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Vocação

Muitas vezes, bem orientados ou não, somos levados a fazer os seguintes questionamentos: “Quem sou eu? Qual a minha função neste mundo?”. Dentre muitos outros que, por vezes, acabam complicando ainda mais a reflexão de quem se propõe a pensar em tais coisas.

Em casos frequentes, falta a quem orienta um verdadeiro conceito cristão e, sobretudo, católico do assunto, tendo em vista que este tema pode ser manipulado conforme aquilo que pensa o diretor espiritual, conselheiro, amigo,etc.


Para muitos, estamos neste mundo para sermos vencedores, isto é, conquistar tudo o que queremos, enriquecermos, ter filhos – ou não, já que atualmente, “quanto menos filhos, melhor!” - enfim, ter vitórias (oh glória!). Para outros, o importante é ser feliz, independente da opinião de tudo e de todos, o importante é o amor! Outros querem construir o Céu na Terra, o que dispensa maiores comentários.

No meio de toda essa confusão, nos perdemos do verdadeiro significado dos questionamentos, que na realidade, resumem-se numa única pergunta: “Qual é minha vocação?”. Pronto! Mas o que é vocação?! É impossível esgotar o assunto neste texto, então, façamos uma breve análise do que seja a vocação/chamado.

Segundo o dicionário HOUAISS, a primeira acepção de vocação é “ato ou efeito de chamar”, sendo que chamado nada mais é que “ato de pronunciar o nome de (alguém), para pedir aproximação ou verificar presença”. Mas como associar isso a uma vida cristã?

Nos diz Santo Inácio de Loyola (nº 23), nos Exercícios Espirituais:

“O homem é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus Nosso Senhor, e assim salvar a sua alma. E as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem, para que o ajudem a alcançar o fim para que é criado. Donde se segue que há de usar delas tanto quanto o ajudem a atingir o seu fim, e há de privar-se delas tanto quanto dele o afastem. Pelo que é necessário tornar-nos indiferentes a respeito de todas as coisas criadas em tudo aquilo que depende da escolha do nosso livre-arbítrio, e não lhe é proibido”.

Pois bem, qual a relação entre uma coisa e outra. A meu ver, simples! Deus nos chama para que nos aproximemos Dele, para que compareçamos à reunião eterna de seus filhos: n’Ele, com Ele e por Ele. Contudo, tal como somos convocados a algum compromisso, no qual devemos escolher o meio mais adequado para sermos pontuais, há meios de que, não nos afastando do destino final, alcancemos Àquele que nos chamou.

Desde antes de nosso nascimento, Deus, com amor infinito já nos criou e nos quis (conf. Jr. 1, 5), para que com Ele tivéssemos uma vida plena. Assim, chamou-nos primeiramente a viver: “Como conservaria a sua existência se não a tivesses chamado?”. Ele que criou todas as coisas, visíveis e invisíveis.

Ocorre que, de maneira não muito incomum, a busca pela completa realização de si e, sobretudo, seguindo a premissa de que “desde que haja amor e me faça feliz, está certo”, a realidade cristã de nossa vida é esquecida, pondo em primeiro lugar a vontade do ser (eu) em detrimento da Sabedoria infinita de Deus. Agimos como se Ele não existisse, isto é, a rejeição ou ignorância da unidade que o Senhor quer nos proporcionar.

Passamos a ver, então, as consequências catastróficas do que ocorre quando iniciamos esta empreitada vocacional, que é a vida, sem o devido direcionamento proveniente, sobretudo, das riquezas que a santa religião nos oferece e/ou propõe: as Sagradas Escrituras, o direcionamento espiritual, a intimidade com Deus, a Sagrada Liturgia, a sabedoria da Igreja e dos santos que a compõe. Fato é que, não necessitamos exemplificar todos os casos em que o agir por si mesmo ocasiona o afastamento daquele Princípio-Fundamento de Santo Inácio de Loyola. Alguns deles são a desilusão, o desapontamento, o desespero, a violência a si e a outros, etc.

Mas, e aqueles que vivem a vontade de Deus e buscam ser orientados em conformidade com a Santíssima Vontade Dele e, mesmo assim, desviam-se do caminho?

Bom, um indício para resolver esta questão é que, segundo nos diz o Catecismo da Igreja Católica, o chamado a esta “união vital e íntima com Deus” pode ser, além de rejeitado ou ignorado, esquecido (CIC nº 21). Assim sendo, muitos daqueles que no início de seu “caminho vocacional” tinham o ardor- aquela paixão que se fazia questionar, qual diz a canção, “Como calar se tua voz arde em meu peito?” - na verdade, esqueceram que esta convocação não é para si.

Desta forma, percebemos que muitos casamentos não duram em razão da efemeridade das coisas, que são resultado de uma falta de direcionamento, falta de busca das reais virtudes que fazem frutificar e fortalecer os laços dessa difícil decisão. Igualmente ocorre com as vocações religiosas/sacerdotais, que esfriam porque foi tomada de uma soberba que impede de ouvir a voz da Sabedoria Encarnada, daí muitos casos de desleixo com a fé, com a doutrina, insensibilidade às coisas santas, até os mais extremos desvios morais e pecados.

Eis o chamado:

“Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto do céu nos abençoou com toda a bênção espiritual em Cristo, e nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos”. (Efésios 1,3-4)

Portanto, é fundamental que busquemos a humilde escuta e a disponibilidade àquilo que somos convocados, para que seja em todos os nossos pensamentos e obras, seja feita o que melhor aprouver ao Altíssimo.

Peçamos e busquemos, sempre, a graça divina, a fim de que tudo que ousamos fazer, seja para maior honra e glória de Nosso Senhor e, via de consequência, alcancemos ainda aqui um nada da alegria que alcançaremos na vida celestial.

PARA CITAR ESTE ARTIGO:

Jonatan Rocha do Nascimento,
Vocação – Rio de Janeiro, junho de 2012, blogue Apostolado Tradição em Foco com Roma.

 

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