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Novela “Que Rei Sou Eu?” e a Sucessão Monárquica Britânica


E segue a reprise de Que rei sou eu? com entusiasmo do público jovem pelo fascínio histórico da Monarquia e também pelo talento do elenco da produção. Da trilha sonora destaca-se Chama - Roupa Nova e a voz afiada de Léo Jaime com Medieval.


Ravengar (Antônio Abujamra) continua preparando Pichot (Tatu Gabus) para que possa ser coroado rei de Avilan. A intenção da quebra da linha sucessória que por direito seria de Jean Piérre (Edson Celulari) é para que ele pudesse continuar com as rédeas do governo, como faz com a Rainha Valentine (Tereza Rachel).

A euforia da eleição de 1989, quando o presidente da república iria ser eleito por votação direta, após 30 anos, serviu de inspiração para a novela. "Que Rei Sou Eu?" refletia esse momento histórico e político como uma sátira inteligente. Não faltaram críticas a novela sobre este assunto. Houve quem visse no herói da história uma campanha velada da Globo por Fernando Collor de Mello, então candidato à presidência da República. Afinal, o "caçador de marajás" também vendia a imagem de jovem líder político e inimigo da corrupção, como Jean Pierre.


Sucessão Monárquica Britânica



Se Monarquia Parlamentarista fosse sinônimo de atraso, por que povos tão adiantados como o britânico, canadense, australiano, espanhol, holandês, sueco, japonês etc não abrem mão de algo tão arcaico?

A História de tradição não é desculpa, pois a Holanda restaurou sua Monarquia após mais de 200 anos de República, a Espanha restaurou sua Monarquia após 40 anos de República, o Camboja restaurou sua Monarquia após 23 anos de regime comunista e ainda mesmo sendo uma Monarquia por apenas 20 anos de independência!

Todos os atos, bons ou ruins, são precedidos de hipóteses e pensamentos. E este não é algo inalcansável ou apenas sonho. A nossa constituição nos dá uma brecha para retornar com a monarquia parlamentariasta, ou seja, é algo plenamente alcançavel.

Teríamos partidos políticos verdadeiros, um parlamento forte, um governo escolhido pelo povo, que votaria no partido que desejaria para governar o país e não em líderes populistas, um Chefe de Estado acima dos partidos, predisposto a interferir para fazer valer a vontade o povo e acima de tudo representação da ética, dos valores morais e uma figura de grande influência tantos nas instituições quanto nos costumes.

Desde a queda dos Stuarts, o rei (ou rainha) da Inglaterra, assim como o primeiro-ministro, têm que ser anglicanos, pelo menos jamais católicos! Aliás, até hoje, Sua Majestade ainda usa o título de Defensor Fidei, concedido por Leão X a Henrique VIII, quando ele defendeu a Fé Católica contra Lutero. Infelizmente, Henrique VIII, por motivos pessoais, provocou o cisma anglicano, que se tornou protestante com seu herdeiro, Eduardo VI.

Tony Blair, após ter renunciado seu cargo de primeiro-ministro, pediu sua admissão à Fé Católica. Alguns anos atrás, a Duquesa de Kent (prima da rainha e sua confidente) renunciou à linha sucessória e também foi recebida na Igreja Católica pelo falecido arcebispo de Westminster, o cardeal Basil Hume. Trata-se de uma lei anacrônica, como a definiu o atual primaz da Inglaterra e Gales, o cardeal Cormac Murphy-O'Connor, mas continua em pé. Aliás, a primeira família, após a real, do Reino Unido, a do Duque de Norfolk, voltou ao catlocismo no fim do século XIX.



Desde do início do século XVIII os soberanos e o primeiro-ministro do Reino Unido têm que ser anglicanos. Vamos a pouco de história. Henrique VIII para divorciar de sua rainha e se casar com sua amante, não conseguindo convencer o Papa Clemente VII (1523-1534) para anular-lhe o casamento, fez o Parlamento proclamá-lo "Governador Geral da Igreja da Inglaterra", cancelando a jurisdição do Papa sobre a Inglaterra. O cisma anglicano levou-o ao protestantismo sob o filho de Henrique VIII, Eduardo VI.

Em 1685, morria Charles II. No leito de morte, ele abjurou o protestantismo e morreu católico. Ele foi sucedido por seu irmão, James, o Duque de York que se convertera ao catolicismo em 1668. O Duque de York, agora rei James II levou numa "boa" o seu papel. Assistia o culto anglicano, pois era o chefe da igreja da Inglaterra e privadamente, assistia missas, fazia suas orações em sua capela particular diante de um padre católico.

Em 1671, o rei James II ficou viúvo. Contraiu novas núpcias com uma princesa católica, Maria de Módena em 1673. Naceram deste casamento dois filhos. Os dois foram batizados na fé católica. A possibilidade da Inglaterra vir a ser governada por uma dinastia católica, levou o clero anglicano e alguns nobres e destronarem James II, convidando o luterano William (que era alemão) e que era casado com uma filha do primeiro casamento do rei para se tornarem rei e rainha da Inglaterra. William tornou-se anglicano e James II, para evitar uma guerra civil, exilou-se na França. Aí, o Parlamento britânico legislou que o rei da Inglaterra deveria sempre ser anglicano e que jamais poderia se casar como uma princesa católica. Assim, terminou a verdadeira monarquia de sangue inglês na Inglaterra, pois a atual (a casa de Windsor) é de origem alemã. O último Stuart de puro sangue azul inglês foi o Cardeal Henry Stuart, o cardeal Duque de York, que morreu em Roma como cardeal-bispo de Óstia e Frascati, decano do Sacro Colégio e que está sepultado com outros Stuarts na Basílica de São Pedro no Vaticano.

O rei Jorge VI, pai de Elisabeth II, com o consentimento do Papa, fez esculpir sobre o túmulo do Cardeal de York uma coroa com as armas da Inglaterra. Um reconhecimento póstumo de sua realeza.

De acordo com The Declaration into a Bill of Rights de 1701, todo príncipe de sangue real perde o direito a Coroa se não for anglicano. Se já for rei e tornar-se católico, perde a Coroa. O mesmo ato, também, impede que o rei ou a rainha da Inglaterra possa se casar com uma católica, embora não cite outras religiões. Acho que a esposa do rei poderia ser budista, por exemplo. No caso de James II, a coroa foi oferecida ao luterano William of Orange casado com Mary II, filha do primeiro casamento de James II, que não seguira o pai na conversão ao catolicismo. A mesma lei dispunha que se este casamento não gerasse filhos (e que aconteceu), o trono passaria a outra filha do primeiro casamento de James II, que foi a rainha Anne casada com o Príncipe George da Dinamarca.

Os cinco filhos de Anne morreram antes da mãe. Aí a coroa inglesa foi oferecida ao Príncipe alemão George I de Hanover. O nome desta dinastia era Casa de Hanover ou Battenberg. Durante a I Guerra Mundial, com a Grã-Bretanha em guerra contra a Alemanha, o rei George V traduziu o nome Battenberg para Mountbatten e batizou como Dinastia de Windsor.

Por isso, a atual família real é de origem germânica, enquanto que os Stuarts eram da mesma cepa dos Tudors, York, Lancaster, Plantagenets. O último "rei" de sangue inglês foi o cardeal Henry, Duque de York (1725-1807), que era chamado pelos ingleses "tradicionais" de Henry IX. O Cardeal Duque de York era neto do rei James II e ao escolher a vida eclesiástica, deu fim à linha dos Stuarts. Ele era bispo de Frascati e imensamente rico e com seu dinheiro construiu seminários, colégios em Frascati.

Nos conclaves que elegeram Clemente XIV (1769) e Pio VI (1775) ele era favorito, mas abriu mão do pontificado romano para não piorar a situação dos católicos ingleses. Ele morreu pobre, pois gastou toda a sua fortuna para pagar o resgate do Papa Pio VII, preso por Napoleão Bonaparte. O seu primo, o rei George III deu-lhe uma pensão para que ele vivesse dignamente. Aliás, o rei era grato ao cardeal de York, pois ele sendo padre e bispo não tinha filhos e aí acabava a pretensão de restauração dos Stuarts.

Uma última curiosidade sobre este cardeal-rei. A linhagem apostólica do Papa João Paulo II passa pelo cardeal Henry, Duque de York, como principal bispo sagrante. Aí, abaixo segue uma curiosidade com o nome onde ocorreu a ordenação episcopal e o ano:
Papa João Paulo II (Karol Józef Wojtyla), Cracóvia, 1958, foi ordenado bispo por:

Arcebispo Eugeniusz Baziak, Lwów, 1933, foi ordenado bispo por:

Arcebispo Boleslaw Twardowski, Lwów, 1919, foi ordenado bispo por:

Beato Arcebispo Jozef Bilczewski, Lwów, 1901, foi ordenado bispo por:

Cardeal Jan Maurycy Pawel Puzyna de Kosielsko, Roma, 1886, foi ordenado bispo por:

Cardeal Mieczyslaw Halka Ledochowski, Roma, 1861, foi ordenado bispo por:

Cardeal Camillo Di Pietro, Roma, 1839, foi ordenado bispo por:

Cardeal Chiarissimo Falconieri Mellini, Roma, 1826, foi ordenado bispo por:

Papa Leão XII (Annibale Francesco della Genga), Roma, 1794, foi ordenado bispo por:
Cardeal Henry Stuart, Duque de York, Roma, 1758, foi ordenado bispo por:

Clemente XIII (Carlo della Torre Rezzonico), Roma, 1743, foi ordenado bispo por:

Bento XIV (Prospero Lorenzo Lambertini), Roma, 1724
... e assim por diante até São Pedro.

Há um termo muito caro aos anglicanos, a palavra comprehensiveness, uma espécie de "jeitinho" para acomodar todas as coisas, inclusive as mais controversas. Portanto, dentro deste espírito, cada caso pode ser acomodado, politicamente de maneira diferente. Vimos isso, reentemente. O Príncipe de Gales, Charles o herdeiro, divorciado se unindo a uma divorciada (Camilla Parker-Bowles) sob as bênçãos de sua igreja, privadamente diante do Dr. Rowan Williams, o atual primaz anglicano. No entanto, o rei Edward VIII (tio da rainha Elisabeth II) em 1936 não teve a mesma sorte.

Ele, que era solteiro, quis se casar com uma norte-americana divorciada, Mrs. Wallis Warfield Simpson e por pressão da igreja anglicana, de membros do Parlamento e do primeiro-ministro Stanley Baldwin, teve que abdicar do trono em favor de seu irmão, o Duque de York, que se tornou o rei George VI. O ex-rei viveu o resto de seus dias na França com o título de Duque de Windsor.

Pelo Supremacy Act de 1534, a Igreja da Inglaterra por um ato do Parlamento separou-se de Roma, por causa do divórcio de rei Henrique VIII, negado pelo Papa e o rei tornou Supreme Head in Earth da Igreja, embora o rei prefiresse o título de Supreme Governor, sendo o arcebispo de Canterbury, nomeado por ele, o líder real da Igreja da Inglaterra. Quanto à doutrina, a história é extremamente conturbada com tantas idas e vindas. A inesperada conversão do chefe da Igreja Anglicana ao catolicismo às vésperas da morte, como foi o caso do rei Charles II criou um embaraço, que piorou com a acessão de seu irmão, o Duque de York, que há muito, voltara à fé antiga, i.e., o rei James II e mais, depois que ficou viúvo, o seu novo casamento com uma princesa católica, Maria de Módena, o que garanteria daí em diante um rei católico, chefe de uma igreja meio-protestante.

Outra coisa que irritou os anglicanos foi o fato de James II ser um monarca tolerante: não só aboliu muitas restrições que havia contra os católicos, mas também permitia a liberdade de consciência a outros grupos protestantes dissidentes que não aceitavam as práticas anglicanas. Através do Bill of Rights de 1689 e do Act of Settlement (1701), definitivamente, definia que o soberano tinha que ser membro da Igreja da Inglaterra.

Por este ponto, Charles, ao menos, nominalmente, ainda que casado com uma divorciada em claro contraste com o Evangelho, deve continuar anglicano se quer manter a coroa. Porém, o que conta é o termo mágico chamado comprehensiveness que permite dar um jeitinho em tudo, a coisa pode ser mudada de novo. Isso evidencia o drama de uma comunidade cristã que se democratiza. Ela fica a sabor dos modismos e da opinião pública. Nada é definido e a mensagem de Cristo se evapora. Atualmente, os "espinhos" anglicanos são a ordenação de mulheres como padres e bispos. A ordenação de gays, como o caso de Gene Robinson, que divorciado, pai de duas filhas, vive com seu "marido" há mais de 15 anos e foi sagrado bispo de New Hampshire nos EUA. Tudo numa "boa"! Infelizmente, é o destino daqueles que rompem com o tronco estabelecido por Cristo, isto é, com a sede de Pedro.

O cardeal Cormac Murphy-O'Connor, arcebispo católico de Westminster, faz um pronunciou a respeito. Aliás, no Natal de 2006, ele foi convidado pela Rainha para celebrar para a família real esta solenidade. Foi a primeira vez em mais de 400 anos! A verdade que o anglicanismo passa, assim como todas as igrejas cristãs, por grandes dificuldades em sua relação com um mundo que deixou Deus de lado. A escolha deles de contemporizar e fazerem concessões deram em nada. Apenas a igreja perdeu o pouco crédito que tinha. Há anglicanos que dizem, abertamente, que a "Comunhão Anglicana" acabou.

No último Sínodo Anglicano em Lambeth, quase um terço dos bispos anglicanos nem compareceram. Na véspera do Sínodo, o Dr. Rowan Williams fez uma viagem relâmpago a Roma e se entrevistou com o Papa. Parece que ele está negociando com a Igreja uma saída para o impasse e como a Igreja poderia acolher os anglicanos descontentes. Várias dioceses anglicanas (UK) e episcopais (EUA) vêm negociando com Roma abertamente. É inevitável um cisma. Entre as muitas correntes, predominam três: Anglo-catholics, que são conservadores e que ouvem mais o Papa do que o Sínodo Anglicano; High-church que tenta preservar a sucessão apostólica, mas está sendo minada por liberais laicos e revisionistas e Evangelicals, inclinados ao protestantismo subjetivista, fundamentalista numa linha cripto-calvinista.

Segundo uma colunista do The Times, Ruth Gledhill que é anglicana, relativamente jovem e meio ecumênica e que mantem um blog meio irreverente, ela chamou o último Sínodo Anglicano de Circus of Lambeth. Segundo ela, o grande vencedor foi o Dr. Rowan Williams que evitou o pior: o cisma, O Sínodo não decidiu nada. Continuam ganhando tempo. Segundo a bem informada Ruth Gledhill, a palestra "fechada" do cardeal Walter Kasper, convidado pelos bispos anglicanos, foi uma chamada contundente. Teria dito ele que o tempo acabara. Não há mais alternativas. Os anglicanos ou são católicos ou são protestantes. O diálogo ecumênico entrou em parafuso.

A Escócia é o Estado mais antigo da Europa. Tem uma história gloriosa. Resistiram aos invasores romanos na antiguidade e aos ingleses na idade média. Foi um rei escocês que dominou a Inglaterra, e não o contrário. Hoje é grande produtor de petróleo mas permanece oprimida. Espero que por pouco tempo.

Em caso de separação com a Inglaterra, qual seria o caminho a seguir, república ou monarquia?

Republica. Em 1707 os títulos de Rei da Escócia e de Rei da Inglaterra deixaram de existir. A não ser que decidam permanecer na Commonwealth, o que considero pouco provável. Os demais títulos de nobreza existem, a começar pelo marido da rainha, o príncipe/duque Philippos Schleswig-Holstein Soenderburg-Glucksburg da Grécia e Dinamarca.

Em última instância não existe nacionalidade na nobreza européia, por isso houve períodos que as monarquias se ajudavam, afinal no fundo são todos parentes, séculos de casamento de nobres com nobres de diversas nacionalidades criaram as mais diversas guerras de sucessão, porque o povo mantinha reticências em aceitar um rei de outro país, mas para os nobres nada disso importava, apenas a manutenção do poder da aristocracia.

Mas eu acho meio improvável a Escócia voltar a ser independente justamente pelo petróleo, e isso representaria uma ameaça ainda maior para a situação da Espanha, Bélgica e outros mais.

As Irlandas eu acredito que não se juntem nem que é pau, é mais fácil valões e flamengos continuarem debaixo do mesmo "teto".


Finalizando, uma questão engraçada é achar que a volta da monarquia quer um monarca que governe... Abram suas mentes caros, primeiramente queremos parlamentarismo, onde o Chefe de Estado possui o poder de moderar e o Chefe de Governo possui o poder de executar.

Nós não queremos um monarca apartidário no governo, pois o governo necessita de tendências políticas, não tem como o Chefe de Governo representar a nação (que é o papel do Monarca), ele representa a maioria dela.

Quem representa a nação é o Chefe de Estado, este é melhor ser apartidário, porque como alguém com tendências políticas pode representar a nação? que possui esquerdistas e direitistas? Um Chefe de Estado Socialista, não representa a parcela da população Social-Democrata.

E como alguém com tendências políticas pode moderar os outros poderes? O presidente do partido comunista nunca irá dissolver um gabinete de ministros onde o 1o ministro é do seu partido.

E possuindo tendências políticas contrárias a do Primeiro Ministro, o Presidente pode ter problemas com o Primeiro Ministro.


PARA CITAR ESTE ARTIGO:

David A. Conceição,
Novela Que rei sou eu e a Sucessão Monárquica – Rio de Janeiro, maio de 2012, blogue Apostolado Tradição em Foco com Roma.

 

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