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Os erros da Hermenêutica da Ruptura [5]


O Apostolado Tradição em Foco com Roma seguirá com um conjunto de estudos que refutará os vários erros que se atribuem ao Concílio Vaticano II. Alguns serão tirados da tradução da versão francesa do jornal SiSiNoNo (publicada a partir do número 247, de julho-agosto de 2002), outros de diversos sites, e alguns nem serão tratados por já estarem plenamente batidos neste blog. O intuito é que após isso possamos fazer um índice com todos os erros elencados refutados para um melhor baseamento do leitor frente os tradôs e sedevacantistas. Já adiantamos que a finalização desse trabalho não será em curto prazo, pois como ensina São Jerônimo refutar o erro sempre é um trabalho mais penoso do que simplesmente anunciá-lo. O leitor que quiser participar desta iniciativa poderá nos enviar sua refutação para nosso email (tradicaoemfococomroma@hotmail.com), e poderá ver aqui publicada sua refutação.

Onde se encontra o erro: http://www.capela.org.br/Crise/Vaticano2/sinopse2.htm 

Supostos erros concernentes a Santa Igreja

( Todo o conteúdo desta sequência apologética foi enviada ao Prior do Mosteiro de Santa Cruz )

CRÍTICA:
“2.4. Outra falsa noção da Igreja: concebê-la como "povo de Deus" e não como "Corpo místico do Cristo" (Lumen Gentium 9-13). Esta definição, de um lado, toma a parte pelo todo, quer dizer, toma o "povo de Deus" mencionado em I Pedro 2,10, pela totalidade da Igreja, quando se trata de uma expressão de louvor dirigida por são Pedro aos fieis convertidos do paganismo ("Vós que outrora não éreis seu povo, mas agora sois povo de Deus"), e que conduz a uma visão "democrática", "comunitária" da própria Igreja, visão totalmente estranha à Tradição Católica, mas próxima, ao contrário, da maneira de sentir dos protestantes heréticos.

Por outro lado, essa definição inclui também na noção de "povo", e portanto em uma desabitual e indefensável perspectiva "comunitária", a Hierarquia, cujos elementos são considerados "membros" do "Povo de Deus" (Lumen Gentium13) e a este título parecem participar com o "povo" do Corpo místico do Cristo.”
SOLUÇÃO:
Não é verdade que o Concílio descrevendo a Igreja como “povo de Deus” desfez-se da expressão de “Corpo Místico”. As duas designações são apresentadas para se referir à Ela. A expressão Corpo Místico aparece, pelo menos, oito vezes na Lumen Gentium, então, é deturpar dar entender que há uma substituição de nome pretendida pelo Concílio. No Sínodo Extraordinário de 1985 é explicado que essas duas realidades além de não se excluírem, complementam-se. Lemos: "Toda a importância da Igreja deriva de sua conexão com Cristo. O Concílio descreveu de diversos modos a Igreja como Povo de Deus, Corpo de Cristo, Esposa de Cristo, templo do Espírito Santo, família de Deus. Estas descrições da Igreja completam-se mutuamente e devem ser compreendidas à luz do mistério de Cristo ou da Igreja em Cristo." (Relatio Finalis II, A, 3).
A expressão “Povo de Deus” não é uma definição e sim uma descrição, que por si só, não consegue expressar toda a dimensão da Igreja. Aliás, nem qualquer outro símbolo poderia, pois a Igreja é antes de tudo um Mistério. É por essa falta de percepção que as tentativas de expô-la como “Povo de Deus”, pelo dominicano M. D. Koster,encontraram não pouca oposição, esta justificada, pois ele pretendia impor a expressão como a única “designação completamente clara e não metafórica.”. É óbvio que tal intenção foi vã, pois se descuida da expressão paulina da Igreja como Corpo Místico, desenvolvida pela encíclica Mystici Corporis do Papa Pio XII.

“Povo de Deus” anuncia a ideia humana da Igreja, seus membros, por isso, desvinculá-la da proporção maior do “Corpo Místico” (como fizeram alguns teólogos progressistas) é esquecer-se da existência da Igreja no aspecto sobrenatural, transcendental, partindo do poder divino "de perdoar pecados (Mt. 16 18-19; Jn. 20 23.), de excomungar (I Cor. 5 3.) e de consagrar o verdadeiro Corpo de Cristo (Lc. 22 19.)" (cf. Catecismo Romano Introd. ao cap. X, Nono artigo do credo)
Cabe lembrar que nós (membros) não somos externos à Igreja, mas a formamos. Isso não indica um radicalismo absurdo como a tentativa de muitos grupos de identificar os fiéis, e só eles, como a Igreja. Quando o Povo de Deus é expresso é para mostrar o elemento humano que constitui a Igreja. É tornar visível uma de suas faces. O mesmo fez São Paulo quando disse: “Vós sois o corpo de Cristo” (1 Cor 12, 27)
Assim explica a Comissão Teológica Internacional sobre isso:

"A analogia com o Verbo encarnado permite afirmar que este 'instrumento de salvação' que é a Igreja deve ser entendido de modo tal que se evitem dois excessos típicos das heresias cristológicas da Antiguidade. Assim, deve-se descartar, de um lado, uma espécie de 'nestorianismo' eclesial, de acordo com o qual não haveria nenhuma relação substancial entre o elemento divino e o elemento humano. Inversamente, seria possível guardar-se, também, de um 'monofismo' eclesial, de acordo com o qual tudo na Igreja seria 'divinizado' e, portanto, sem os limites, as deficiências e os erros da organização, fruto dos pecados e da ignorância das pessoas." (Temas seletos de Eclesiologia (1984), n. 6,1)

Não foi sem razão que se decidiu colocar o capítulo tratando do Povo de Deus (2), antes do qual aludia a caracterização hierárquica da Igreja (3). O “Povo de Deus” expõe o que é comum a todos os fiéis cristãos antes de qualquer diferença. Assim, é feito notar o sacerdócio comum de todos (1 Pd 2, 9; Rom 8,17) antes de exibir que a sociedade da Igreja por sua natureza é desigual (cf. Vehementer, Pio X). Na mesma linha de Santo Agostinho: "Para vós sou bispo, convosco sou cristão..." (Sermo 340, 1: PL 38, 1483) Todos os cristãos são unidos a Cristo pelo sacramento do batismo da mesma forma e neste sentido igualam-se. Logo, é verdade quando o autor diz que LG apresenta o aspecto comunitário (entendido no que se tem em comum) da Igreja. Só erra quando diz que isso não tem fundamento na Tradição.
Podemos pegar duas explanações de teólogos importantes antes do Concílio que usando a fórmula negam a acusação de uma “Igreja democrática”:
Morsdorf : “A Igreja é o “novo Povo de Deus existente segundo certa ordem hierárquica, reunido para realizar o reino de Deus.” (En su Lehrbuch des Kirchenrechts, 7, 1953, pág. 25)

M. Schraaus: "A Igreja é o povo de Deus neotestamentário fundado por Jesus Cristo, estruturado hierarquicamente, que serve às exigências do domínio de Deus e à salvação dos homens, e que existe como corpo místico de Cristo" (Katholische Dogmatik, I I I / l : Die Lehre von der Kirche, (Munich "1958), 48)

Tirando os casos das más interpretações, a expressão nunca foi rejeitada pelos teólogos, foi muito usada, encontrando embasamento riquíssimo na Tradição (aqui a digo em sentido amplo).

O Catecismo de Trento sobre ela diz:

“3º. Por que a Igreja está incluída entre os artigos da fé - Embora possamos conhecer pela razão e pela experiência que existe na terra a Igreja, isto é, uma congregação de homens dedicados e consagrados a Cristo nosso Senhor, porém só pela fé podemos compreender sua origem, suas prerrogativas e sua dignidade. E assim sabemos pela fé que a Igreja foi fundada diretamente por Deus (Mt. 16 18; Sal. 82 5.), por isso é chamada herança de Deus (Sal. 32 12; 78 62.) e povo de Deus (Sal. 27 9; 28 11.)” (CR, Introd. ao cap. X, Nono artigo do credo)

“Quais e quantas coisas nos manda crer que há na Igreja. Não foi os homens os fundadores desta Igreja, mas o mesmo Deus imortal que a edificou sobre uma firmíssima pedra, segundo o Profeta que diz: - Ele mesmo Altíssimo a fundou. Por isto se chama herança de Deus, e o povo de Deus.” (CR, cap. X, 21)

Santo Agostinho:

“Mas a Igreja, que é o povo de Deus, é uma instituição antiga, mesmo na peregrinação desta vida, com um interesse carnal em alguns homens, um interesse espiritual em outros. Para o carnal pertence a antiga aliança, para o espiritual da nova.” (De Baptismo contra Donatistas libri septem, Livro I, cap. 15, 24)

Tertuliano na mesma direção diz:

"E, consequentemente, nós, que "não éramos o povo de Deus", em tempos idos, fomos feito o seu povo, por aceitar a nova lei acima mencionada, e da circuncisão nova antes anunciada." (Adversus Iudaeos, III, 13)

E mais:

'Há também um outro Salmo que começa com estas palavras: "Dê os teus juízos, Ó Deus, para o rei", isto é, ao Cristo que havia de vir como rei, "e a tua justiça ao filho do rei", isto é, ao povo de Cristo." (Adversus Marcionem V, 9,9)

S. Cipriano:

"um povo unido na unidade do Pai, do Filho, e do Espírito Santo." (De Dominica Oratione, 23)

"De onde, aliás, nada pode separar a Igreja - isto é, as pessoas estabelecidas na Igreja" (EPISTLE LXII, 13)

"Unde ecclesiam id est plebem" (Epistula LVIIII, 18, G. Hartel (ed), CSEL III,II, Vindobonae 1871, 687)

Huguccio, mestre de Inocêncio II e o maior entre os canonistas, vai além: “Onde quer que haja bons fiéis ali está a Igreja romana”. (Foundations, 41)

Isso só para citar alguns. Poderíamos ainda falar do amplo uso litúgico...

O acusador ainda por cima lança-se numa análise sem sentido quanto a carta de São Pedro e o uso da expressão. Quando nosso primeiro Papa usa a expressão para os gentios o faz para mostrar que eles ingressavam ao Povo de Deus, o Novo Povo de Deus. O uso dos termos na Igreja primitiva é para denotar a totalidade dos fiéis.

Assim, por exemplo, São Paulo diz: “Por isso, resta um repouso sabático para o povo de Deus.” (Hebreus 4,9) “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniqüidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” (Tito 2,14) Estes versos comparados a outros do santo mostram que é uma referência à Igreja. Vejamos as outras passagens na mesma lógica:

“E por isso também Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora da porta.” (Hb 13,12)

“Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra,para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível.” (Ef. 5, 25-27)

Em Romanos, São Paulo diz que o povo chamado por Deus é tanto os judeus quanto os gentios: "(Esses somos nós, que ele chamou não só dentre os judeus, mas também dentre os pagãos.) É o que ele diz em Oséias:Chamarei meu povo ao que não era meu povo, e amada a que não era amada. E no lugar mesmo em que lhes foi dito: Vós não sois meu povo, ali serão chamados filhos de Deus vivo (Os 2,1)." (Rom. 9, 24-26)

Findo com as palavras do Venerável Pio XII:

Nem é de admirar que os fiéis sejam elevados a uma tal dignidade. Com a água do batismo, com efeito, os cristãos se tornam, a título comum, membros do corpo místico de Cristo sacerdote, e, por meio do "caráter" que se imprime nas suas almas, são delegados ao culto divino, participando, assim, de modo condizente ao próprio estado, do sacerdócio de Cristo.” (Mediator Dei, 79)

PARA CITAR ESTE ARTIGO:



Os erros da Hermenêutica da Ruptura [5]. Nelson Monteiro S. Silva, setembro de 2012, blogue Tradição em Foco com Roma.



CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:

Nelson.sarmento@gmail.com

 

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