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A bíblia e a filosofia na Obra da Criação

O fato de serem usados certos gêneros literários não contradiz que haja um fundo histórico dos fatos tratados na narrativa. A Comissão Bíblica Pontifícia, no tempo de São Pio X, destacou vários pontos históricos na narrativa da criação do mundo e do primeiro homem, entre eles:

A criação de todas as coisas por Deus (sem precisar se é criação direta ou nas causas análogas);

Que essa criação do homem e da mulher foi especial, e, certamente, pelo relato bíblico, de matéria pré-existente, e a mulher do corpo do homem;

Que toda raça humana descende desse único casal;

Felicidade dos primeiros pais em estado de justiça, integridade e imortalidade;

O mandamento imposto por Deus ao homem para provar sua obediência;

A transgressão, por persuasão do diabo, baixo espécie de serpente, do mandamento divino;

A perda, por nossos primeiros pais, do primitivo estado de inocência;

A promessa de um Reparador futuro.

Todos esses aspectos tocam, segundo a Comissão Bíblica, os fundamentos da religião cristã (D 2123).

Foi lançada uma excomunhão pelo Papa São Pio X no Motu Proprio "Praestantiae Scripturae" sobre os contraditores das respostas dadas pela Comissão Bíblica, embora essas não sejam infalíveis. Provavelmente, essa excomunhão não tem mais validade, em vista de documentos mais recentes e que dão maior liberdade aos exegetas.

Contudo, tem que se ver que, se não todos, pelo menos alguns desses pontos realmente tocam os fundamentos dogmáticos da fé cristã. Se não são dogmas diretamente, nada impede, no entanto, que sejam necessários indiretamente para custodiar as verdades de fé contidas na Sagrada Escritura e na Tradição. Não há nenhum impedimento em aceitar esses fatos como históricos, independentes do gênero literário.

Há que se entender que São Pio X, em sua encíclica, reafirma que pode não haver contradição entre ciência e filosofia. Desde que elas sejam apenas formas diferentes de se levar a verdade ao povo, na forma que este entender melhor. Porém, o brilho da encíclica reside em dizer que, em caso de dúvida, a matéria filosófica e moral é sempre a primeira forma de interpretação. E nunca a ciência sem o respaldo moral.

Nisso ele seguia o entendimento e as recomendações já deixadas pelo Papa Leão XIII, que havia insistido no Tomismo como fonte primária de interpretação filosófica.

Ao contrário do que muitos pensam sobre Pio X, quando o chamam de obscurantista, ele tinha o maior respeito pelas ciências modernas. Apenas sabia que elas não eram o primeiro instrumento de interpretação do pensamento divino.

Ele simplesmente colocou no papel um entendimento que vinha se formando, e que ele não tinha medo de proclamar. A moral e interpretação filosófica devem ser sempre seu instrumento primário. As interpretações científicas são roupagem dessas interpretações. Podem ser valiosas, mas podem confundir se usadas por antagonismo à moral cristã.

Mesmo que a ciência tenha seu valor, ela não pode contradizer a Palavra de Deus. E não o contrário, como os "novos ateístas" tentam impor.

A natureza toda se orienta para Deus como a seu fim último, logo, se algo é conforme o que Deus quer, não pode ser contra a natureza. Santo Tomás diz que tudo o que Deus manda é, de certo modo, natural [1].

A razão não condena que Deus pudesse fazer o mundo em um dia. Agora, de fato, a Tradição não exige que o hexamêron seja literal. Não é impossível um sentido alegórico, mas também não é impossível, para Deus, uma criação que comportasse seis dias literais. Apenas seria contraditório com uma série de evidências de que temos conhecimento pelas leis físicas.

Não sabemos ao certo se Santo Tomás realmente interpretava os dias do hexamêron como dias de vinte e quatro horas. Parece que às vezes ele realmente se refere aos mesmos assim, mas certamente não interpretava tudo ao pé-da-letra, como se vê nesse caso, a respeito dos corpos celestes:

1. Según Agustín, aquí no se plantea ninguna dificultad. Pues en estas obras no pone sucesión temporal, y, por lo tanto, no es necesario decir que la materia de los astros luminosos existiera bajo otra forma. Según los que sostienen que los cuerpos celestes están hechos a partir de la naturaleza de los cuatro elementos, tampoco hay dificultad, porque puede decirse que fueron hechos con la materia previa a su formación, como los animales y las plantas. Pero según los que sostienen que los cuerpos celestes son de naturaleza distinta a la de los elementos, e incorruptibles por naturaleza, hay que decir que la sustancia de los astros luminosos fue creada desde el principio. Pero antes era informe y ahora ha sido formada; no en cuanto a la forma sustancial, sino por la impresión de un determinado poder. Sin embargo, no se habla de ellos al principio, sino sólo en el cuarto día, para que, como dice el Crisóstomo, así se apartara al pueblo de la idolatría, demostrando que los astros no son dioses partiendo del hecho de que no existieran al principio. [2]

Santo Agostinho entendia a tarde e a manhã como uma referência ao conhecimento vespertino e ao conhecimento matutino dos anjos.

Agora, podemos também dizer que eram os hebreus que se referiam ao dia iniciando pela tarde e terminando na manhã, mas eu penso que o sentido alegórico não exclui necessariamente o literal.

A Igreja não condena a possibilidade de ter havido uma evolução, mas ensina categoricamente a existência do primeiro casal e a realidade da narrativa do pecado original.

Temos um fato insofismável: há um universo com suas leis, que o homem tenta desvendar, com suas criaturas vivas e inteligentes. Tudo tem um começo e tem um fim. Inclusive, cosmólogos vivem calculando e recalculando a idade do Universo, quando ele começou ou quando ele vai se extinguir. O mesmo fazem os antropólogos em relação ao homem. Puras conjecturas! Não há como negar a Deus! Pode o que "não existe" gerar algo existente!

Adão e Eva não existiram no sentido histórico. O fato é que houve um primeiro "casal" que deu origem a humanidade que conhecemos. Se eles evoluíram de uma espécie inferior, isso não contradiz ao fato que Deus, sendo o criador, é também o autor da leis do Universo, inclusive daquelas que permitiriam a evolução.

O que há e nem se pode explicar é o "salto" de qualidade única, se é que houve um, de uma espécie inferior para uma espécie superior, racional e livre em determinado casal que deu origem à nossa humanidade. Só uma intervenção direta do próprio Deus pode explicar este fenômeno.

Também, Deus, por definição, é bom e tudo o que criou é bom e no entanto, o Mal existe e é um fato. Deus não pode se contradizer a si mesmo! Portanto, o Mal entrou na nossa história como algo "externo", permitido e aceito pela liberdade que Deus dotou o ser humano. Justamente, porque o Mal existe, é que Deus nos redimiu através de seu Filho, Jesus Cristo.

Quanto à narrativa do Gênesis de como teria sido criado o Universo, o primeiro casal Humano... ela não tem uma pretensão de ser científica ou histórica. Ela transmite uma mensagem clara que foi entendida no passado e pode ser entendida ainda hoje: que Deus é o criador de tudo, embora não saibamos e nunca saberemos como! Quando o Gênesis foi redigido - sua última demão foi por volta do século IV A.C, depois do Exílio - nele foram incluídas antigas e diversas tradições de várias fontes, tanto hebréias como mesopotâmicas. Foi o fundamentalismo bíblico protestante que criou este conflito artificial entre Fé e Razão.

O poligenismo, inclusive de um único tronco, foi condenado pelo Papa Pio XII, por ser incompatível com o que afirmam as fontes da doutrina revelada e os documentos do magistério acerca do pecado original.

Junto com a infusão da alma tem que ter havido um desenvolvimento do corpo. Deus não infunde a alma por milagre, mas por conveniência natural. Por isso, é necessário afirmar que, para o primeiro casal, houve uma aceleração no processo evolutivo, que se pode chamar de milagrosa (se pressupormos a criação evolutiva do corpo do homem).

A filosofia ensina isso: que a infusão da alma humana, embora essa não seja originada da matéria, se dá de acordo com certa conveniência da matéria. Assim, entre dois seres igualmente dispostos, Deus não iria infundir a alma num, e não infundir no outro. Como toda humanidade descende de um único casal, somente esse casal teve o salto evolutivo que lhes permitiu alcançar a infusão da alma racional. E isso só se explica milagrosamente.

Caim não iria se casar com uma mulher sem espírito, pois o espírito é justamente o que faz do homem um ser racional. A mulher de Caim era provavelmente uma irmã sua ou sobrinha. Fato é que os filhos de Adão e Eva tiveram que se casar com suas irmãs. Depois do nascimento de Set, Adão, com 130 anos, viveu mais 800 anos e gerou filhos e filhas (Gen 5,3-4).

As palavras de Pio XII deixam espaço para a possibilidade de terem existido verdadeiros homens contemporâneos de Adão, contanto que estes tenham desaparecido antes do seu pecado e não tivessem deixado descendência. Também não impedem a existência de homens em outros planetas:

"(...) pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais (...)"

As palavras de Pio XII também se restringem a um monogenismo a partir de Adão e não de Eva, pois é de Adão (e não de Eva) que herdamos o pecado original. No entanto, a tradição cristã parece exigir um monogenismo a partir de Adão e Eva.

O primeiro Papa a falar em um "evoluçionismo mitigado" - o que exclui, obviamente, este evoluçionismo mecanicista (materialista) hodierno - me parece que foi Pio XI, embora no momento não tenho a fonte ao alcance da mão. Além do mais porque a "teoria da evolução" é uma teoria e que pode muito bem ser contraposta por outra e há muitas delas. Pio XII permitiu tais investigações, aliás, seguindo sua encíclica Divino Afflante Spiritu, onde reconhece o valor à exegese bíblica do recurso de outras disciplinas.

Sua encíclica de 1950, a Humani Generis que aparentemente atingia Daniélou, De Lubac, Chenu... na verdade, cortava, na fonte, alguns princípios desviacionistas que poderiam conter na chamada nouvelle théologie. A condenação clara de Pio XII nesta encíclica foi referente à possibilidade do poligenismo, por exemplo. Abaixo, dois trechos da encíclica, onde faz algumas considerações sobre estudos sobre a teoria da evolução e quanto à linguagem bíblica sobre os primórdios da humanidade.

"Por isso o magistério da Igreja não proíbe que nas investigações e disputas entre homens doutos ... se trate da doutrina do evolucionismo, que busca a origem do corpo humano em matéria viva preexistente (pois a fé nos obriga a reter que as almas são diretamente criadas por Deus), segundo o estágio atual das ciências humanas e da sagrada teologia, de modo que as razões de uma e outra opinião, isto é, dos que defendem ou impugnam tal doutrina, sejam ponderadas e julgadas com a devida gravidade, moderação e comedimento, contanto que todos estejam dispostos a obedecer ao ditame da Igreja, a quem Cristo conferiu o encargo de interpretar autenticamente as Sagradas Escrituras e de defender os dogmas da fé." (36 - Humani Generis)

"... os onze primeiros capítulos do Gênesis, embora não concordem propriamente com o método histórico usado pelos exímios historiadores greco-latinos e modernos, não obstante, pertencem ao gênero histórico em sentido verdadeiro, que os exegetas hão de investigar e precisar; e que os mesmos capítulos, com estilo singelo e figurado, acomodado à mente do povo pouco culto, contêm as verdades principais e fundamentais em que se apóia a nossa própria salvação, bem como uma descrição popular da origem do gênero humano e do povo escolhido. Mas, se os antigos hagiógrafos tomaram alguma coisa das tradições populares (o que se pode certamente conceder), nunca se deve esquecer que eles assim agiram ajudados pelo sopro da divina inspiração, a qual os tornava imunes de todo erro ao escolher e julgar aqueles documentos." (39 - Humani Generis)

Sim, não há dúvida de que alguns pontos dos capítulos de Gênesis podem estar escritos em linguagem imprópria ou adaptada à mente de um povo rude. Santo Tomás já deixava isso claro na Suma Teológica [3] . Agora, algumas coisas são literais, apesar disso.

A resposta da Comissão Bíblica e a "Humani generis" ajudam a mostrar quais pontos são para serem sustentados literalmente, com base no consenso unânime dos Padres, contra o qual ninguém deve interpretar a Escritura (Concílio de Trento, D-786) e que tocam os fundamentos da religião cristã.

O Concílio de Trento ao excomungar quem rejeita os itens em relação ao pecado original, o faz juntamente com aquele que nega Adão como primeiro homem. Uma coisa liga à outra:

"- Se alguém não acreditar que Adão, o primeiro homem, quando anulou o preceito de Deus no paraíso, perdeu imediatamente a santidade e justiça em que foi constituído, e incorreu, por culpa de sua prevaricação, na ira e indignação de Deus, e consequentemente na morte com que Deus lhe havia antes ameaçado, e com a morte em cativeiro, sob o poder daquele que depois teve o império da morte, ou seja, o demônio, e não confessa que Adão, por inteiro, passou, pelo pecado de sua prevaricação, a um estado pior, no corpo e na alma, seja excomungado.

II. Se alguém afirmar que o pecado de Adão prejudicou apenas a ele mesmo e não à sua descendência, e que a santidade que recebeu de Deus, e a justiça com que perdeu, a perdeu para si mesmo, não incluindo nós todos, ou que marcado ele com a culpa de sua desobediência, apenas repassou a morte e penas corporais a todo gênero humano e não o pecado, que é a morte da alma, seja excomungado, pois contradiz o Apóstolo que afirma: "Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, e desse modo foi passada a morte a todos os homens por aquele em quem todos pecaram."

III. Se alguém afirmar que este pecado de Adão...

O evolucionismo é possível filosoficamente, desde que não exclua Deus como Primeira Causa em todos os aspectos (não uma Causa primeira no tempo, mas fundamento real de todas as causas). Teologicamente, parece também que sim, desde que preservados alguns aspectos históricos do livro de Gênesis, entre eles a existência de um primeiro casal, a narrativa do pecado original, etc.

De maneira nenhuma é possível interpretar Adão de forma simbólica, como que representando o conjunto da humanidade ou um pequeno grupo que teria cometido o pecado das origens (opinião de D. Estevão desautorizada pelo magistério). Ao dizer que o poligenismo não era compatível de forma clara com o que diziam as fontes da revelação e do magistério sobre o pecado original, Pio XII também deixa claro com o que o poligenismo deveria se compatibilizar:

- O pecado de um só Adão

- Transmitido a todos os homens por geração

Não é possível defender o poligenismo sem negar ao menos uma dessas duas sentenças.

Filosoficamente, não há qualquer impedimento ao evolucionismo, pois nada impede que somente a criação inicial tenha sido feita diretamente por Deus ("ex nihilo") e as demais coisas tenham se propagado umas das outras (com exceção das almas humanas), tomando-se a matéria-prima como substrato permanente e necessário da evolução das coisas. Isto está completamente de acordo com o tomismo [4]

Teologicamente, é que se põe o problema do poligenismo, do pecado original e da interpretação dos relatos bíblicos.


O que importa é aquilo que o Credo nos põe como verdades absolutas da Fé:

1) Deus é o criador de tudo;

2) O pecado entrou no mundo através do homem;

3) Só Deus pode redemir o homem decaído de sua graça primeva.

Referências:

A Catholic Understanding of the Story of Creation and the Fall, by Cardinal Joseph Ratzinger (Pope Benedict XVI)

John L. McKenzie S. J., Dicionário Bíblico, São Paulo, Paulinas, 4ª ed., 1983, pp. 2 e 133

Santo Agostinho, Cidade de Deus (15,16,1-2)

Catecismo da Igreja Católica: §4, 282-285; 289.

Pontifícia Comissão Bíblica, A interpretação bíblica da Igreja

[1] (S. Th., IaIIae, q.94, a.5, ad.2)

[2] (S. Th., Ia, q.70, a.1, ad.1)

[3] (S. Th., I, q.68, a.3, co; q.70, a.1, ad.3; e q.91, a.1, ad.4)

[4] (Cf. S. Th., Ia, q.74, a.2, ad.3).
PARA CITAR ESTE ARTIGO:


David A. Conceição, A bíblia e a filosofia na Obra da Criação, Rio de Janeiro, julho de 2012, blogue Apostolado Tradição em foco com Roma.
CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:
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