar que Jesus "entregou o Seu espirito"

Ademais, homem que era perfeito e verdadeiro, Cristo podia também morrer, no sentido próprio da palavra. Ora, o homem morre, quando a alma se aparta do corpo. Portanto, com o dizermos que Jesus morreu, queremos simplesmente declarar que Sua Alma foi separada do Corpo.

Mas, por tal afirmação, não admitimos que do Corpo se tenha separado [também] a Divindade. Muito pelo contrario. Com fé inabalavel confessamos que, depois de separada a Alma do Corpo, a Divindade permaneceu sempre unida, não so ao Corpo no sepulcro, como também a Alma nos infernos.

Convinha que o Filho de Deus morresse, "a fim de aniquilar aquele que tinha o poder da morte, isto é, o demônio; e libertar aqueles que, pelo temor da morte, passavam toda a vida em escravidão" - Heb 2,14

O que houve de extraordinário em Cristo Nosso Senhor é ter morrido, quando Ele mesmo decretou morrer; e ter sofrido a morte por um ato de Sua vontade, e não por violência estranha. Foi Ele mesmo que determirnou não só a Sua propria morte, mas até o lugar e o tempo em que havia de morrer.

Assim, pois, profetizara Isaias: "Foi imolado, porque Ele proprio o quis" Is 53,7. E antes da Paixão, o Senhor mesmo disse de Si proprio: "Eu dou a Minha vida, para que a tome de novo. Ninguém a tira de Mim, mas sou Eu que a dou de mim mesmo. Tenho 0 poder de dá-la, e tenho 0 poder de toma-la de novo" Jo 10,17-18

Em seguida, confessamos que Cristo foi sepultado. Propõe-se esta parte do Artigo, não porque contenha nova dificuldade, além das que ja foram resolvidas acerca de Sua morte. Na verdade, fácil será persuadir-nos de que foi também sepultado.

a) Provar a morte real: acrescentou-se esta circunstância, antes de tudo, para que ficasse acima da menor dúvida a realidade de Sua morte. O sinal mais seguro de um trespasse está, pois, em provar-se que o corpo foi sepultado. Esse fato devia também dar maior realce ao milagre da Ressurreição.

b) Declarar que Deus foi sepultado conforme o dogma de fé expresso naquelas palavras, não cremos simplesmente que o Corpo de Cristo teve sepultura; mas confessamos antes de tudo que [o próprio] Deus foi sepultado. De maneira análoga, dizemos em toda a verdade, e conforme a regra da fé catolica, que foi Deus quem morreu, e quem nascera de uma Virgem.

De fato, assim como a Divindade nunca se apartou do corpo, quando encerrado no sepulcro, assim temos também toda a razão de confessar que Deus foi sepultado.

O Corpo de Cristo ficou no sepulcro perfeitamente livre de toda decomposição conforme disse o profeta: " Não permitireis que o Vosso santo sofra a corrupção"

Assim nos ensina a Fé Católica através do Catecismo Romano.

Jesus era verdadeiro Deus e verdadeiro homem - ele ERA e não ESTAVA. Portanto, quando Jesus morre, seu Corpo e sua Divindade vão ao sepulcro por 3 dias - logo - Deus também foi sepultado.

A questão é assustadoramente simples:

1) O que é a morte?

Resposta: É a separação da alma e do corpo.

2) Quando morremos, deixamos de existir?

Resposta: Não.

3) Deus quis ter um corpo?

Resposta: Sim, Deus se fez homem no mistério da Encarnação.

Logo, Deus passou por todos os sofrimentos humanos, inclusive a morte, uma vez que se fez homem e tinha um corpo. Simples assim. Não entendo a dificuldade, e imagino que seja porque, vergonhosamente, ainda pensamos a morte como um "final", um "acabar", um "deixar de existir", nada devendo a um legítimo ateu.

Jesus (Pessoa) morreu na cruz enquanto homem (natureza). Os atributos de cada natureza (criar para Deus, morrer para o homem, etc.) são separáveis, mas a Pessoa não é.

Seria correto dizer que a Pessoa divina de Cristo morreu com sua natureza humana ou enquanto homem.

Deus morreu com sua natureza humana. Quando eu digo Deus, estou me referindo à Pessoa. E a Pessoa de Cristo é indivisível. Mas essa Pessoa indivisível subsiste em duas naturezas: a humana e a divina, de sorte que não se pode misturar ou confundir os feitos ou as propriedades das duas naturezas. Escapar-se-ia do nestorianismo, mas se cairia no monofisismo, que é a heresia contrária.

Quando se fala que Deus passou pelos sofrimentos humanos, a palavra Deus não designa o agir segundo a natureza divina, mas a própria Pessoa divina, subsistindo em sua natureza humana.

Credo de Calcedônia:

Fiéis aos santos pais, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, perfeito quanto à humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, constando de alma racional e de corpo; consubstancial, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; em todas as coisas semelhante a nós, excetuando o pecado, gerado segundo a divindade antes dos séculos pelo Pai e, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, gerado da virgem Maria, mãe de Deus;

Um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis e imutáveis, inseparáveis e indivisíveis; a distinção da naturezas de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem intactas, concorrendo para formar uma só pessoa e subsistência; não dividido ou separado em duas pessoas
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Mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor; conforme os profetas outrora a seu respeito testemunharam, e o mesmo Jesus Cristo nos ensinou e o credo dos pais nos transmitiu.

A doutrina católica se coloca entre dois extremos. Temos que evitar os dois extremos: de um lado temos o nestorianismo, que divide as Pessoas, de outro, o monofisismo, que une as naturezas numa só. Tanto um, quanto o outro, são heréticos e condenados.

Jesus nasce da Virgem Maria, chora, morre, enquanto homem; e ressuscita os mortos, cura os enfermos, enquanto Deus. Devemos atribuir as propriedades da natureza divina e as propriedades da natureza humana à mesma Pessoa, que é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, mas não dizer que uma propriedade de uma natureza se aplica à outra. Por isso, não pode dizer que Jesus morreu (propriedade da natureza humana), enquanto Deus (expressão que designa o que é conforme à natureza divina).

A morte de Cristo também significou que a sua natureza humana deixou de existir temporariamente, pois o homem se define como o ser que existe debaixo da união substancial entre alma e corpo. Mas, tanto a alma separada, quanto o corpo inerte de Cristo, permaneceram unidos hipostaticamente à Sua Divindade.

David A. Conceição 06/2012
A morte de Deus na cruz Apostolado Tradição em foco com Roma

 

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