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A Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino em forma de Catecismo (2ª Parte, Seção 2, Tópico 6)



“A Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino em forma de Catecismo” do Pe. Tomas Pégues, O. P., é uma excelente obra para aqueles que desejam iniciar o estudo da Obra Magna de Santo Tomás. Um tanto raro aqui no Brasil, haja vista que sua última edição em português data do início da década de 40, este livro é formulado como todos os catecismos tradicionais em perguntas e respostas e é de agradável leitura.

SEGUNDA PARTE: O HOMEM PROCEDE DE DEUS E PARA DEUS DEVE VOLTAR

SEGUNDA SEÇÃO: ESTUDO CONCRETO DOS MEIOS QUE O HOMEM DEVE EMPREGAR PARA VOLTAR PARA DEUS

VI. DO DOM DO TEMOR CORRESPONDENTE À VIRTUDE DA ESPERANÇA – TEMOR SERVIL –FILIAL


Qual é o efeito que produz a esperança nos fiéis enquanto vivem neste mundo?

O de fortalecer a vontade contra o excessivo temor de não alcançar a glória (XVIII,4).

Existe alguma espécie de temor essencialmente bom e enlaçada à virtude da esperança?

Sim.
Qual é?

O temor de Deus, chamado temor filial (XIX, 1, 2).
O que entendeis por temor filial?

O que nos obriga a venerar a Deus em atenção a sua excelência e infinita majestade, e a considerar como a maior das desgraças a de ofendê-Lo, ou expor-nos a perdê-Lo por toda a eternidade (XIX, 2).
Existe algum temor de Deus, distinto do filial?

Sim; o conhecido com o nome de temor servil.

Que coisa se designa com as palavras “temor servil”?

Certo sentimento íntimo, próprio dos escravos que temem o amo porque ameaça com castigos (ibid.).

O temor das penas com que Deus ameaça o pecador é sempre temor servil?

Sim; porém nem sempre é defeituoso ou envolve pecado (ibid.).

Quando será pecado?

Quando se considera o castigo ou perda de qualquer bem criado como mal supremo (XIX, 4).
Então, se alguém temesse o castigo, não como objeto principal do temor, mas enquanto leva consigo a perda de Deus, a quem ama acima de todas as coisas, experimentaria temor servil pecaminoso?

Não; seu temor seria bom, ainda que de ordem muito inferior ao temor filial (XIX, 4, 6).
Por que seria inferior?

Porque o que tem temor filial jamais se preocupa com a perda dos bens criados, com tanto que consiga a posse de Deus, Bem Incriado (XIX, 4-5).
Qual é, portanto, o motivo do temor filial?

Somente o pesar e o sentimento de perder o bem infinito, ou de expor-se a perdê-lo (XIX, 2).

O temor filial tem alguma conexão com o dom do Espírito Santo chamado dom de temor?

Tem-na e muito estreita (XIX, 9).
Logo, o dom do Espírito Santo chamado temor, anda unido de uma maneira especial à virtude da esperança?

Sim.
Em que consiste o dom do temor?

Em que, por sua virtude, o homem se mantém sujeito a Deus, e em vez de resistir aos movimentos de graça, segue com docilidade seus impulsos.

Em que se diferenciam o dom do temor e da virtude da Esperança?

Em que a Esperança olha diretamente ao bem infinito alcançável com o favor divino, e o dom do temor considera a irreparável desdita de perder a Deus, fazendo-se, pelo pecado, indigno dos auxílios sobrenaturais (XIX, 9, ad2).
A virtude da Esperança é mais nobre que o dom do temor?

Sim, porque as virtudes teologais são superiores aos dons, e também porque a esperança nos move e impele para Deus como bem supremo, e temor se estaciona na consideração do mal que resultaria perdê-lo.

É o dom do temor inseparável da caridade?

Sim; porque dela depende, como o efeito de sua causa (XIX, 10).
Pode a caridade coexistir com o temor servil no caso deste não ser pecado?

Sim; e quando isso acontece é chamado de temor inicial; porém à medida que toma incremento a caridade, evoluciona o temor até adquirir todos os caracteres do filial, o único saturado de amor de Deus, como objeto e termo de uma felicidade cuja perda seria o maior, ou para melhor dizer, o único mal (XIX, 8).
O dom do temor permanece no céu?

Sim; porém em estado perfeito e com atos distintos dos deste mundo (XIX, 11).

Em que consistem esses atos?

Em uma espécie de aniquilamento produzido, não pelo temorde perder a Deus, mas pela admiração da sua soberana grandeza estremecedora majestade, comparada com a própria pequenez, pois o bem-aventurado tem sempre a mais íntima convicção de que a sua felicidade depende só Deus (ibid.).

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino