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O grau do ciúme



Apesar de alguns sentimentos serem emocionantes, contagiantes, lindos, nem sempre eles levavam a caminhos certos racionalmente. Um deles é o ciúme. Muitas vezes eles apesar de serem puros, nós sabemos que dar seguimento aos nossos sentimentos e seguir o nosso coração sem olhar outras coisas, se torna racionalmente uma cegueira. No momento em que o ato passa a conter os elementos: deliberação e consentimento, isto é, seja livre, voluntário, e consciente, então ele se torna passível de moralidade, seja ela "positiva" ou "negativa" (pecado).

Como estamos chegando perto do dias dos namorados e geralmente só se fala em temas românticos e açúcarados, vou dar ênfase para essa sensibilidade que nunca é mencionada nos apostolados virtuais.

Não tem nada de natural no ciúme. Se algo é natural para nós, é também natural para ao menos alguns outros animais. E animais não tem ciúmes. O macho alfa de uma matilha pega todas as lobinhas, o leão que é dono do território se reproduz com todas as fêmeas e nenhuma delas se engafinham e armam barraco no meio da savana.

Algumas outras espécies de animais, como os chimpanzés Bonobos, por exemplo, apresentam padrões de relacionamento bastante "promíscuos" e até mesmo homossexuais, salvo engano.

O que deu cenário para o nosso ciuminho foi o tipo de relação afetiva que construímos, baseado na monogamia. Aliado a isso, vem toda uma cultura que ensina a ter um único parceiro amoroso para ser feliz. Perder esse parceiro - seja para quem for - é um estímulo que sinaliza a perda de um potênte de um reforçador para a pessoa. A maneira como cada um reage a perda de reforçadores tá contingente à história de aprendizagem do indivíduo.

E como a maioria de nós foi criado à base do "esse brinquedinho é meu e não seu", seguido de soquinhos ou choros, eis que emitimos respostas mais ou menos semelhantes que se encaixam sob o rótulo do "sentir ciúmes".

Embora o ciúme seja uma característica natural do ser humano, ele não se manifesta sozinho. É aquela velha história do genétipo X fenótipo. O genótipo é sua carga genética, características fisiológicas, morfológicas e comportamentais selecionadas filogeneticamente. O fenótipo, são estas mesmas categorias de características, mas em sua manifestação que ocorre na interação de sua biologia com o ambiente.

Para que as características genotípicas se manifestem em fenótipo deve existir interação entre a determinação genética e o ambiente, formando uma característica fenotípica. Se o ambiente não contribui, elas não se manifestam.

Seguindo a lógica evolutiva, pode-se ter ciúmes de amigos, eles representam um tipo de segurança. A convivência em grupo torna mais provável a sobrevivência ou aptidão a lidar com o ambiente.

Sobre o ciúme do parceiro. Diante de algo que ameaça a perda de algo que, de algum modo, possa favorecer a sua aptidão ou de seus genes, se reage de maneiras a tentar evitar isto. O sentimento desagradável é seu corpo reagindo a aquela situação ameaçadora, as coisas que você faz, as atitudes que toma com relação a aquilo, são seu modo de tentar evitar, seja através de brigas, ou de depressão, ou somatizações, ou qualquer coisa, cada um aprende de um jeito, mas com esta finalidade.

O que leva uma pessoa a se interessar por outra já comprometida é essa sinalização de que é aquela pessoa comprometida que, junto a quem se interessa por ela, proporcionará uma vida (caso da mulher) ou prole (caso do homem, em especial) mais adaptativa ao ambiente.

O interesse se dá em direção ao par que "sinaliza" condições de perpetuação de seus genes, de uma maneira ou outra. Se se já está em uma relação, nela tem alguma segurança, a princípio, mas se outra pessoa atrai, é porque ela sinaliza esta possibilidade.

Se o parceiro não sinaliza estas possibilidades, maiores as chances de você se interessar por outra pessoa.

Imaginei duas cituações de "ciúmes":

1) A bolinha com que o cachorro costuma brincar é dada para algum outro animal. O cachorro apresenta comportamentos que poderiam ser interpretados como ciúmes da bolinha, já que costuma fazer de quase tudo pra pegá-la de novo, mesmo que seja só pra colocar no cesto de brinquedos de novo. Já vi muito disso acontecer. Mas isso me pareceu mais uma coisa de posse/territoriedade do que o ciúmes humano.

2) Cachorro A (ou outra pessoa, rs) recebe carinhos e mimos do dono em frente ao outro cão, B. O cachorro B começa a latir pra pessoa e às vezes a pular nela, num tipo de comportamento que poderia ser interpretado como "chamar a atenção para receber carinho". Se o carinho dado ao cachorro A cessa, o comportamento de B também cessa. Vi isso acontecer tbm, repetidas vezes, e não apenas com cães.

O ponto que ficou na minha cabeça sobre essa situação é o seguinte: O cachorro B não tem ciúmes do cachorro A, mas sim da situação que está "vendo" no momento. Quando o comportamento de dar carinho cessava, o cachorro também parava de latir. E posteriormente, cachorro A e cachorro B agem normalmente um com o outro.

O ciúme animal parece ser muito mais situacional do que o humano. Seguindo a "explicação" que eu dei, o nosso ciúmes parece atribuir à outra pessoa (que não o parceiro amoroso) o caráter de estímulo aversivo. Pareamento da situação vista/conhecida com o estímulo anteriormente neutro (a outra pessoa), talvez. I don't know.

Mas enfim.. isso não parece acontecer com os animais. Parece que o ciúme encontrado na natureza tem propriedades bastante diferentes do nosso que, na minha opinião, é muito mais uma produção social do que natural.

Na inveja, além da vontade de posse do objeto, existe certa vontade de destruí-lo, como que num pensamento "se não posso ter, ninguém o terá". Já no ciúme não existe essa força destrutiva por trás.

O ciúmes é baseado em algo não palpável, comedido da imaginação, de que algo ou alguém está disposto à outra pessoa, e não a você. Sendo assim, o ciúmes pode ter uma fundamentação até mesmo de atitudes e contextual, mas, ele não é algo palpável a ponto de ser destruido, sua função é somente redirecionar àquele objeto de desejo de volta à si.

A inveja, remete-se a algo "de outra pessoa". Temos inveja é daquilo que o outro tem, e não nós, então existe aí uma certa necessidade de destruição desta, para que não seja única daquele indivíduo, e a destruição, deixo claro, não é destruição física do objeto ou da pessoa. Esse tipo de destruição, pode ser uma transfiguração, como numa tentativa de racionalizar e ver os lados negativos, afim de contrariar essa inveja.

Essa destruição, não é algo, que vá afetar necessariamente o outro indivíduo. Poderá ser uma destruição ao menos, da sua imagem formada dele (que ele toca muito mais que você). Essa destruição, já seria um limiar "destrutivo" da questão, e seria o fator que lhe faria sentir a "plenitude" procurada quando a inveja o acometeu. Como eu disse, sei que o termo parece um tanto agressivo, mas não é de fato algo fundamentalmente agressivo. violento.

O ciúme pode derivar por extensão de sentido. A possibilidade de grau aumentar passando para a ira é algo inevitado dependendo de como a violação da unificação amorosa se constituir.

A ira, considerada como paixão, é uma necessidade violenta de reação, determinada por um sofrimento ou contrariedade física ou moral. Esta contrariedade desencadeia uma emoção violenta que distende os forças no intuito de vencer a dificuldade: sentem-se então impulsos de descarregar a cólera sobre pessoas, animais ou coisas.

Distinguem-se duas formas principais: a cólera rubra ou expansiva nos fortes, e a cólera branca ou pálida, ou espasmódica nos fracos. Na primeira, bate o coração com violência e impele o sangue para a periferia: acelera-se a respiração, purpureia-se o rosto, incha o pescoço, desenham-se as veias sob a pele; eriçam-se os cabelos, faísca o olhar, saltam das órbitas as pupilas, dilatam-se as narinas, enrouquece a voz, entrecortada, exuberante. Aumenta a força muscular, todo o corpo se distende para a luta, e o gesto irresistível fere, quebranta ou afasta violentamente o obstáculo. – Na cólera branca, contrai-se o coração, torna-se a respiração difícil, cobre-se a face de palidez extrema, goteja a fronte suor frio, cerram-se as maxilas, guarda-se um silêncio impressionante; mas a agitação, contida no interior, acaba por estalar brutalmente, descarregando-se por meio de golpes violentos.

A ira, considerada como sentimento, é um desejo ardente de repelir e castigar um agressor.

Há uma cólera legítima, uma santa indignação, que não é senão o desejo ardente, mas radical, de infligir aos criminosos o justo castigo. Foi assim que Cristo Senhor Nosso entrou em justa cólera contra os vendilhões que com o seu tráfico contaminavam a casa de seu Pai; o sumo sacerdote Heli, pelo contrário, foi severamente censurado por não ter reprimido o mau procedimento de seus filhos.

Para ser legítima, a cólera tem que ser:

Justa no seu objeto, não tendo em vista senão castigar a quem o merece e na medida em que o merece;

Moderada no seu exercício, não indo mais longe do que reclama a ofensa cometida e seguindo a ordem que demanda a justiça;

Caritativa na sua intenção, não se deixando arrastar a sentimentos de ódio, não procurando senão a restauração da ordem e a emenda do culpado. Qualquer destas condições que falte, haverá excesso repreensível. – É sobretudo nos superiores e pais que a cólera é legítima; mas os simples cidadãos têm por vezes direito e dever de se deixarem inflamar de cólera santa, para defenderem os interesses da cidade e impedirem o triunfo dos maus; é que, efetivamente, há homens que a doçura deixa insensíveis, e nada temem senão o castigo.

Mas a cólera, que é vício capital, é um desejo violento e imoderado de castigar o próximo, sem atender às três condições indicadas. Muitas vezes é a cólera acompanhada de ódio, que procura não somente repelir a agressão, mas ainda tirar dela vingança; é um sentimento mais refletido, mais duradouro, e que por isso mesmo tem mais graves conseqüências.

A cólera tem graus:

Ao princípio, é apenas um movimento de impaciência: mostra-se mau humor à primeira contrariedade, ao primeiro revés;

Depois, é arrebatamento, que faz que um se irrite desmedidamente e manifeste o descontentamento com gestos desordenados;

Às vezes, vai até à violência e traduz-se somente por palavras, mas até por golpes;

Pode chegar ao furor, que é uma loucura passageira; o colérico nesse caso já não é senhor de si mesmo, mas deixa-se arrebatar a palavras incoerentes, a gestos tão desordenados que antes se diriam um verdadeiro acesso de loucura;

Enfim, degenera por vezes em ódio implacável que não respira mais que vingança e vai até desejar a morte do adversário. Importa discernir estes graus, para apreciar a sua malícia.

Podemo-la considerar em si mesma e nos seus efeitos. Em si mesma, pode sugerir ainda várias distinções:

Quando a cólera é simplesmente um movimento transitório de paixão, é de sua natureza pecado venial: porque então há excesso na maneira por que ela se exerce, neste sentido que ultrapassa a medida, mas não há, assim o supomos, violação das grandes virtudes da justiça ou da caridade. - Há casos contudo em que é talo excesso, que o colérico perde o domínio de si mesmo e se deixa arrastar a graves insultos contra o próximo. Se estes movimentos, posto que passionais, são deliberados e voluntários, constituem falta grave; muitas vezes, porém, não passam de semi-voluntários.

Estes remédios devem combater a paixão da cólera e o sentimento do ódio que às vezes dela resulta:

Há meios higiênicos, que contribuem para prevenir ou moderar a cólera: tais são um regime alimentício emoliente, banhos tépidos, duchas, abstenção de bebidas excitantes, e em particular das alcoólicas: por causa da união íntima entre o corpo e a alma, é mister saber moderar o mesmo corpo. Mas, como nesta matéria, é preciso ter em conta o temperamento o estado de saúde, requer a prudência que se consulte um médico

Mas os remédios morais são ainda melhores.

Para prevenir a cólera, é bom acostumar-nos a refletir, antes de fazer qualquer coisa, para nos não deixarmos dominar pelos primeiros ímpetos da paixão: trabalho de longa duração, mas eficacíssimo.

Quando esta paixão, a despeito de todas as cautelas, nos sobressaltou o coração, «melhor é sacudi-la com presteza que querer negociar com ela; porque, por pouco lugar que lhe demos, se faz senhora de toda a praça, havendo-se como a serpente que introduz facilmente todo o corpo, por onde pode meter a cabeça... É mister, logo que a sentirdes, convocar prontamente vossas forças, não áspera nem impetuosamente, mas suave e ainda assim seriamente. Aliás, se quisermos reprimir a cólera com ímpeto, mais nos perturbaremos.

Para melhor sofrear a ira, é útil divertir a atenção, isto é, pensar em qualquer coisa diversa do que a possa excitar; é necessário, pois, desterrar a lembrança das injúrias recebidas, afastar as suspeitas, etc.

Devemos invocar o auxílio de Deus, quando nos vemos agitados pela cólera, à imitação dos Apóstolos, combatidos pelo vento e tempestade no meio do mar, porque Deus mandará às nossas paixões que sosseguem e sobrevirá grande tranqüilidade.

Quando a cólera excita em nós sentimentos de ódio, rancor ou vingança, é impossível curá-los radicalmente com outro remédio que não seja a caridade fundada no amor de Deus. É caso, então, de nos lembrarmos que somos todos filhos do mesmo Pai celestial, incorporados no mesmo Cristo, chamados à mesma felicidade eterna, e que estas grandes verdades são incompatíveis com qualquer sentimento de ódio. Assim pois:

Recordaremos as palavras do Pai-Nosso: perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e como desejamos vivamente receber o perdão divino, de mais bom grado perdoaremos aos nossos inimigos.

Não esqueceremos os exemplos de Cristo Senhor Nosso, chamando a Judas seu amigo, ainda no momento da traição, e orando do alto da cruz pelos próprios verdugos; e pedir-lhe-emos ânimo para esquecer e perdoar.

Evitaremos pensar nas injúrias recebidas e em tudo que a elas se refira. Os perfeitos orarão pela conversão de quem as ofendeu, e encontrarão nesta prece bálsamo suavíssimo para as feridas da sua alma.



Referência: A. Tanquerey, Teologia Ascética e Mística, nº 853 - 863

PARA CITAR ESTE ARTIGO:

David A. Conceição, O grau do ciúme
– Rio de Janeiro, junho de 2012, blogue Apostolado Tradição em Foco com Roma.

 

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