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Resposta a Liga dos Tradôs Anti-acordo


Em primeiro lugar, esse artigo não se trata dos fiéis da FSSPX, nem aos tradicionalistas, mas sim aos leigos piegas tradôs que outrora gostavam de arrotar em nome dela e hoje já proclamaram sua "independência" outorgando pra si próprios o legado da autêntica Tradição militando em suas páginas medíocres contra a regularização canônica da FSSPX e chamando todo mundo de maçom.

E em contra-resposta ao artigo postado nesse blog aqui


Por que é tão chamativo agarrar-se no tradôcionalismo? Por que parece tão heroico combater o Papa e o Magistério conciliar? Por que recusar e acusar a liturgia e as leis da Igreja posteriores ao Vaticano II? E ainda: por que eu que sou o modernista nessa história toda? Essas perguntas ultimamente não saem da minha cabeça. Todo debate que tive com meus amigos (e ex-amigos) tradôcionalistas as paixões nesse sentido foram sempre manifestadas.

Não importa se eu tenha cabalmente refutado seus erros, harmonizado os ditos conciliares com anteriores, fundamentado com os Pais da Igreja, com Santo Tomás, com renomados teólogos, lembrado do assentimento religioso, do silêncio obsequioso, da infalibilidade negativa, não importa, o fim do debate foi sempre o mesmo: “Eu prefiro ficar com a Tradição (de internet, uma vez que nem Missa Gregoriana regular eles possuem) e não com o liberalismo”; “Deixa-me em paz, você não é um teólogo, prefiro a opinião de fulano a sua.”; “Prefiro continuar com as mesmas opiniões, até porque o Vaticano II é “meramente pastoral”.

Afinal, eu sempre serei o modernista, liberal e ex-sedevacantista, apesar dos meus acusadores não terem nenhum entendimento sobre essas coisas. Ah claro, a não ser tirados de alguns links selecionados na internet.

Não deixa de ser engraçado me acusarem de algo que eles mesmos demonstram seguir, pelo menos, em parte. Essa história que o magistério pode ser livremente desprezado, que pode se apresentar obscuro, como um empecilho, etc. é conversa modernista e já foi condenado pelo Papa Pio XII, na Humani Generis (18). Defendem isso, embora, como nos diz o Papa Pio XII “este sagrado magistério, em questões de fé e moral, deva ser para todo teólogo a norma próxima e universal da verdade (visto que a ele confiou nosso Senhor Jesus Cristo a guarda, a defesa e a interpretação do depósito da fé, ou seja, das Sagradas Escrituras e da Tradição divina), contudo, por vezes se ignora, como se não existisse, a obrigação que têm todos os fiéis de fugir mesmo daqueles erros que se aproximam mais ou menos da heresia e, portanto, de observar também as constituições e decretos em que a Santa Sé proscreveu e proibiu tais falsas opiniões.”

Sabemos que também os modernistas quiseram voltar à Tradição em detrimento do Magistério, logo não é um fenômeno novo. O paralelo entre modernismo e tradicionalismo eu farei em outro artigo, apenas quero dizer que ele me lembra muito o paralelo que pode ser feito sobre o liberalismo econômico e o socialismo ou sobre a gnose e o panteísmo.

Aqui quero falar, através do pouco que pude tirar desses debates, sobre os motivos psicológicos que faz ser tão fácil a entrada e tão difícil a saída dos indivíduos no “movimento” tradôcionalista.

Motivo 1: O mundo mágico
É muito divertido brincar de contos de fadas, imaginar-se um cavaleiro ou uma donzela defensor(a) da fé, e até um mártir. Dá aquela vontade de ser Santo Atanásio e poder repetir em alto tom: “Eles têm os templos; nós, a Fé!” (lembrando que esse santo combateu o arianismo, que tinha grande parte do clero, e não o Magistério). Sentir-se um dos poucos ortodoxos que tiveram a brilhante ideia de combater a poderosa Roma, parece mesmo muito revolucionário, e, talvez, por isso, atraia tantos espíritos jovens.

Como todo conto de fadas é recheado, obviamente, por fantasias e monstros, para não ficar tão na cara seu ato cismático será criada uma tal de “Roma eterna”, que não é outra coisa se não sua interpretação pessoal aos ensinamentos dos Pais da Igreja, aos dogmas, ao Magistério ordinário anterior ao Vaticano II, etc. É tirada toda sua natureza temporal, quando antes Roma era reconhecida como ortodoxa por ela mesma, onde todas as questões controversas eram a ela levadas e seu veredito era questão encerrada como dizia Sto. Agostinho, agora para a existência do mundo mágico tudo isso terá que ser esquecido.

Mas para ser justo isso não é exclusivo dos tradôcionalistas, todos cismáticos em todas as épocas fizeram seus contos de fadas. Os cristãos “ortodoxos”, por exemplo, apresentam uma linha que não se distancia tanto assim, também eles dizem ter deixado Roma porque ela virou herética, que fizeram isso uma vez que seguiam a “Sola Traditio” e blábláblá... Quanto aos monstros, esses serão o Concílio e a Missa Nova, daí nenhum argumento a favor deles fazerem sentido, pois monstro se combate e não se defende.

Quando a priori se concebe um monstro, o que virá seguido a isso será indiferente. A pergunta que se faz é: provenho do monstro? Sim? Ah, então eu não obedeço. Não se pensará em conhecer os argumentos prós primeiramente para daí concluir se é esse um bicho asqueroso ou não. E é por isso que nenhum diálogo é possível.

Motivo 2: A realidade dura e cruel


Há uma séria crise na Igreja, isto ninguém o nega. Em todos os lados vemos “heresiarcas” das mais monstruosas faces. É a Teologia da Libertação pregando socialismo; são padres modernistas tentando nos fazer crer que dogmas são coisas do passado, que a Igreja muda e vive mudando; são os abusos litúrgicos das piores espécies, pessoas incentivadas a meter a mão em cestinhos para pegar o Corpo de Cristo e há outras que têm a comunhão negada por se ajoelharem e quererem receber na boca; é modinha de missa-show, missa de cura e libertação, missa afro, missa criola, missa nordestina, etc.

Tudo isso nos deixando abismados e com um justo ódio. O pobre tradôcionalista olhará isso e como forma de declarar sua repulsa quererá estar no outro extremo. Esse extremo parecerá seguro, não por causa do Papa, mas por que ele tem toda a incrível vestimenta de arcaico, assim, cai-se no fixismo. Por efeito dos erros monstruosos do modernismo os tradôcionalistas preferiram julgar que o ensinamento da Igreja e o modo de formular a fé e as doutrinas de razão conexas com a fé podem e devem encerrar-se num momento particular, no caso em tudo que aconteceu antes do concílio, negando a possibilidade de um ulterior desenvolvimento.

A primeira vítima histórica dessa terrível falácia foi Eusébio de Cesaréia, durante a questão da nova fórmula nicena de fé quanto ao Filho e ao Verbo. As fórmulas bíblicas – diziam eles – são definitivas; não é lícito ir além. Eles recusavam-se a considerar que de fato havia algo novo colocado por Ario que esperava uma resposta clara, sem ambuiguidades.

Da mesma forma o tradôcionalista se fixou em tudo antes do concílio pelo pavor do modernismo, pois seria um horror dizer que os modernistas tinham em alguma coisa razão ou se aproximavam em algum detalhe dela. Sucede, porém, que antes disso significar uma feliz peleja, significa, apenas, que você se acovardou, não quer encarar o problema de frente. Desististe da luta catolicismo versus modernismo, agora o que buscas é só combater o modernismo por ti mesmo como guia, daí os decretos da Igreja serem rejeitados.

Como o indivíduo já se assemelhava em certo sentido com a mente modernista, que muito o acabou influenciando, acaba por pular para o tradicionalismo.

Motivo 3: Os grandes ícones


Aqui está à razão menos séria, se bem que é difícil escolher a pior dentre elas. O tradôcionalista se guiará em grandes nomes, pessoas de boa retórica, prestígio e cultura. Adorará publicar as fotos e frases de seus mestres em suas redes sociais. Não perderá um artigo ou livro, sempre acompanhará com um bom discípulo.

Quando perder em um debate se contentará em mandar uma página ou indicar um livro do seu ícone. Falará aquelas frases do típico puxa-saco: “Dom Lefebvre, grande herói da fé!”; “Dom Williamson é o martelo dos modernistas!”; “O que seríamos de nós sem eles?”; “Ai, meu Deus, Dom Williamson virá ao Brasil!!!” Até parece que se trata de algum carismático meloso. Esse motivo repousa no argumento da autoridade, eles foram ou são pessoas inteligentes e tiveram/têm grande zelo pela Igreja, logo devem estar certos. Azar é do Papa, ele já não serve.

Porém, as premissas não obrigam a conclusão neste caso. Aquelas historinhas contadas por seus ícones, sobre sua participação no concílio, conversas com papas e tudo mais, terão um grande poder sobre aquele “fiel”, ainda mais quando o “fiel” se restringe ler somente suas fontes, logicamente parciais sobre o assunto, daí a FSSPX dar um sova nos debates com a Congregação para doutrina da fé; um Papa dizer que foi enganado na promulgação do Novus Ordo Missae e todos os mais variados mitos que se entrelaçam com o mundo mágico, o qual já tratamos.

Motivo 4: O clube do bolinha

Depois de um tempo o tradôcionalista acaba fazendo várias preciosas amizades. São várias as pessoas que agora ele tem para compartilhar sua raiva às heresias do Concílio, choramingar esperançoso que tudo volte a ser como era antes, antes do Concílio maléfico. As coisas não acabam por aí, ele não deixa de dar boas risadas com eles, é sempre convidado para ir na Missa tal, a participar dum debate desigual contra um mísero modernista, rezar um rosário em conjunto em favor da FSSPX, e PASMEM até na JMJ eles cogitam ir juntos.

Como ele já não carece de boas amizades se afastará tranquilamente de todos os outros que julgar modernista, às vezes até por influências dos próprios membros do clube do bolinha. As conversas com seus amigos não ficarão só sobre a Tradição (que eles mesmos não entendem tanto), falarão da vida do padre siclaninho que eles estão perseguindo em conjunto, e até mesmo blogs como este que escrevo será razão de fofoca.

Você incitará outros a entrarem no clube do bolinha, pois, como disse um amigo meu, para eles não bastar ir para o Inferno é preciso levar outros.

Está certo, é humano querer esse conforto fraterno. O problema é que depois que se entra no clube é bem difícil de sair, talvez sair tráfico seja mais fácil. Criaram-se tantos laços, perderam-se tantos outros, que sair do clube parecerá perigoso.

Imagine: Se você disser que agora está com o Papa e que não seguir o Magistério além de soberba é burrice todos aqueles que até então eram seus amigos lhe virarão a cara, será tachado de herege, modernista, excluído, e esqueça a tão esperada viagem ao Rio para ver o Papa liberal.

Tudo isso causaria tanta angústia ao nosso tradicionalista que ele preferirá esquecer aquela objeção súbita que tivera pouco tempo antes. É como você levar uma grandiosa contra-argumentação e como resposta voltar ao argumento contradito já que não tinha mais o que dizer. (aliás, isto eu venho notando em vários debates que tenho feito, infelizmente). Muitos membros do clube sentem todas essas angústias, mas disfarçam muito bem entre eles.

Motivo 5: O Julgamento pelas aparências

Jesus disse: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.” (João 7,24) Recebe essa certeira censura o futuro tradôcionalista.

Ele irá se debruçar para ler as críticas ao concílio e verá que os ensinamentos precedentes parecem mesmo condenar os novos, tudo por que não julgará segundo a reta justiça, mas segundo as aparências, e estas enganam. Olhará que em outrora foi dito que a liberdade de consciência é loucura (Mirari Vos, 10) depois com a boca aberta constatará que a liberdade religiosa é um direito (Dignitatis Humanae 2).

Isso tudo assustará o pobre fiel. A opção mais cômoda será, então, abarcar no tradôcionalismo. A segunda é muito mais complexa, terá que ver o contexto histórico de todas as condenações, a quem se referiam e o que estes defendiam.

Sobre o caso se deveria saber que a condenação é referente à ideia do liberalismo de liberdade de consciência, derivada da declaração do direito do homem e do cidadão de 1789. Ora, além da Assembléia conceber um direito dentro do Estado e não prévio e anterior a ele, garante uma liberdade omnímoda, logo deve ser rejeitada, pois fere a liberdade da Igreja.

Quando falamos em liberdade religiosa proclamada pelo concílio estaremos dizendo que o homem é sujeito do direito à liberdade civil, contexto bem diferente do que se condenava anteriormente. Como diz o Catecismo a liberdade religiosa “não significa nem a permissão moral de aderir ao erro nem um suposto direito ao erro”. (§2108).

Mesmo querendo harmonizar resumidamente é de se notar que tive que usar umas boas linhas, desse modo é muito mais fácil cair nas amarras tradicionalistas do que sair dela. Mas isso não é de agora, a Igreja sempre viveu com suas aparentes contradições, estas mesmas que geravam várias heresias e cismas, pois faltava submissão. Alguns exemplos:

- O Código de Direito Canônico de 1917 diz que não se pode rezar nos templos dos acatólicos, porém em 1683 o Santo Ofício tinha permitido que o franciscano Francisco de Salem, que trabalhava no Egito pela união dos coptas, visitasse a Igreja dos não católicos a pedido desses.

- O Concílio de Éfeso proibiu qualquer adição ou supressão ao credo de Nicéia, no entanto, um concílio ecumênico anterior, o de Constantinopla, apresentou acréscimos, também posteriores, adicionando até o filioque odiado pelos hereges “ortodoxos”(Toledo I (400),Toledo VIII (653), Toledo XII (681), Toledo XIII (683), Toledo XIV (688), Toledo XVII (694), Braga IV (675) Mérida (666)) e Concílios Ecumênicos (de Latrão IV e Lião II).

- O IV Concílio de Latrão diz com todas as letras que fora da Igreja não há salvação, depois desde Pio IX os papas começaram a dizer que havia circunstâncias que permitiam salvação fora das fronteiras visíveis da Igreja.

- A Igreja foi inflexivelmente severa com certo instinto para o que caberia aos diferentes povos, depois deixou de ser (Pio XII em Vous Avez Voulu, 13).

- O Breviário Romano de São Pio V é perpétuo, não pode ser modificado, no entanto, o Papa Pio XII o modificou pela Carta Apostólica In cotidianis precibus, bem como o Papa Beato João XXIII. (E ainda há idiotas que pensam que a Missa Tridentina é eterna pelo “perpetuo concedimus”.)

Ou seja, em toda a história da Igreja isso aconteceu. Várias “contradições”. Nem tudo na Igreja será de rápido entendimento, algumas você terá que pesquisar a fundo, pois não esqueça Igreja tem dois mil anos e passou por diversos povos. E se os espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos já deturpavam o sentido das cartas de S. Paulo (2 Pedro 3, 16), os atuais farão o mesmo agora sob o Magistério. Aquele que quer ser verdadeiro católico deve esquecer seu individualismo intelectual, pois ele já não deve crer nele mesmo, mas na Igreja.

PARA CITAR ESTE ARTIGO:

Nelson M. Sarmento, Resposta a Liga dos Tradôs Anti-acordo, Porto Alegre, julho de 2012, blogue Apostolado Tradição em foco com Roma.

CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:

 

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