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Os erros da Hermenêutica da Ruptura [4]


O Apostolado Tradição em Foco com Roma seguirá com um conjunto de estudos que refutará os vários erros que se atribuem ao Concílio Vaticano II. Alguns serão tirados da tradução da versão francesa do jornal SiSiNoNo (publicada a partir do número 247, de julho-agosto de 2002), outros de diversos sites, e alguns nem serão tratados por já estarem plenamente batidos neste blog. O intuito é que após isso possamos fazer um índice com todos os erros elencados refutados para um melhor baseamento do leitor frente os tradôs e sedevacantistas. Já adiantamos que a finalização desse trabalho não será em curto prazo, pois como ensina São Jerônimo refutar o erro sempre é um trabalho mais penoso do que simplesmente anunciá-lo. O leitor que quiser participar desta iniciativa poderá nos enviar sua refutação para nosso email (tradicaoemfococomroma@hotmail.com), e poderá ver aqui publicada sua refutação.

Supostos erros concernentes a Santa Igreja

Santo Tomás: “a nossa vida é dirigida e ordenada pela graça ao gozo da divindade, segundo certa participação da natureza divina” (secundum quandam participationem divinae naturae, quae est per gratiam, S. th. II-II, 19,7; cfr. I, 93, 4; I-II, 4,8; Itin men. c 5.)

CRÍTICA:

“2.3. Uma representação gravemente errada e ambígua da definição tradicional da Igreja como "Corpo místico do Cristo" no artigo 7 da constituição Lumen Gentium que lhe é consagrada. Efetivamente, pode-se ler ali que "o Filho de Deus, na natureza humana à qual está unido, alcançando a vitória sobre a morte por sua morte e sua ressurreição, resgatou o homem e o transformou para dele fazer uma nova criatura (hominem redemit et in novam creaturam transformavit) (cf. Gal. 6,15; II Cor. 5, 17)" (Lumen Gentium 7). Parece que se considera aqui a redenção como já tendo tido lugar para cada homem, a partir do momento em que se declara que o homem foi transformado "em uma nova criatura" não porque acreditou no Cristo, nem porque se converteu, tornou-se cristão com a ajuda do Espírito Santo, nem por sua fé e suas obras sustentadas pela Graça (como aparece claramente em Gal. 6, 15 e II Cor 5,17 impropriamente citadas pelo Concílio),mas pelo próprio fato da Encarnação, do sacrifício e até da ressurreição do Cristo.”


SOLUÇÃO:

O autor demonstra desconhecer pontos básicos do Mistério da Redenção. Uma notória incompetência para tratar de um assunto tão rico da Teologia. O enleio flagrante se dá por o autor, apesar de parecer considerar que a fé, a conversão, e as boas obras provenham do auxílio da Graça, omitir que isto remeta ao Sacrifício de Cristo. Logo, dizer que somos salvos pela Graça ou pela vitória de Cristo com sua morte e ressurreição, operando o resgate nosso, transformando-nos, dá no mesmo. Palavras que soam no mesmo sentido encontramos no Concílio de Trento onde se diz: “O mistério da Redenção consiste no fato de Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, ter assumido as nossas inquidades, e, morrendo na cruz, ter satisfeito por nós a justiça divina; resgatando-nos do pecado e do inferno, e mereceu-nos a vida eterna; de modo que a sua expiação, igual à ofensa, e oferecida por todos os homens, permite a todos os homens salvarem-se, contanto que não ponham obstáculos à sua salvação.” (Sess. VI, De reform., c. I-III)

Os homens não podem ser justificados “se não regenerados no Cristo, porque é naquele renascimento e pelos méritos da sua Paixão que lhes é dada a Graça da justificação” (Sess. VI, c. III) “Ninguém é justo, senão aquele ao qual foram aplicados os méritos da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Ib. c. VII) Razão de vermos ser a conclusão do autor tão inépcia. Por natureza éramos filhos da cólera, mas pela morte de Nosso Senhor fomos reconciliados (cf. Ef. II, Rom. VI; Coloss. II).

Jesus Cristo é claro: “Sem mim, nada podeis fazer.” (Jo, XV, 5) Acrescentamos com São Paulo: “Não somos capazes de ter, por nós mesmos, nenhum bom pensamento: Deus só que nos dá este poder.” (II Cor. III, 5) Por desvincular o Sacrifício e a Ressurreição de Cristo no mistério da Redenção o autor de algum modo aproxima-se dos erros dos Pelagianos. Mas mais uma vez São Paulo não deixa dúvidas: “
Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo.” (Ef. IV,7). O Concílio de Orange anatematizou o erro pelagiano que pretendia que, só pelas forças da natureza, podemos fazer algum bem no tocante à salvação e à vida eterna.

E ao contrário do que o autor pensa, Santo Tomás explica que somos redimidos pela força da Paixão de Cristo (cf. ST, III, 49, 1). Logo, vemos que o Concílio está totalmente correto, a não ser que o autor queira dizer que Trento e Santo Tomás erram juntos. Em resumo: Nos méritos do Sacrifício e Ressurreição de Cristo tem fundamento nossa capacidade de merecer. (Cf. C. Trento, Sess. VI, c. 32)

CRÍTICA:

“O "Corpo místico" seria, portanto, constituído de "novas criaturas", que são consideradas redimidas dessa maneira: é o erro da redenção objetiva e anônima, cavalo de batalha da "Nova Teologia" (cf. §5.0 e 5.1 desta sinopse), que faz total abstração do papel do livre arbítrio, da fé e das obras para a obtenção da salvação. Evidentemente, quiseram assimilar, sic et simpliciter, o "Corpo místico do Cristo" ao gênero humano (cf. Lumen Gentium 1).”

SOLUÇÃO:

Quem faz aqui total abstração do Papel da Graça também na fé e nas boas obras é o autor. O Concílio não rebaixa a autonomia do homem, só demonstra que é através do Sacrifício de Cristo que a nossa liberdade passa a possuir algum significado para a salvação. Mesmo com o influxo da Graça permanecemos livres. A teologia chama isso de “graça eficaz”, sua ação origina efetivamente o bom querer. A “graça eficiente”, ao contrário, dá-nos somente o poder, mas falta a vontade.

O querer passa a ser produzido somente pela nova graça que é sempre infalível. Este êxito foi sempre previsto por Deus no seu decreto da Graça. Os Tomistas costumam explicar que a vontade é livre “in sensu diviso” e não “in sensu composito”, isto é, a fusão efetiva entre a graça eficaz e a vontade não faz ser logicamente possível à vontade omitir o ato, pois foi por essa graça que ela livremente determinou-se a esta ação.

Iniciamos e também terminaremos com Santo Tomás:

“O livre arbítrio é causa de seu próprio movimento, já que o homem se move a si mesmo para agir por seu livre arbítrio. Mas a liberdade não precisa necessariamente que o sujeito livre seja a primeira causa de si mesmo. Para que uma coisa seja causa de outra, tampouco, precisa que seja sua primeira causa. E assim como ao mover as causas naturais não impede que seus atos sejam naturais, ao mover o voluntário, tampouco impede que suas ações sejam voluntárias.” (S. th. I, 83, I ad 3)

“Deus, como motor universal, move a vontade do homem para o seu objeto universal, que é o bem. Sem este movimento universal, o homem não pode querer nada. Mas o homem se determina mediante a razão ao querer isto ou aquilo, que é um bem real ou aparente. Não obstante, as vezes Deus move a alguns de um modo especial a querer algo determinado, que é um bem; por exemplo, aos que move mediante a graça, como se dirá mais adiante (q 109 a. 2)” (S. th. I-II, 9,6 ad 3).

PARA CITAR ESTE ARTIGO:



Os erros da Hermenêutica da Ruptura [4]. Nelson Monteiro S. Silva, setembro de 2012, blogue Tradição em Foco com Roma.



CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:

Nelson.sarmento@gmail.com

 

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