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Os erros da Hermenêutica da Ruptura [2]‏

O Apostolado Tradição em Foco com Roma seguirá com um conjunto de estudos que refutará os vários erros que se atribuem ao Concílio Vaticano II. Alguns serão tirados da tradução da versão francesa do jornal SiSiNoNo (publicada a partir do número 247, de julho-agosto de 2002), outros de diversos sites, e alguns nem serão tratados por já estarem plenamente batidos neste blog. O intuito é que após isso possamos fazer um índice com todos os erros elencados refutados para um melhor baseamento do leitor frente os tradôs e sedevacantistas. Já adiantamos que a finalização desse trabalho não será em curto prazo, pois como ensina São Jerônimo refutar o erro sempre é um trabalho mais penoso do que simplesmente anunciá-lo. O leitor que quiser participar desta iniciativa poderá nos enviar sua refutação para nosso email (tradicaoemfococomroma@hotmail.com), e poderá ver aqui publicada sua refutação.



Supostos erros concernentes a Santa Igreja




CRÍTICA:



2.0 Uma falsa noção da Santa Igreja (conhecida como erro do subsistit in): A Igreja não é mais concebida como a única e verdadeira Igreja do Cristo (assim como sempre foi ensinado), já que a "Igreja do Cristo" — ousaram escrever — "subsiste" na Igreja Católica assim como subsiste "pelo dom de Deus" em "múltiplos elementos de santificação e de verdade" que são exteriores a ela (Lumen Gentium 8; e mais: Dignitatis Humanae 1;Unitatis Redintegratio 3).



SOLUÇÃO:


Essa noção da Santa Igreja só existe na insana mente do acusador. Já tratamos sobre o significado da expressão “subsistit in”¹, mas não nos custa trazer mais comentários sobre o assunto. Comecemos com Joseph Ratzinger:

“A palavra subsistit deriva da antiga filosofia ulteriormente desenvolvida na escolástica. Corresponde-lhe a palavra grega hypostasis, que na cristologia tem papel central para descrever a união da natureza divina e humana na pessoa de Cristo. Subsistere é um caso especial de esse. É o ser na forma de um sujeito a se stante [isto é, que se sustenta a si mesmo].

Aqui se trata propriamente disto. O Concílio quer dizer-nos que a Igreja de Jesus Cristo, como sujeito concreto neste mundo, ser encontrada na Igreja católica. Isso só pode acontecer uma vez e o sentido segundo o qual subsistit poderia multiplicar-se não capta propriamente o que se pretendia dizer. Com a palavra subsistit o Concílio queria exprimir a singularidade da Igreja católica: existe a Igreja como sujeito na realidade histórica”²
Explicação dada durante as sessões do Vaticano II:

"O propósito de LG 8 é o de mostrar que a Igreja de Cristo se encontra na terra de maneira concreta na Igreja católica. Esta Igreja empírica revela o mysterium, embora não sem sombras. Por isso se propõe o mistério da Igreja está presente e se revela na comunhão concreta que é a Igreja Católica, que a Igreja é a única e que aqui na terra está presente (adest) na Igreja católica, embora se encontrem elementos eclesiais fora dela. Em lugar do est se emprega o verbo subsistit para que a expressão possa concordar melhor com a afirmação sobre os elementos eclesiais que se encontram alhures”³.

Na verdade é, justamente, o “est” que pode abrir essa viabilidade e nunca o “subsistit in”, só a última dá o sentido de individualidade da existência do ser. Por exemplo, David “é” um animal racional, isto não exclui que o leitor também seja. Mas ninguém se queixará da definição metafísica de pessoa, nem pensará que ela pode ser alargada: a pessoa é um indivíduo que subsiste na natureza racional (individuum subsistens in natura rationali).

Ou como diria Santo Tomás a "substância capaz de pensar chamamos pessoa". “Subsistit in”, como vemos, é muito mais amplo, pois além de ser, expressa que somente no segundo termo tem sua realidade encontrada, daí a possível tradução: “A Igreja de Cristo encontra-se [tem realidade encontrada] na Igreja Católica”. A realidade histórica, a existência contínua e de forma completa é referida.

Além disso, o uso da palavra que os Pais da Igreja e a escolástica fazem é para referir-se ao modo particular de existir da hipóstase. Segundo o Pe. Bernardo Bartmann a hipóstase "Possui três características: individualidade, existência em si e existência por si: A existência em si pode pertencer a uma substância parcial, incompleta; a existência por si, há pelo menos uma diferença virtual.

A existência por si é uma propriedade mais completa do que a existência em si. A hipóstase (suppositum) é a existência individual perfeita, existente de modo tal a constituir não só um ente em si (indivisum in se), mas que é distinta de todas as mais (divisum ab omni alio). Ela é o sujeito da ação (principium quod) donde o axioma: "Actiones sunt suppositi"; a natureza, ao invés, lhe é somente o princípio próximo (principium quo). ⁴

Como vemos, o que diz o acusador que com essa expressão a Igreja "não é mais concebida como a única e verdadeira Igreja do Cristo" não procede. Até porque como diz o Concílio no mesmo documento, Lumen Gentium, cap. I, 8: "Esta [a Igreja Católica] é a única Igreja de Cristo". No mais, nem merece resposta a montagem do acusador, nunca foi dito que subsiste também em elementos exteriores a Igreja católica.

Toda essas explicações que eu dei já foram consagradas pelo Magistério ordinário⁵ de forma que não mais resta ao autor (se é que antes já restava para o seu caso) a dispensa de assentimento. Se isso pôde ser disputado foi somente antes da conclusão de Roma. O teólogo está dispensado numa questão controvertida até que a Sé Apostólica explique, confirmando a expressão ou negando ou mesmo desenvolvendo com a ajuda do teólogo.

E mesmo que ainda fosse possível a dispensa não cabe ao teólogo ou ao simples leigo ficar alardando o suposto erro no Magistério, pois deve-se respeito a este (nem preciso dizer, creio eu, que tal posição sempre foi comum entre os teólogos).

NOTAS:

¹. http://www.tradicaoemfococomroma.com/2012/01/igreja-de-cristo-subsiste-na-subsistit.html

². L’ecclesiologia della Lumen gentium, in Convegno Internazionale sull’attuazione Del Vaticano II. La natura della Chiesa, II Regno, 45, n. 856 (jul. 2000) 237s.

³. AS III/1, 176

⁴. Teologia Dogmática, Vol I, Revelação e fé - Deus - A Criação, pág. 271

⁵. Dominus Iesus, 16, 17; Congregação para Doutrina da Fé Notificação sobre o livro Igreja Carisma e Poder, 11 de Março de 1985; CDF, Respostas a questões relativas a alguns aspectos da Doutrina sobre a Igreja, 29 de junho de 2007, etc.



CRÍTICA:



Isto implica em afirmar, contra o dogma da fé, que pode haver salvação para as almas fora da Igreja Católica que, portanto, não é mais o único "meio de salvação", e que as comunidades heréticas e cismáticas são elas também "instrumento de salvação" (UR 3), apesar de suas "deficiências", porque o Espírito Santo não recusa se servir delas como meios de salvação cuja força deriva da plenitude de graça e de verdade que foi confiada à Igreja Católica (UR 3 cit.).



SOLUÇÃO:


Não, não implica. O que implica é afirmar que a salvação na Igreja e pela Igreja não se dá somente em sua estrutura visível, daí dizer que fora de seu corpo é possível haver salvação, mesmo que não fora dela. Sobre isso o Catecismo de São Pio X nos diz que aquele que se encontrasse fora da Igreja sem culpa, fosse batizado ou tivesse o desejo, ao menos implícito, e ainda, procurasse conhecer a verdade e cumprir a vontade de Deus poderia ser salvo "ainda que separado do corpo da Igreja, estaria unido à alma dEla, e portanto no caminho da salvação." (q. 170)

Isso se dá porque as graças divinas não são exclusivas aos fiéis católicos, não é concedida apenas àqueles que estão no corpo da Igreja. Aliás, esta é uma tese condenada de Paschasius Quesnel que dizia: “Extra Ecclesiam nulla conceditur gratia”.¹ A mesma condenação está presente na condenação aos erros de Jansênio, que afirmava que a graça de Cristo só era concedida aos fiéis.² Ainda que essa pessoa seja salva não dentro do corpo da Igreja será salva por causa da Igreja, pois esta foi fundada como instrumento de salvação.


As graças que os hereges podem receber é pela existência da Igreja Católica. Se nas comunidades cristãs não católicas pode haver elementos de santificação (sacramentos, fé em Cristo, caridade, etc.) é por causa do papel operante que a Igreja Católica tem também nelas, como tem em toda humanidade. O Corpo Místico que é a Igreja Católica atua fora das fronteiras visíveis da Igreja e é por isso que os não católicos ou as comunidades cristãs não católicas não estão destituídos das graças divinas.

Pois é dito: “O Salvador não só mandou que todos os homens e povos se façam membros da Igreja, mas também dispôs que a Igreja é o meio de salvação sem o qual ninguém poderá entrar no reino da glória.”³ Quando se fala que as comunidades heréticas ou cismáticas são meios de salvação é óbvio que tem um sentido indireto e acidental, o que não quer excluir que esses mesmos meios estejam a serviço da Igreja, ou seja, de qualquer modo a Igreja é "o meio geral de salvação".⁴

Nós poderíamos pegar o exemplo da demonologia, Deus às vezes usa os demônios em vista de um bem maior, a salvação. Isso quer dizer que estes condenados podem servir como meios. É claro que a comparação difere e muito, mas é só para mostrar que não existe essa contraposição de termos.

Ou a Igreja Católica é o meio de salvação ou as Comunidades hereges cismáticas o são, isso não existe, uma vez que “virtude deriva da própria plenitude de graça e verdade confiada à Igreja católica.”, o sentido do substantivo é aplicado de maneira distinta. Se nessas igrejas e comunidades (heréticas e cismáticas) podemos ser batizados, receber a Eucaristia, conhecer a história de Jesus Cristo, amar a Deus e orar cada vez mais a Ele, é porque elas servem como meios de salvação...

Tudo isso citado pode nos conduzir à Igreja Católica, logo não se poderá negar que as Comunidades serviram como meios para esse fim. Ainda, tudo isso citado pode nos levar à salvação, mesmo que não chegássemos a pertencer efetivamente à Igreja Católica como membro seu. “Para alcançar a salvação eterna nem sempre se querer a pertença efetiva (reapse) à Igreja como membro seu; mas a pessoa há de estar unida com a Igreja, pelo menos, mediante o desejo ou voto.” ⁵

Não se pode negar que o batismo realizado em qualquer Comunidade Cristã foi meio para se chegar a salvação, ou a bondade ensinada e compartilhada entre seus membros serviu também para se ter humildade, amor ao próximo, etc. Logo, Deus pode usar também essas Comunidades.
Isso até condiz com aquele velho ensinamento de Santo Agostinho, retomado por Santo Tomás, Deus só permite o mal em vista de um bem maior.

NOTAS:

¹. DS 2429

². cf. DS 2304 e 2305

³. DS 3868

⁴. Vide Carta do Santo Ofício ao Arcebispo de Boston, 1949.

⁵. DS 3870



CRÍTICA:



Deixa-se por enquanto para a Igreja Católica "toda a plenitude dos meios de salvação" já que ela é generale auxilium salutis, "o meio geral da salvação" (ib.). Contudo a Igreja passa assim de único meio de salvação para simples "meio geral" (expressão obscura), que fornece "toda a plenitude dos meios de salvação", mas somente a plenitude e não mais a unicidade destes.”



SOLUÇÃO:


Que a Igreja seja "meio geral de salvação", como expressa também o Santo Ofício, não significa que deixe de ser único meio de nos salvarmos, e é claro, estou usando a palavra no sentido que o acusador a quer.

Mesmo que estar na Igreja como membro não seja uma estrita necessidade de meio de salvação, é só ela que nos salva, mesmo que nessa salvação seja ela operando em outras Comunidades, logo as Comunidades não salvam enquanto tais, apenas são meios considerados indiretamente. O primeiro uso do substantivo é de maneira necessária, o segundo é de maneira acidental, daí não fazer sentido tentar achar contradição.

Se um protestante nos disser que não somos salvos por meio da Igreja, mas por meio de Cristo, a questão não ficaria resolvida se respondêssemos que Cristo utilizasse da Igreja para esse fim? E por que neste novo caso a resposta não seria mais válida? Ela segue a mesma lógica, assim como Cristo opera na Igreja, a Igreja opera nas comunidades, daí não haver embates dos "meios". Por último pergunto: Se na Igreja está depositada a plenitude dos meios de salvação, como não sua unicidade? O Concílio é bem claro "só pela Igreja católica de Cristo, que é o meio geral de salvação, pode ser atingida toda a plenitude dos meios salutares."¹

NOTA:

¹ Unitatis Redintegratio, I, 3



CRÍTICA:



Encontramo-nos em face de um erro teológico manifesto, já que as comunidades "separadas" o são precisamente porque recusaram a assistência do Espírito Santo para correrem atrás de seus próprios erros, os quais as conduziram à separação. Esta nova doutrina do Concílio é, além disso, incoerente no plano lógico, pois não se compreende como meios de salvação que comportariam "deficiências", menos plenos do que os da Igreja Católica, podem dar a mesma salvação que aqueles oferecidos por esta última: a meios desiguais deveriam corresponder resultados desiguais, não o mesmo resultado.



SOLUÇÃO:


Também aqui há formas diferentes de se referir às comunidades. Em um primeiro sentido podemos se referir às comunidades como conjuntos de heresias ou vontade de cisma, daí não fazer sentido falarmos de assistência do Espírito Santo. Outro seria considerar as comunidades como associação de indivíduos que têm as mesmas crenças heréticas ou cismática, constituídas também de elementos eclesiais, neste enxergamos as pessoas, seja as de má fé ou boa fé, e é por isso que o Espírito Santo assiste neste caso.

No último caso, obviamente, está o uso do Concílio. Ora, a expressão e o sentido se deve ao Cardeal Konig de Viena.¹ Não há problema lógico, pois é a Igreja que salva o indivíduo plenamente, há elementos eclesiais também nestas comunidades, não são elas caminhos de salvação, não são meios ordinários de salvação ao lado da Igreja Católica.

É a Igreja Católica totalmente agindo não além das comunidades, mas também nas comunidades, fazendo-as ter significado no mistério da salvação. São Luís Maria Grignion de Montfort na sua obra o Segredo do Rosário, chama o Rosário de meio de salvação. É evidente que ele não se refere a um meio ao lado do meio da Igreja Católica. Não se fala nos dois casos de salvação por meios desiguais.

NOTA:

¹. KEHL, art., cit. 12, menc. A Igreja numa sociedade fragmentada, pág. 121, Mario de França Miranda



CRÍTICA:



No entanto, para estar conforme ao depósito da fé, a Declaratio (Dominus Iesus) deveria dizer que a Igreja do Cristo subsiste unicamente na Igreja Católica, no lugar de dizer — em perfeito acordo com Lumen Gentium e Unitatis Redintegratio — que a "Igreja do Cristo, apesar das divisões entre os cristãos, continua a existir plenamente somente na Igreja Católica" (DJ 16). É o advérbio "plenamente" que não se pode manter, já que quer significar que a Igreja do Cristo continuou e continua a existir, mesmo não plenamente, nos "elementos" que, apesar de se acharem fora da Igreja Católica, contudo conferem a salvação.



SOLUÇÃO:


Não há essa dificuldade. O sentido é que se a Igreja de Cristo tem existência plena somente na Igreja Católica, impede que exista em parte em outro lugar, como a própria expressão "subsistit in" faz o papel de negar. O que o advérbio quis mostrar não é que poderia existir parcialmente nas outras Igrejas e/ou Comunidades, mas que os elementos de verdade e santificantes nestas comunidades e Igrejas, pertencem à Igreja Católica, nada é deles, apesar de estar neles.

Há elementos eclesiais nestas Igrejas e comunidades, e estes fazem parte da Igreja Católica. A interpretação do autor é absurda, pois logo após o Papa João Paulo II diz: "É, portanto, contrária ao significado autêntico do texto do Concílio a interpretação que leva a deduzir da fórmula 'subsistit in' a tese, segundo a qual a única Igreja de Cristo poderia também subsistir em Igrejas e comunidades eclesiais não católicas." (17)

Ele quer dá um sentido ao uso do advérbio que logo depois foi negado. É de se notar, também, que o autor faz jogo de palavras quando fala simplesmente de elementos que estão fora da Igreja Católica, poderia, muito bem deixar claro, que é fora no sentido da composição da Igreja, sua estrutura visível, seu corpo.

Como todo mundo deveria saber as graças não são dadas somente à estrutura da Igreja e é possível que alguém se salve fora dela (de sua estrutura).



CRÍTICA:



Extra Ecclesiam (visível) só existe, pois, a possibilidade de uma salvação individual que pode se realizar, por obra do Espírito Santo, apesar do cismático, do herege, do infiel pertencerem materialmente a suas seitas, comunidades ou religião e não porque tal ou tal seita ou comunidades representasse um elemento da Igreja do Cristo no qual agiria, se bem que de maneira imperfeita.



SOLUÇÃO:


Isto não significa que também a Comunidade, entendida como associação de indivíduos, por razão dos elementos eclesiais, não possa ter significado na salvação deste "herege", "cismático", "infiel" que pertence a sua seita. Os elementos eclesiais nestes casos se encontram fora dos limites visíveis da Igreja Católica e não fora da Igreja Católica, pois esta é a Igreja de Cristo, como reafirma também o Concílio.

Nem vale a pena perder mais tempo com o joguinho de palavras e invenções do autor para apontar o concílio. Maneira imperfeita de elementos ou salvação não plena, simplesmente é besteira. O aspecto eclesial fora da estrutura visível da Igreja já fora reconhecido às Igreja orientais pelos concílios de Latrão IV, Lião II e Florença.



CRÍTICA:




E isso não é tudo. Tanto o Vaticano II como a Declaratio Dominus Iesus tendem a aplicar este gravíssimo erro doutrinal igualmente a todas as religiões não cristãs, como também aos pagãos, porque todos os dois expõem a falsa doutrina segundo a qual "semina Verbi", "sementes do Verbo", de algum modo, seriam encontradas e se encontrariam nessas religiões. (...) A falsa doutrina das "semina Verbi" deriva de uma manipulação do pensamento dos Padres da Igreja (são Justino e Clemente de Alexandria), que tinham visto nas intuições de certas verdades especulativas e éticas, próximas da ordem moral estabelecida pelo verdadeiro Deus no mundo e no homem, por parte de certos filósofos (Platão, Aristóteles) e de certos poetas gregos, como uma "semente do Verbo divino"; reconhecimento limitado às justas intuições de certos filósofos e poetas, mas nunca atribuído à religião pagã, considerada desde sempre, de acordo com a Escritura, como "culto do demônio" (Sl 95; I Cor 10,20). Foi a "Nova Teologia" que incluiu arbitrariamente a religião pagã na atestação dos Padres (cf. Le Sel de la Terre, 38, outono 2001, p. 1-4).



SOLUÇÃO:


É verdade que havia elementos de religiosidade que procedem de Deus entre os pagãos e ainda há em certas religiões atuais, elementos estes que servem à preparação ao Evangelho, têm um papel pedagógico, enquanto estimulam o homem abrir o coração a Deus. Porém, como está escrito na Dominus Iesus, não "lhes pode atribuir a origem divina nem a eficácia salvífica ex opere operato, própria dos sacramentos cristãos" (21) São Justino não nega que o Verbo se fez presente a todo o gênero humano, ele disse: "Nós recebemos o ensinamento de que Cristo é o primogênito de Deus e indicamos antes que ele é o Verbo, do qual todo o gênero humano participou."¹

E é aí que ele continua: "Portanto, aqueles que viveram conforme o Verbo são cristãos, quando do foram considerados ateus, como sucedeu entre os gregos com Sócrates, Heráclito e outros semelhantes; e entre os bárbaros com Abraão, Ananias, Azarias e Misael, e muitos outros, cujos fatos e nomes omitimos agora, pois seria longo enumerar."² É verdade também que São Justino e São Clemente não falam de tradições religiosas em si, mas não deve-se esquecer que o Verbo "ilumina todo o homem"³

Frisando ainda na explicação de Santo Tomás que o Verbo ilumina a inteligência de todo o homem enquanto lhe dá virtude natural e sobrenatural de entender, podemos concluir que já que toda religião é composta de homens, sendo possível que estes recebam "as sementes do Verbo" é claro que as religiões receberão também por causa da doutrina exposta por tal e tal indivíduo que viveu segundo o Verbo ou teve parte DEle, isto é uma consequência esperada.

Ora, não é de se esperar que se dê de outro modo a infusão das sementes do Verbo nos diversos ritos e culturas na história dos povos. A religião em si não é um ente, não tem capacidade de depreender alguma coisa, então é óbvio que as sementes do Verbo só podem estar nas religiões por causa dos homens que as compõem.

É das religiões que se refere Santo Agostinho quando diz que na sociedade dos pagãos também se encontram "algumas verdades a respeito do culto ao único Deus. Este ouro e prata que eles não criaram, mas extraíram de certas minas espalhadas por toda parte pela divina providência e que também eles de modo perverso e injurioso abusaram, oferecendo-os aos demônios, o cristão, ao separar se espiritualmente dessa miserável companhia, deve tomá-los para o uso justo da pregação do Evangelho." ⁵

Ainda que não pudéssemos trazer nenhum escrito de algum Pai da Igreja sobre isso não significaria que não estava no Depósito da Fé, pois como nos ensina Santo Agostinho: "Há muitas coisas às quais a Igreja adere firmemente e que, por conseguinte, podemos considerar como ordenadas pelos Apóstolos, embora não nos tenham sido transmitidas por escrito." ⁶

Portanto, não é o acusador que decide até onde as sementes do Logos podem chegar.

NOTAS:

¹. Apol I, 46

². Ibid.

³. Jo 1, 9

⁴. ST, I,II, Q. 105, art. 3

⁵. De doctrina christiana II, c 40, n. 60

⁶. De Bapt. 5, 23, 31; cfr. 2, 7, 12; 4, 24, 31



CRÍTICA:



O erro do Vaticano II permanece, pois, na declaração Dominus Iesus. Continuam a ensinar que as comunidades heréticas e cismáticas fazem parte da "Igreja do Cristo", se bem que gozando ex sese de (supostos) meios de salvação que apresentam "deficiências", e que seriam, portanto, menos plenos, se achando por essa razão em uma posição de inferioridade em relação à Igreja Católica; inferioridade que, no entanto, não exerce influencia no que concerne à obtenção da salvação — inferioridade, portanto, meramente teórica. Tudo isso é absurdo e incoerente e representa a negação da verdade de fé divina e católica segundo a qual só a Igreja Católica é a única e verdadeira Igreja do Cristo, imutável e fiel nos séculos, e fora dela não há salvação (DZ 802, 3866-3872).



SOLUÇÃO:


É um absurdo querer tirar das entrelinhas uma interpretação que a própria declaração e outros documentos da Congregação para Doutrina da Fé fazem questão de condenar. Seria redundante da minha parte se voltasse a responder sobre os supostos caminhos de salvação que o concílio nem fala.

O que acontece é que só na Igreja Católica pode-se encontrar plenitude dos meios salutares. E isto concorda com o Papa Pio XII quando diz: "convidando a todos e cada um com todo o amor da nossa alma, a que espontaneamente e de boa vontade cedam às íntimas inspirações da graça divina e procurem sair de um estado em que não podem estar seguros de sua eterna salvação, pois, embora por desejo e voto inconsciente, estejam ordenados ao corpo místico do Redentor, carecem de tantas e tão grandes graças e auxílios que só na Igreja católica podem encontrar. "¹ Ninguém aqui dirá que Pio XII está aceitando outros caminhos de salvação, embora não plenos.

NOTA:

¹. Mystici Corporis, 100

(continua)

PARA CITAR ESTE ARTIGO:

Nelson M. Sarmento, Os erros da Hermenêutica da Ruptura [2], Porto Alegre, julho de 2012, blogue Apostolado Tradição em foco com Roma.

CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:

nelson.sarmento@gmail.com

 

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