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Os erros da Hermenêutica da Ruptura [6]



O conteúdo dessa sequência apologética foi enviada para o Prior do Mosteiro de Santa Cruz - Dom Tomás de Aquino, para o responsável do Grupo Permanência - Dom Lourenço Fleichman e Pio Espina - sacerdote sedevacantista argentino.

ACUSAÇÃO: 

“2.5. O obscurecimento da noção da santidade da Igreja, que pertence ao depósito da fé. Lê-se, efetivamente, que a "Igreja [do Cristo — N. da R.], que encerra em seu seio os pecadores, que é santa e, ao mesmo tempo, sempre deve ser purificada, procura sem cessar a penitência e a renovação" (Lumen Gentium 8), o que é um erro teológico evidente, já que é o pecador que tem necessidade de purificação e não a Igreja, graças à qual o pecador a obtém (...)

É, portanto, completamente errado escrever, nisso persistindo, que aqueles que se confessam "se reconciliam com a Igreja que seu pecado tinha ferido (quam peccando vulnaverunt)" (Lumen Gentium 11) ou que a Igreja é "aureolada por uma santidade verdadeira mas imperfeita" (Lumen Gentium 48) por causa do pecado que a fere continuadamente: é errado porque o pecado ofende a Deus, mas fere e portanto prejudica somente àquele que o comete e isso é tão verdade que a pena só se aplica a ele (o Julgamento é individual). A Igreja Católica, enquanto tal, não pode ser ferida pelo pecado de um de seus membros, muito menos ainda o depósito da fé.”


SOLUÇÃO: 


Esta resposta por razão da complexidade do problema que toca será dividida em cinco partes:


1. A Igreja é Santa em absoluto.


2. Forma não herética da afirmação que a Igreja é “Santa e pecadora”

3. Resposta preliminar

4. A Tradição

5. Conclusão
                      

A IGREJA É SANTA EM ABSOLUTO 


Deve-se dizer que a Igreja essencialmente é só Santa. Não há lugar para pecado Dela. Nosso Credo diz que Ela é Santa, e como tal não pode ter espaço para o erro. Neste contexto quando biblicamente lemos a palavra “santo” é para significar, em primeiro lugar, tanto como sermos chamados por Ele quanto pertencer a Deus. Deve-se passar longe da teologia protestante que ao negar o dogma tem uma interpretação absurda do que é a santidade da Igreja, atribuindo só a Cristo. Em suas palavras a sola gratia leva a solus Christus. A teológica católica diz que a santidade da Igreja pode ser vista sob vários aspectos, ao menos em dois, certamente: a santidade ontológica e a santidade ética ou moral. 

Santidade ontológica. 

Jesus Cristo, que é Deus Santo, é Cabeça da Igreja esta está por Ele santificada. Sua Santidade em Sua Esposa está na medida em que Ela participa de sua própria pertença a Deus. A Doutrina que nos chegou é igualmente santa. Além disso, os sacramentos perfeitos, instituídos por Cristo para santificar as almas, pelo qual recebemos o Espírito Santo, são fontes de santificação para toda a Igreja. O batizado, converte-se em outro, ocorrendo uma profunda transformação, ou seja, pela fé Nele e pelo sacramento da fé é libertado o pecado, considerado como apartamento de Deus. A pessoa no batismo é “limpa de toda mancha e rugas (Ef. 5,27), e nesta pureza o Senhor quer que ela continue.”

Santidade ética ou moral. 

A esta santidade ontológica deve necessariamente corresponder a santidade moral dos membros da Igreja. É rigorosamente necessário que pelo fato de existirem meios de santificação que acabamos de indicar sejam produzidos os frutos dessa santidade nos membros da mesma Igreja. Segundo as palavras do Senhor Jesus: “Toda árvore boa produz bons frutos” (Mt 7. 17-19). Enquanto Cristo não tentou melhorar o mundo por vias políticas, mas ordenar as relações dos homens com Deus, a moralidade predicada por Ele tem também suas consequências inevitáveis na transformação para o mundo. Também São Paulo supõe esta santidade quando em suas palavras os cristãos “estão mortos para o pecado, vivos no Espírito” (Rom. 8, 9-10) 

Sintetizamos com Santo Tomás: “Se chama santidade à aplicação que o homem faz de sua mente e de seus atos a Deus. Sua diferença, para tanto, com a religião não é essencial, mas simples distinção de razão. A religião oferece o serviço devido a Deus no que especialmente toca ao culto divino, como o sacrifício, a oblação ou coisas similares. A santidade, além disso, refere a Deus as obras das restantes virtudes, o bem faz que o homem se disponha por certas obras boas ao culto divino” (ST 2-2, q. 81, a. 8: ed. BAC cit., 32-33) 

Por todas as razões expostas deve-se dizer que a Igreja é Santa, e considerá-la absolutamente assim. Os pecados de seus membros não são pecados da Igreja em si mesma. Como nos diz o Papa Pio XII “Não se pode imputar a Ela se alguns de seus membros sofrem de chagas ou doenças; por eles ora a Deus todos os dias: "Perdoai-nos as nossas dívidas" e incessantemente com fortaleza e ternura materna trabalha pela sua cura espiritual.” (Enc. Mystici Corporis, 65) 

FORMA NÃO HERÉTICA DA AFIRMAÇÃO QUE A IGREJA É “SANTA E PECADORA” 


Contudo, nem sempre a expressão Igreja “santa e pecadora” deve ser considerada herética. O Papa João Paulo II diz explicitamente: “E aqui estou, convosco, peregrino entre peregrinos, nesta assembleia da Igreja peregrina, da Igreja viva, santa e pecadora, para “louvar o Senhor, porque é eterna a sua misericórdia” (Ps. 135, 1)” (Discurso do Papa João Paulo II ao Bispo de Leiria na chegada à Fátima) Convém ao fiel ter a sensatez de interpretá-la no sentido católico. P. Rahner dividia bem a questão, admitindo que Ela possa chamar-se “pecadora”, porém apenas “em seu corpo da carne, em sua forma “histórico-temporal” (Kirche der Sünder 12-20. Véase Dejaifve, art.cit. em bibli.). 

É claro que não pode chamar-se pecadora se a entendemos em toda sua completude, todo o aspecto divino Dela: Cristo, sua Cabeça, o Espírito Santo, sua alma, o depósito da fé, os sacramentos, etc. E neste sentido há de se dizer ao lugar que a Igreja é santa e santificadora. Todavia, podemos falar de “Igreja pecadora” enquanto seus membros, parte essencial dela, são verdadeiramente “Igreja”. Consideraremos para tanto o aspecto humano, temporal, apenas para essa descrição. O Papa Pio XII diz claramente, considerando a parte pelo todo, que os leigos não apenas pertencem à Igreja, mas “são a Igreja” (Alocução aos novos cardeais em 20 de fevereiro de 1946, AAS 38 (1946) 149. Trad. castellana "Ecclesia" (1946) I 231). 

Ora, uma vez que é possível dizer que os leigos são a Igreja, por consequência é legítimo dizer que a Igreja é “pecadora”, por um silogismo simples, em que a premissa menor é que “os leigos são pecadores”. Concluindo que logo a Igreja é pecadora nesse sentido, pela própria definição dada. Mas é claro que ela não é completa e não considera a Igreja em toda sua dimensão. Desta maneira o binômio com aparência antitético “santidade-pecado” da Igreja nos leva ao entendimento do mistério real da Igreja. Que ela tem aspecto humano e divino. Mostra-nos a “immaculata ex maculatis”, imaculada de maculados ou manchados, segundo a expressão de Santo Ambrósio (In Lc. I, 71: ml 15, 1540.) Deve-se evitar essa expressão pelo fato de gerarem más interpretações, mas em si mesma não há nada que prove que é herética.

RESPOSTA PRELIMINAR


Apesar da Igreja Católica ser totalmente Santa, o Concílio diz que Ela é “semper purificanda” (sempre necessitada de purificação). A primeira vista isso pode parecer contraditório, mas se olharmos atentamente para o tema veremos que sua resolução é possível, sendo clara na Tradição. Duas realidades são manifestas, uma que a Igreja possui, realmente, santidade, e outra, que essa santidade não é perfeita. Ainda há de possuir a perfeição total no estado escatológico, não se deve esperar isso na realidade terrena. Dizer o contrário é cair na heresia pelagiana, tão combatida por Santo Agostinho, propondo uma Igreja perfeita já na terra. 

As palavras do apóstolo Paulo que Cristo quis apresentar a Igreja a si mesmo “como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável.” (Ef 5,27) não valem apenas para o momento presente, mas, principalmente, na sua Glória, onde não haverá nenhum resquício do pecado. Esta é uma interpretação dos Pais da Igreja e de Santo Tomás, como adiante mostrarei. Ela é levada à Santidade perfeita. Acontece que os pecados dos filhos da Igreja obscurecem, caducam, sua santidade, embora seja obustecida pela força do Senhor ressuscitado. 

A Igreja, como extensão de Cristo, também carrega o peso dos erros e culpas de seus filhos possuem. Ora, Ela é Cristo continuado, não há nada estranho nisso. A Comissão Teológica Internacional sobre isso diz: “Esta Igreja - que abraça os seus filhos do passado, assim como os do presente, numa real e profunda comunhão - é a única Mãe na Graça que carrega em si o peso das culpas também passadas para purificar a memória e viver a renovação do coração e da vida segundo a vontade do Senhor.

Pode fazê-lo porquanto Jesus Cristo - de que é o Corpo misticamente prolongado na história - assumiu em si, de uma vez por todas, os pecados do mundo.” (Memória e Reconciliação: A Igreja e as Culpas do Passado). Daí, devemos dizer que a Igreja precisa de purificação ou reforma. Purificação não porque seja pecadora, mas porque não possui santidade perfeita, mas é o que está buscando. Em resumo: apesar dela não ser impura em si, as impurezas de seus filhos afetam sua santidade. É por isso que Lumen Gentium tem completa razão quando diz que a Igreja possui uma santidade imperfeita (LG, 48). 


Também o Catecismo quando repete: “Já na terra a Igreja está ornada de verdadeira santidade, embora imperfeita." (§825). Ora, este é o mesmo Catecismo que cita: “A Igreja... é, aos olhos da fé, indefectivelmente santa.” [LG 39] (§822) E mais: “A Igreja é santa, mesmo tendo pecadores em seu seio, pois não possui outra vida senão a da graça” [SPF 19] (§827). Entre a Igreja ser Santa “sempre necessitando de purificação” ou reforma e ser pecadora há uma enorme diferença. Nas palavras do Papa Paulo VI Deus purifica o corpo de Cristo “dos defeitos de muitos dos seus membros e estimulando-o a novas virtudes." (Paulo VI, Ecclesiam suam, 22). 

 Na Relatio explica-se a decisão adotada, isto é, o uso da expressão supracitada, é também atendendo o pedido de vários Padres, e está inspirada no discurso de Paulo VI à cúria romana do dia 22 de Setembro de 1963 que diz: “daquela reforma perene de que a Igreja, enquanto instituição terrestre e humana, tem uma necessidade permanente” (Cfr. F. GIL HELLÍN (ed.), Concilii Vaticani II Synopsis. Constitutio Dogmatica De Ecclesia Lumen Gentium, Città del Vaticano 1995, pp. 66s. Link). 

A purificação toma aí o mesmo sentido de reforma. Como dizia o Papa Inocêncio III "pro universali Ecclesia reformanda" (Sermão VI, In Concilio Generali Lateranensi Habitus). 

Nada melhor que o próprio Paulo VI para explicar isso: 

“Se alguma sombra ou defeito ao compará-la com Ele aparecesse no rosto da Igreja ou sobre sua Veste Nupcial, o que deveria ela fazer como por instinto, com todo valor? Claramente: reformar-se, corrigir-se e esforçar-se para devolver a si mesma a conformidade com seu divino modelo que constitui seu dever fundamental. Recordemos as palavras do Senhor em sua oração sacerdotal ao aproximar-se sua iminente paixão: “Eu me santifico a mim mesmo para que eles sejam santificados na verdade (Jo. 17, 19). 

O Concílio Ecumênico Vaticano II deve colocar-se, a nosso parecer, nesta ordem essencial querida por Cristo (...) Sim, o Concílio tende a uma nova reforma. Porém atenção: não é que ao falar assim e expressar estes desejos reconheçamos que a Igreja católica de hoje pode ser acusada de infidelidade substancial ao pensamento de seu divino Fundador, mas sim o reconhecimento de sua profunda fidelidade substancial cheio de gratidão e humildade e lhe infunde o valor de corrigir-se das imperfeições que são
próprias da debilidade humana (...) Não é pois, a reforma que pretende o Concílio uma mudança radical da vida presente da Igreja ou uma ruptura da Tradição...” (Abertura da Segunda Etapa Conciliar, 29 de setembro de 1963 AAS55 (1963), 841-859) 

É neste sentido que o Concílio diz que a Igreja necessita de uma purificação permanente. Assim, Cristo se santificava por nós. Nem Cristo e nem a Igreja, por isso, tiveram, ou Ela ainda teria, algum pecado ou falta. 

A TRADIÇÃO 

Neste ítem passarei algumas passagens dos Pais da Igreja e de Santo Tomás que corroboram claramente com a ideia do Concílio. 

Santo Agostinho: 

“A Igreja no seu conjunto afirma: Perdoai-nos os nossos pecados! Ela, portanto, tem manchas e rugas. Mas, mediante a confissão as rugas são removidas, mediante a confissão as manchas são lavadas. A Igreja está em oração para ser purificada pela confissão, e enquanto os homens viverem na terra isto será assim” (Sermo 181,5,7: PL 38, 982.) 

“Mas longe de nós que qualquer um do nosso número deva chamar-se de tal maneira justo, ou que ele deva estabelecer sua própria justiça, como se lhe fosse conferido por si mesmo, enquanto que se diz a ele: "O que você tem que não tenha recebido?" (1 Coríntios 4,7) ou vangloriar-se como sendo sem pecado neste mundo, como os donatistas se declaram em nossa conferência que eram membros de uma Igreja que já não tem mancha nem ruga, nem coisa semelhante, (Efésios 5,27), mas sem saber que isto só se cumpre naqueles indivíduos que saem deste corpo imediatamente após o batismo, ou depois da remissão dos pecados, para quais fazemos petições em nossas orações, mas que para a Igreja, em seu conjunto, o tempo não virá em que será completamente sem mancha nem ruga, nem coisa semelhante, até o dia em que vamos escutar as palavras: " Onde está, ó morte, o seu aguilhão? Onde está, ó morte, a sua vitória? O aguilhão da morte é o pecado" (1 Coríntios 15, 55-56) 

39. Mas nesta vida, quando o corpo corruptível torna pesada a alma (Sabedoria 9,15), se sua Igreja já é de tal natureza que eles alegam, eles não proferir a Deus a oração que Nosso Senhor nos ensinou a empregar: "Perdoa-nos as nossas dívidas" (Mateus 6, 12). Se todos os pecados foram remidos no batismo, por que a Igreja fazer esta petição, se já, mesmo nesta vida, não tem nem mancha nem ruga, nem coisa semelhante? Eles também têm uma luta ao desprezar a advertência do Apóstolo João, quando ele grita em sua epístola: "Se dissermos que não temos pecado algum, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. 

Mas se confessamos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de todas a injustiça." (1 João 1, 8-9) Por conta dessa esperança a Igreja univrersal profere a petição, "Perdoa-nos as nossas dívidas", ao Ele ver que não somos vangloriosos, mas prontos a confessar os nossos pecados, Ele pode nos purificar de toda a injustiça, e que por isso o Senhor Jesus Cristo pode mostrar a si mesmo naquele dia uma Igreja gloriosa, sem mancha nem ruga, nem coisa semelhante,que agora Ele limpa com a lavagem de água pela palavra: porque, por um lado, não há nada que fica para trás no batismo para impedir o perdão de todos os pecados passados (tanto tempo, isto é, como o batismo não é recebido a efeito sem a Igreja, mas ou é administrado dentro da Igreja, ou, pelo menos, se foram já administrados sem, o destinatário não fica de fora com ele), e, por outro lado, qualquer que seja a poluição do pecado, de qualquer tipo, é contraido pela fraqueza da natureza humana por aqueles que vivem aqui depois do batismo, são purificados em virtude da eficácia da mesma pia. 

Por isto não é de qualquer proveito para alguém que não foi batizado dizer: "Perdoa-nos as nossas dívidas"." (EPISTLE CLXXXV, cap. 9) 

"Pelágio foi acusado de ter dito: "Que a Igreja aqui é sem mancha nem ruga". Foi neste ponto que os donatistas também estavam constantemente em conflito conosco em nossa conferência. Temos utilizado, em seu caso, de dar ênfase especial sobre a mistura de homens ruins com bons, como do joio com o trigo, e fomos levados a essa ideia a semelhança da eira. 


Podemos aplicar a mesma ilustração em resposta aos nossos adversários presentes, a não ser que de fato eles tenham a Igreja consistindo apenas de homens bons, que eles afirmam ser isentos de qualquer pecado, que assim a Igreja poderia ser sem mancha nem ruga. Se este é o seu significado, então repito as mesmas palavras que eu citei agora, pois como eles podem ser membros da Igreja, dos quais a voz de uma humildade sincera declara: "Se dissermos que não temos pecado, enganamos nós mesmos, e a verdade não está em nós"? ou como a Igreja poderia oferecer a oração que o Senhor a lhe ensinou a usar, "Perdoa-nos as nossas dívidas" se neste mundo a Igreja é, sem mancha ou defeito? 

Em suma, eles devem se submeter e ser estritamente catequizados a respeito: será que eles realmente aceitam que eles tenham quaisquer pecados próprios? Se sua resposta for negativa, então eles devem ser claramente informados de que eles estão enganando a si mesmos, e a verdade não está neles. Se, no entanto, deverem reconhecer que eles cometem pecados, o que é isso, se não uma confissão de suas próprias manchas e rugas? 

Eles, portanto, não são membros da Igreja, porque a Igreja é sem mancha e sem ruga, enquanto eles tem tantas manchas e rugas. Mas esta objeção ele respondeu com cuidado atento, como os juízes católicos sem dúvida aprovados. "Não tem", disse ele, "foi afirmado por mim, - mas em tal sentido que a Igreja é, pela pia limpa de toda mancha e rugas, e nesta pureza o Senhor quer que ela continue." Foi então que o sínodo disse: "É isto também que nós aprovamos." E quem entre nós nega que no batismo os pecados de todos os homens são remidos, e que todos os crentes ficam sem pecados e puros da pia da regeneração?

 Ou o cristão católico não pretende, como o seu Senhor também quer, e como Ele tem feito para ser, que a Igreja deva permanecer sempre sem mancha nem ruga? Pois Deus de fato na Sua misericórdia e verdade, fazendo para sua santa Igreja realizar-se a este estado perfeito em que ela deve permanecer sem mancha nem ruga, para sempre. 

Mas entre a pia, onde todas as manchas do passado e deformidades são removidas, e o reino, onde a Igreja permanecerá para sempre sem qualquer mácula, nem ruga, há o tempo presente intermediário de oração, durante o qual o seu grito de necessidade deve ser: "Perdoa-nos as nossas dívidas." Daí surgiu a objeção contra eles por dizer que "a Igreja aqui na terra é sem mancha nem ruga" (Sobre o processo de Pelágio, cap. 27 e 28) 


“Em que, de fato, no louvor dos santos, eles não vão nos levar com o zelo do que o publicano à fome e sede de justiça, mas com a vaidade dos fariseus, por assim dizer, a transbordar com suficiência e plenitude, o que serve-lhes que, em oposição aos maniqueus, que querem acabar com batismo, dizem "que os homens são perfeitamente renovados pelo batismo", e aplicam o testemunho do apóstolo para isso, - "que testemunha que, por meio da lavagem de água, a Igreja é feita santa e imaculada entre os gentios"-, quando, com um significado orgulhoso e perverso, que apresentam os seus argumentos em oposição às orações da Igreja a si mesma. 

Pois eles dizem isto com o fim de que a Igreja pode acreditar que após santo batismo, em que é realizado o perdão de todos os pecados para que não tenhamos pecados mais, quando, em oposição a eles, desde o nascimento do sol até o seu pôr, em todos seus membros que clama a Deus: "Perdoa-nos nossas dívidas." Porém, se se interrogam sobre essa matéria, não encontram o que responder. Porque se dissermos que não temos pecados, João responde-lhes, que eles se enganam, e que a verdade não está neles. 

Mas se confessarem seus pecados, já que desejam ser membros do corpo de Cristo, como será que o corpo, isto é, a Igreja, É ainda neste tempo perfeitamente, como eles pensam, sem mancha nem ruga, se seus membros sem falsidade confessam ter pecados? Portanto, no batismo todos os pecados são perdoados, e, por isso a lavagem de água pela palavra, a Igreja é apresentada em Cristo, sem mancha, ou ao menos se já não fossem batizados, seria em vão dizer: "Perdoa-nos as nossas dívidas", até que ser trazida para a glória, quando nela não haverá absolutamente nenhuma mancha nem ruga." (Contra duas cartas dos Pelagianos (Livro IV)


São Jerônimo: 


"Por isso o Apóstolo, falando de nosso Senhor, diz que, no fim do mundo, quando todas as virtudes devem receber sua consumação, Ele vai apresentar sua santa Igreja a Si mesmo sem mancha nem ruga, e ainda assim você acha que a Igreja perfeita, enquanto ainda na carne, que está sujeito à morte e decadência. "(Diálogos contra Pelagianos, Livro III, 13) 


Papa Leão I: 


"Alegramo-nos com o Senhor e na glória do dom da Sua graça, que Tem nos mostrado um seguidor do Evangelho, que temos identificado apartir de sua carta, amada, e por conta dos nossos irmãos que nós enviamos a Constantinopla: Por agora através da fé do sacerdote aprovado, estamos justificando ao supor que toda a igreja comprometida com ele não terá nenhuma ruga nem mancha de erro, como diz o Apóstolo, "porque vos desposei com um esposo único para vos apresentar como virgem pura a Cristo."" (Carta LXXX (Ao Anatolius, Bispo de Constantinopla) 


Santo Tomás:


"Ainda mais: o Apóstolo disse em Ef. 5, 25-27 que Cristo se entregou pela Igreja, para apresentá-la a si mesmo gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante. Mas há muitos, mesmo fiéis, no quais se encontra a mancha ou a ruga do pecado(...) 

A segunda deve-se dizer: A Igreja gloriosa, sem mancha nem ruga, é o último fim ao que somos conduzidos pela paixão de Cristo. Por isso isto será realidade na patria celestial, mas não nesta vida, durante a qual, se dissermos que não temos pecados, enganamos a nós mesmos, como se escreve em 1 Jo 1,8. (Summa Theol., III, q. 8, a. 3, ad 2) 

CONCLUSÃO
Constatamos que as palavras da Lumen Gentium vão a encontro à razão e Tradição. Não contraria o dogma, pelo contrário, desenvolve-o. Resumindo com Santo Tomás poderíamos dizer: “Ele apresenta a Si Próprio a Igreja num estado Imaculado, já aqui pela graça e no futuro pela glória.” (Ad Ephesios, V, 27) 

Finalizo com o renomado teólogo Michael Schmaus: 

“A comunidade enquanto tal não é, pois, capaz de uma decisão pecaminosa. Só os membros da Igreja podem ser pecadores. Como sem dúvida pecam enquanto membros da Igreja, como não se pode abstrair o fato de que pertencem à Igreja, a santidade da Igreja mesma se obscurece por seus pecados. Como, segundo as palavras de São João, todos os batizados, apesar de sua comunhão com Cristo (no caso em que não lhes seja concedida uma graça divina especial), cometem pecados, todos contribuem a desfigurar a santidade da Igreja. E como os indivíduos se reúnem em um “nós” nele tem boa razão o dizer “Padre nosso”: perdoa-nos nossas dívidas (Mt. 6, 12). 

Contudo, enquanto a santidade da Igreja seja obscurecida pelos pecados de seus filhos, irrompe continuamente com luminoso esplendor e através da treva no amor pronto o sacrifício de seus membros. E assim é certo que a santidade perfeita é um bem futuro, mas a imperfeita é um bem presente e atual. Quando a Igreja diz que alguns de seus filhos, que viveram santamente dentro da história e agora estão na plenitude (canonização), não se trata de palavras vazias, mas de uma fiel reflexão da realidade (vol. I, § 11). 

Não obstante, a Igreja olha ansiando a hora em que pertencerá a seu Senhor sem reservas como Esposa (Apoc. 22, 10-17). Então se cumprirão as palavras de Eph. 5, 26-27, que em pleno sentido devem ser escatologicamente entendidas, da qual a Igreja será sem mancha e sem ruga, santa e imaculada. Até que rompa essa hora, manifesta-se como a santa Igreja de Cristo em seus mártires, que jamais tem faltado e se mantiveram firmes em seu amor a Cristo até a morte, em suas virgens, que sacrifica o terreno no fogo do amor celestial, e em todo o que ama a Deus e serve ao próximo.” (Teologia Dogmática, IV A Igreja, p. 609, Madrid, 1960) 

PARA CITAR ESTE ARTIGO:


Os erros da Hermenêutica da Ruptura [6]. Nelson Monteiro S. Silva, setembro de 2012, blogue Tradição em Foco com Roma.



CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:

nelson.sarmento@gmail.com

 

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