.

Citação de Deus em músicas seculares

O fato de se gostar de escutar músicas seculares que contenham em suas letras o nome "DEUS" ( nesses casos DEUS não se é o centro e sim algo periférico), constitui pecado contra o segundo mandamento da Lei Divina? 

Em primeiro lugar, acho arriscada essa classificação comum que se faz entre "música religiosa" e "música secular". Para mim o que existe é a classificação a quem (ou ao que) a música é destinada. Se é para o entretenimento ou apreciação das pessoas, ainda que com apelo catequético ou conscientização moral, ou o que for, nada mais é do que música meramente artística, podendo ser popular ou erudita. Se é, porém, destinada ao culto divino, então é um instrumento ritual, sacro, podendo até mesmo ser um sacramental, como o é o canto gregoriano. Fora disso, fica muito difícil especificar outras classificações. Existem músicas destinadas para o público católico, mas que contém letras seculares com alguma mensagem positiva (ex: Rosa de Saron), assim como existem músicas que explicitam trechos bíblicos mas que são destinados para o público em geral (ex: algumas da Legião Urbana etc). O "serviço" de cada música no âmbito de formação religiosa acaba dependendo mais do ouvinte do que da própria música. O que não significa, é claro, que seu conteúdo não transmita, por si mesmo, certas verdades.

Por aí já vemos é é um problema classificarmos em que músicas poderia aparecer a palavra "Deus". O bom senso indica que ele poderia aparecer numa música secular totalmente descompromissada com apelo religioso, mas dentro de um contexto respeitoso e para elevação de algum aspecto humano (como o amor entre amantes, usando-se frases como "você é um presente de Deus para mim", etc). Por outro lado, é de extremo mau gosto o uso ou mesmo a referência à pessoa de Deus de forma a retirá-lo da sua contextualização natural (novamente citando a nova formação do Rosa de Saron, na minha humilde opinião) ou essas músicas como Kid Abelha - Deus por favor apareça na televisão  ou Chico Buarque - Cálice .

Por outro lado, não se pode dize que o segundo mandamento "Não tomar o Santo Nome de Deus em vão" possa se aplicar ao uso da palavra "Deus" em músicas não ligadas ao culto sagrado. É preciso entender que o "Santo nome de Deus", na cultura judaica era YHWH, o "Eu sou" ou inefável, que não pode ser denominado. A cultura judaica tinha um profundo respeito pela observância deste preceito. De fato, até hoje não devemos pronunciar termos que propõem a tradução fonética do tetragrama judaico, como infelizmente acontece em algumas de nossas missas.

Já "Deus" não goza do mesmo rigor, porque apesar de parecer estranho, "Deus" não é o nome de Deus. A palavra "Deus" tem o mesmo propósito designativo de "Senhor", e tem origem inclusive no Zeus grego. O nome de Deus Pai é o mesmo "Eu sou" inefável, mas o nome que Deus escolheu ter quando se fez carne é Jesus Cristo. É por isso que na Liturgia sempre nos curvamos quando ouvimos este sagrado nome, e algumas congregações têm o costume de escrevê-lo sempre em maiúsculas. Assim, o que se aplicava antes a YHWH, hoje em certa proporção pode ser compreendido para JESUS. Também é válido mencionar aqui a festa que se celebra em honra ao Santo Nome de Jesus, por ocasião justamente da ciscuncisão do Senhor oito dias depois do seu nascimento. 

Os judeus ortodoxos são os únicos que reivindicam saber exatamente como era a pronúncia do Tetragrama, e a pronunciam apenas uma vez por ano. Seria, então, um mito que a pronúncia verdadeira se perdeu. No entanto, é provável que a pronúncia verdadeira tenha, de fato, se perdido.  

"Jeová" é o tetragrama sagrado com as vogais (em hebraico) da palavra Adonai. Não há influência das testemunhas de Jeová. A tradição de se substituir as vogais do tetragrama pelas vogais de Adonai é judaica, pois os judeus temiam pronunciar o nome de Deus. Na Idade Média, o nome Jeová apareceu em escritos cristãos. "Jeová" um termo já consagrado em nossa literatura (aparece, por exemplo, nos poemas de Castro Alves), apesar de ninguém ter certeza da pronúncia do nome de Deus no Antigo Testamento. 

O tetragrama é יהוה e é usado desta forma pois pertence a um uso do Hebraico arcaico, onde não usavam vogais nas palavras apenas consoantes, pois as vogais se davam com a "vocalização" das consoantes na hora da pronuncia, acontece que o povo hebreu com o passar do tempo foi perdendo a pronuncia correta, e isto associado ao exílio babilonico onde eram proibidos de pronunciar o nome de Deus, para que sua crença não caisse e não fosse igualada ao culto pagão, entaum não pronunciavam o nome do Eterno nem mesmo nos SHABBAT, e depois do exílio a língua arcaica já era de dificil compreensão, mas o TETRAGRAMA persistiu até como uma identidade religiosa.

Acontece que o uso para JEOVÁ, quem definiu assim foi São Jerônimo na vulgata, e os Judeus aceitaram, mas não nos ritos liturgicos.

São Jerônimo fez uma "vocalização", e não uma transilteração, ou tradução, misturando o tetragrama YHVH com a palavra EDONAI, ficando assim YEHOVAH, mas lembre-se que Jeronimo falava alemão logo a sua escrita com o uso de J em Alemão lê-se como sendo I, ou o nosso Y, por isto a grafia é JEOVÁ, devido à grafia usada por Jerônimo, assim como na Palavra Jesus, e lemos como lemos, pois na verdade seria uma transliteração.

Na verdade até os MASSORETAS usavam esta grafia, o Jeonimo quem também o adotou.

O que acontece é que a pronuncia correta se perdeu, devido À deficiencia do hebraico arcaico, onde foi necessário que os massoretas intervissem, senão perderiam a TORAH completamente, devido ao esquecimento do povo.

Mas apenas transliteraram para algo parecido com o que falavam e o que permanece é o Tetragrama.
 
Pois se levarmos ao pé da letra teríamos que ler IAVÉ, obedecendo ao conceito da língua hebraica, assim como ao falarmos ECHAD, falamos ERRAD, apenas para obedecer o conceito linguistico de vocalização, mas acontece que se trata de uma transliteração e não obedecemos, mas sim seguimos o nosso sistema linguístico próprio, assim como o nome de Jesus é YESHUA, de Maria é Mirian, Elias é Eliyahu, Jeremias seria Yirmeyáh, entre outros nomes que seriam de difícil pronúncia para nós que falamos uma lingua não semítica.

Numa análise vemos nas religiões pagãs o uso de nomes próprios para as suas divindades, tipo VISHNU, ZEUS, etc. Acontece que na Bílbia tanto no NT, como no NT, não é apresentado nenhum nome especifico, mas apresenta POTÊNCIAS ou PROMESSAS, mostrando que não há um nome especifico, mas sim providências, vejamos:
 
EL SHADAI significa Deus Poderoso, mas lembre-se que EL significa O, e SHADAI significa poderoso, onde a particula em destaque EL, indica um uso potencial e único, dentro da concepção semitica num nome.
 
Adonai(Soberano)
 
Ha Adhóhn (O VERDADEIRO), lembre-se que a partícula HA, significa O, assim como EL.

E temos isto vertido muito forte no termo :

EHYEH ASHER EHYEH que significa Eu sou o que sou, indica um Deus providencial, e não causual. E olha que o povo pedia a Moshê por um nome o nome de Deus e Deus mandou que dissesse isto ao povo, pois o nosso Deus não necessita de um nome para que creiamos nele, nossa fé provem de toda ação beatífica, e é isto que a própria Revelação que Deus se faz nos mostra, não temos a necessidade de associar nosso Deus com um nome.

Deus simplesmente é, pura e simplesmente.

O uso de D'us, ou D-us, pelos judeus procurando não escrevê-lo completamente parte mais da tradição do que da religião.

Pois há uma proibição do uso do nome do Eterno, não há um nome especifico nem os termos ADONAI, ELOHIM, ou outro qualquer expressa o verdadeiro nome de Deus, mas exprime a sua potência providencial.

O termo Yahveh, Javé ou outro exprime uma auto revelação de Deus, não em seu nome, mas em ATO, pois Deus é ato, palavra em movimento, palavra que tem vida, o Deus da promessa.

E salientando que pecado mortal é àquele praticado contra o Espírito Santo, assim como Jesus nos ensinou, pois o Espírito Santo é a própria ação de Deus em nossas vidas e pecar contra um Ato Beatífico, que o próprio Deus concede por intermédio de sua graça, é ir contra a própria vontade do Eterno.

Os termo Yehovah, Yahveh, exprimem o significado providencial de Deus enquanto o próprio Deus e como Deus não se divide, portanto toda palavra que exprime a potência divina se aplica Deus como unidade.

No caso, a transcrição de que se fala seria a do monge Raimundo Martini, em 1278, na obra Pugio fidei, como Jehova/Yohoua. 

De fato, em Ap 4,2, Deus é chamado de "Ser" por São João.

Quanto a Yahweh ser o Nome do Deus Uno e Trino, e não de só uma das três Pessoas Divinas,  faz muito sentido, pois Jesus disse "Eu sou" durante Sua vida pública (Jo 8,58), justamente dizendo que Ele é antes que Abraão fosse. Logo, quando Deus, no Horeb, diz "Eu sou" a Moisés, certamente esse pronome "Eu" refere-se à Santíssima Trindade, e ainda assim no singular, deixando transparecer a unidade de Sua essência. Similarmente, Deus disse "façamos" (Gn 1,26), deixando transparecer a Trindade das Pessoas Divinas, antes mesmo de ter revelado isso com clareza, Revelação esta que só foi manifestada no Novo Testamento.

Deus é antes que Abraão ou qualquer outra pessoa fosse. Isso me transmite também a idéia de que Ele, e somente Ele é como é por Si mesmo somente, o único verdadeiro "Ser", como disseram São João e o nosso amigo Rui; e é desde toda a eternidade. O Filho é gerado do Pai desde toda e eternidade, e o Espírito Santo procede do Pai e do Filho desde toda a eternidade. Já nós, existimos porque Deus nos criou, somos criaturas e não seres. 

Aliás, por falar no Apocalipse, é bonito de ver como em 5,6, São João vê o Cordeiro (Jesus) no meio do trono, mostrando como Ele é um com o Pai e o Espírito Santo; e "de pé, como que imolado", mostrando que este é o mesmo que foi morto e ressuscitou. Logo em seguida, no versículo 7, Ele "veio e recebeu o livro da mão direita do que se assentava no trono", mostrando que, ao mesmo tempo em que é, com o Pai e o Espírito Santo, um só Deus, Eles são de fato Pessoas distintas, pois ninguém recebe nada de si mesmo. 

Referências:



Apologia del Cristianismo (Parte 1ª e Tomo 1° - Dios y la natureleza), del Dr. Pablo Schanz
 
Curso de Apologética Christã, do Pe. Walter Devivier S. J.
 
Diccionario de Teologia Dogmática – Pe. Pietro Parente
 
Iniciação Teológica (Volume III: O Mistério de Cristo), do Pe. Dr. Maurílio Teixeira-Leite Penido

PARA CITAR ESTE ARTIGO:


Citação de Deus em músicas seculares
David A. Conceição, setembro de 2012, blogue Tradição em Foco com Roma.



CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:

tradicaoemfococomroma@hotmail.com

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino