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30 anos Kid Abelha e a influência da música secular


Esse ano uma das maiores bandas cariocas completam o trigésimo aniversário de carreira. É impossível que existe alguém que não goste nem que tenha se sensibilizado pela voz de Paula Toller ou que alguma canção da banda não tenha marcado um determinado momento da vida.

O protestante neopentecostal brasileiro (atualmente nem tanto) evita ouvir qualquer música que seja do mundo. Já os tradôs incluíndo no pacote monfortianos - mesmo depois da queda do Império Montfort ainda existe sobreviventes - , sedes e independêntes sem FSSPX a repudia pelo triângulo = sentimentos, emoções, romantismo ; que segundo eles podem influenciar a pessoa a pecar.

Não é de hoje que sabemos que a música tem um grande poder sobre o sujeito, libera sentimentos, emoções, reações que até mesmo palavras não conseguiriam. E isso ainda me referindo a música no sentido clássico, sem letra, não envolvendo linguagem. O cérebro pode ser influenciado em determinada frequencia "hertz" assim acionando neurotransmissores para cada "sensação" determinada .

Alguns pesquisadores descobriram que a música é registrada na parte do cérebro que normalmente é estimulado pelas emoções, contornando os centros cerebrais que lidam com a inteligência e razão. Ira Altschuler, um dos pesquisadores, explica que “Música, que não depende das funções superiores do cérebro para franquear entrada ao organismo, ainda pode excitar por meio do tálamo – o posto de intercomunicação de todas as emoções, sensações e sentimentos. Uma vez que um estímulo tenha sido capaz de alcançar o tálamo, o cérebro superior é automaticamente invadido.”

Esses estudos mostraram que o impacto da música no sistema nervoso e as mudanças emocionais provocados direta ou indiretamente pelo tálamo, afetam processos tais como a freqüência cardíaca, a respiração, a pressão sangüínea, a digestão, o equilíbrio hormonal, o humor e as atitudes. Isto nos ajuda a entender por que as intensas batidas rítmicas da música popular, mais notadamente o rock, podem ter uma gama tão extensa de efeitos físicos e emocionais.

É bem complexo as possibilidades de influencia que uma simples musica tem, mas a influência existe, isso pra mim é certo.

O conceito de ser influenciado por um som, que é algo abstrato e efêmero, que só existe no tempo e na nossa imaginação, pode parecer estranho. Temos a clara noção de gostar ou não gostar de uma música e isso pode nos levar a pensar que esta escolha baseada no gosto pessoal é a única influência que a música pode ter sobre nós. Se eu não gosto de uma música, ela não vai me afetar. Mas não acho que é bem assim...


Você ouve a música e algo semelhante a ela e fora do seu controle acontece. (do tipo, ouviu uma música sobre roubo e acabou sendo roubada). Nesse caso, não há influência da música... o que acontece é o que chamamos de contiguidade, que é a sobreposição ou proximidade de dois eventos diferentes (ouvir a música e depois ser roubada) no tempo e/ou no espaço. Quando eventos são contíguos, pode ocorrer o que chamamos de comportamento supersticioso, que a grosso modo é a atribuição do caráter de dependência a eventos independentes. Nesse caso, portanto, a superstição está em achar que o roubo dependeu/foi causado pela/foi influenciado pela música que você ouviu.

Na segunda situação, você ouve alguma outra música e acontece algo que está sob seu controle, como por exemplo, brigar com seu namorado por X motivo ou de Y maneira. É possível também que seja pura contiguidade (ou coincidência, se preferir) e aí tudo dito na primeira situação vale.

Se você já teve essa sensação de que a música influencia de alguma forma sua vida, é possível que em alguns momentos você participe mais ativamente desse processo de "olha, eu ouvi e aconteceu!" justamente para manter essa condição. É possível que brigue com seu namorado(a) por um motivo ou de um jeito que talvez não brigasse por ter ouvido uma música sobre algo do gênero, no intuito de manter a situação do "ouvi, aconteceu". Assim como também é possível que veja semelhanças entre músicas e acontecimentos que não sejam tão semelhantes assim, estando mais relacionados à sua interpretação do que propriamente à uma semelhança real.

É um tipo de aprendizado que apenas a experiência, diferente da mera passagem do tempo, possibilita.

A consciência intelectual torna-se inefetiva se não conduzir a uma mudança de postura gradativa pelas experimentações planejadas (pedagogia) do sujeito.

Apenas entender intelectualmente um processo não basta, atuar nele requer preparo que compreende as formas de acomodação e manejo dos próprios afetos - uma operação tão intelectual quanto prática, como a mestria num ofício qualquer.

No início é incomodo, como a ruptura com qualquer vício. Mas depois a lei da inércia se encarrega do resto do progresso.

Rótulos são sempre perigosos. Eles acabam sendo úteis como uma forma de simplificação didática (para permitir uma espécie de formalização) no campo que está sendo estudado. Sem os rótulos, fica difícil traçar generalizações dentro desse campo de estudo.

Mas deve-se tomar cuidado para não fazer com que a arte se adapte aos rótulos, são os rótulos (como ferramenta para análise) que devem se adaptar à criação (artística, no caso).

Estamos juntando dois tipos de classificação. A classificação em relação ao estilo músical e a classificação em relação ao comportamento/ideologia pessoal dos músicos.

O fato é que a música apesar dos usos e desusos feitos pelos artistas, filósofos, público ouvinte, produtores e até mesmo na indústria fonográfica é um produto cultural particularmente inapreensível.

Muitas vezes um estilo marcado pela falta de criatividade, entendam essa como a colagem de linguagens musicais exploradas para a obtenção de uma composição previsível, letras recheadas por um subjetividade inalcancável ou sentimentalismos rasos e outras características inerentes a cada estilo conhecido percorre caminhos indecifráveis.

Letras de música trazem elementos filosóficos quando instigam o pensamento. O músico na sociedade assume um duplo aspecto. Causa e efeito. Sendo por sua vez o "retrato" do passado e o prognóstico.

Se isolarmos um praticante de música, seja qual for o estilo, conhecimento e sua aceitação por parte de quem ouve, verificaremos que esse músico perpetua o que escutou e o influenciou e também será influência em tudo o que vier depois.

Os gêneros musicais não são nem maus nem bons, mas, se pensarmos na alma que deseja crescer na vida de devoção, muita coisa pode ser evitada, para não correr riscos. E isso vale especialmente para essas músicas que estão mais para a diversão que pra qualquer outra coisa.

Discordo que deixar de ouvir certas músicas seja puritanismo. O puritanismo nao é uma ideologia, é uma doutrina protetante. E como toda doutrina, é complicada de entender, tem seus próprios fundamentos. O puritanismo supõe que certas coisas que podem levar ao pecado são pecado em si; o puritanismo é extremamente material: para ele, o pecado não é moral, não reside na intenção, mas na natureza material das coisas. Por exemplo: Jesus não bebeu vinho em Caná nem consagrou vinho na Última Ceia, porque o álcool -- a substância mesmo -- causa embriaguez, logo o álcool é uma substância má, impura, pecaminosa, não criada por Deus, fruto da queda do homem. E o homem não pode se aproximar do que é impuro. O puitanismo lembra o farisaísmo que proibía a pessoa de tocar um leproso, mas vai mais além, chega até a ser meio esotérico: confere valor de bem ou mal a uma substância neutra, material.

Dito isso, fica claro que a pessoa que não ouve certas canções por prudência de não cair em tentação e/ou de causar escândalo àqueles que o vêem naturalmente não está sendo puritano, está sendo católico, ainda que ao seu modo.

Não pode haver uma regra para isso, se é certo ou errado. Depende muito da letra, do momento em que o jovem se encontra (em relação à sua ascese, ou seja, o seu crescimento na fé) e ainda, das notas musicais, que pode ser mais ou menos propício para o pecado.

Acho que isso pode se resumir em três recomendações:

1) Repito com Sócrates e Agostinho: "Conhece-te a ti mesmo";

2) Pondere se existe possibilidade de tentação e queda; pondere quais conseqüências isso poderá trazer para você; se você está buscando uma vida ascética ou fazendo direção epiritual, a responsabilidade é maior. "Quanto maior a altura, maior o tombo";

3) Considere a possibilidade de ser causa de escândalo e lembre-se que, mesmo se as pessoas não te compeenderem, mesmo que elas sejam até puritanas, podem criar um juízo de consciência errado com base no seu exemplo.

Ao refletir sobre estes três pontos, acredito que cada um encontrará a resposta apropriada para a situação em questão.

Nosso Senhor diz em sua Palavra que melhor seria dos escandalosos que lhes amarrassem uma rocha e lhes atirassem ao rio. Essas palavras saíram da boca de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não se referiu aos que são escandalizados, mas aos que são motivo de escândalo.

Se percebemos que nossas atitudes causam esse tipo de escândalo, não há dúvida que a única postura cristã aceitável é a renúncia. MAS... porém, contudo, todavia, sem embargo, entretanto... é necessário também que, juntamente com isso, sejamos fiéis anunciadores da verdade. Se as pessoas não entendem algumas posturas que tomamos, é nosso dever, antes de mais nada, fundamentarmos nossas atitudes. Não basta sermos exemplo, isso é MUITO importante, mas também temos que dar fundamento, corrigir o que possa ser um pensamento equivocado, preconceituoso e mesmo tendendo à doutrina do puritanismo.



É claro que só podemos fundamentar nossos atos quando temos a certeza que eles não estão em desagrado à vontade de Deus. No caso das músicas, existem casos e casos. E jamais podemos ser simplistas em nossas fundamentações, como por exemplo dizer "tudo bem, pode ouvir sim", ou, pior ainda, incentivar uma pessoa sendo que a reflexão não aconteceu e ela pode generalizar da forma que quiser.

Por si só, ouvir música secular é pecado? Primeiramente, como eu sempre digo, deve-se tomar cuidado quando se usa esta expressão "por si só". Se abstrairmos muito, a ponto de tirarmos todo o elemento humano -- a decisão, a consciência, a responsabilidade --, não há como haver pecado. Se não há moral para ser avaliada, não existe possibilidade de pecado. Cairíamos no mesmo erro do puritanismo, só que ao contrário: se os puritanos alegam que ouvis música secular é pecado por si mesmo, só pela presença profana das letras e do ritmo , dizer que algo não é pecado só porque a letra da canção não é impura, é neutro, é usar um raciocínio puritano para negar um pecado. O erro do puritanismo está em como se dá o conceito de pecado, não se é ou não. Rebate-se o ato, permanece-se no erro. Parece irônico, não?

Então, como avaliar se se está pecando ou não? Esqueça o argumento da letra pura / leltra impura e pense na sua responsabilidade moral. Você está dando bom exemplo? Está se arriscando de forma explícita ao pecado tal que não possa dizer em absoluto que a estadia ao ouvir será para ti motivo de pensamentos impuros? Se a resposta for "sim", há pecado, vc peca por imprudência e risco de cometer algum outro pecado que foge ao seu controle. Se for "não", você não peca. Simples assim.

PARA CITAR ESTE ARTIGO:


30 anos Kid
Abelha e a influência da música secular David A. Conceição, setembro de 2012, blogue Tradição em Foco com Roma.



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