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Papa Leão XIII dá o tiro de misericórdia nos tradôs independentes sem Roma nem FSSPX


Prezados amigos e caros leitores 

A Igreja Católica ensina a infalibilidade dos Concílios como sendo a infalibilidade de todo o colégio dos sucessores dos Apóstolos, encabeçados pelo Papa. Querer colocar a validade das decisões de um Concílio numa suposta conformidade com a Bíblia ou com a Tradição é justamente eliminar o Magistério como regra próxima da Fé. Um Magistério torna-se completamente supérfluo, e não há necessidade alguma de Concílios. Isso é o protestantismo. Aliás, tal concepção cairia como uma luva para os protestantes históricos, quando admitem a validade dos cinco primeiros concílios ecumênicos.

Os tradôs independentes - sendo eles leigos desligados da FSSPX e membros de comunidades amigas - criaram uma tese imaginária de que leigos "da Tradição" tem autoridade para confiscar cada palavra da boca do Romano Pontífice para ver se encontram erros de doutrina. Esta tese não é católica. Ela é incompatível com as definições da Igreja. Além disso, inconsistente, porque seria o mesmo que negar a infalibilidade da Igreja. E, ou a Igreja é a autoridade de Cristo na Terra ou perde completamente a sua função e necessidade. Tal tese é totalmente protestantizante. 

A infalibilidade não é um "absolutismo" do Papa, é um ministério, um carisma. Dizer que o Papa pode definir algo contra a Bíblia e a Tradição é tão nonsense quanto dizer que Deus não pode criar uma pedra que não possa carregar. E é exatamente a postura fixa deles e mecânica deles, que resumem a fé católica em um eterno debate sobre Vaticano II e Novus Ordo. O Papa Leão XIII, de veneranda memória, já orientava sobre esse tipo de comportamento na carta ao Cardeal Guibert:


Carta do Papa Leão XIII ao Cardeal Guibert.

Caro Filho, saudação e bênção apostólica.

Vossa carta, repleta de sentimentos do mais filial acatamento e da mais sincera devoção para com Nossa pessoa, proporcionou um doce conforto a Nossa alma, contristada por uma recente e grave amargura.

Compreendeis que nada poderá ser para Nós mais profundamente penoso do que ver turvado entre os católicos o espírito de concórdia, a ver abalado esse tranquilo repouso, esse abandono cheio de confiança e de submissão, que é próprio aos filhos, pela paternal autoridade que os governa. Assim, à simples manifestação que se faz de algum sintoma desse gênero, não podemos deixar de ficar grandemente tocados e procurar prevenir o perigo imediatamente. 

Eis porque a publicação recente de um escrito, vindo de onde menos se poderia esperar e que Vós deplorais, o ruído que em torno dele se fez, e os comentários a que deu lugar, Nos aconselham a não Nos calarmos sobre essa questão que, por ser ingrata, não deixa de ser oportuna, quer seja na França, quer seja em outro lugar.
    
Por certos índices que se observa, não é difícil constatar que, entre os católicos, certamente em razão da infirmeza do tempo, existem os que, pouco contentes com sua situação de súditos que têm na Igreja, crêem poder ter alguma parte em seu governo ou pelo menos imaginam que lhes é permitido examinar e julgar á sua maneira os atos da autoridade. Se isto prevalecesse, seria um grande dano na Igreja de Deus, na qual, pela vontade manifesta de seu divino Fundador, distingue-se no seu pessoal os que são ensinados e os que ensinam, o rebanho e os pastores, entre os quais um é o chefe e o pastor supremo de todos.

Apenas aos pastores foi dado poder de ensinar, de julgar, de corrigir, aos fiéis foi imposto o dever de seguir os ensinamentos, de submeter-se com docilidade ao julgamento e de deixar-se governar, corrigir, conduzir à salvação. Assim é absolutamente necessário que os simples fiéis se submetam de espírito e de coração a seus próprios pastores, e esses com eles ao Chefe e Pastor supremo; é nesta subordinação e dependência que gira a ordem e a vida da Igreja; é nela que se funda a condição indispensável do bem fazer e tudo levar a bom porto. Ao contrário, se ocorre que os simples fiéis se atribuem autoridade, se eles a pretendem como juízes e senhores; se os subordinados, no governo da Igreja universal, preferem ou tentam fazer prevalecer uma diretriz diversa daquela traçada pela autoridade suprema, é uma subversão da ordem; leva-se dessa forma a confusão a muitos espíritos, e sae-se do caminho.

E não é necessário, para faltar a um dever tão santo, fazer ato de oposição manifesta, seja aos bispos, seja ao chefe da igreja, é bastante que tal oposição se faça por meios indiretos, tão mais perigosos quanto mais ocorre a preocupação de escondê-los por aparências contrárias. Desta forma, falta-se a esse dever sagrado desde que, ao mesmo tempo que se manifesta zelo pelo poder e as prerrogativas do Supremo Pontífice, não se respeitam os bispos que a ele estão unidos, não se tem em conta suficiente a sua autoridade, e se interpretam lamentavelmente seus atos e suas intenções sem aguardar o julgamento da Sé ápostólica.

Da mesma forma, é prova de uma submissão pouco sincera, estabelecer uma como que oposição entre um Pontífice e outro. Aqueles que, entre duas direções diversas, repudiam o presente para prender-se ao passado, não dão prova de obediência à autoridade que tem o direito e o deverde guiá-los: e sob um certo aspecto se assemelham aos que, condenados, quisessem apelar ao Concílio futuro ou a um Papa melhor informado.

Sob esse aspecto, o que é necessário fixar é que no governo da Igreja, salvo os deveres essenciais impostos a todos os Pontífices por seu cargo apostólico, cada um deles pode adotar a atitude que julgar a melhor, segundo os tempos e outras circunstâncias. Disto é ele o único juiz; considerando que para isso ele tem não somente luzes especiais, mas ainda o conhecimento de condições e necessidades de toda a catolicidade a que convém que condescenda sua previdência apostólica. É ele quem deve obter o benefício da Igreja universal, coordenada para o bem de suas diversas partes e todos os outros que são submetidos a esta ordem devem secundar a ação de um diretor supremo e servir ao fim que ele quer atingir. Como a Igreja é uma e um o seu chefe, assim é uno o governo a que todos devem conformar-se.

Pelo olvido desses princípios, ocorre ver-se diminuir entre os católicos o respeito, a veneração e a confiança para com aqueles que lhes foi dado por guia, e vê-se afrouxar essa ligação de amor e de submissão que deve conduzir todos os fiéis a seus pastores, os fiéis e os pastores ao Pastor supremo, liame em que reside principalmente a segurança e a salvação comum.

Assim também, pelo esquecimento ou por negligência desses mesmos princípios, a via mais larga fica aberta às divisões e às dissenções entre católicos, em detrimento grave de sua união, que é a marca distinta dos fiéis de Jesus Cristo, e que, de todos os tempos, porém mais particularmente hoje, em razão do poder de coalisão de todos os inimigos, deveria ser o interesse supremo e universal, ante o qual conviria fazer calar todo sentimento de satisfação pessoal ou de vantagem particular.
   
Esse dever, se imcumbe geralmente a todos, imcumbe de maneira mais rigorosa aos jornalistas que, se não estiverem animados desse espírito de docilidade e de submissão, tão necessário a todo católico, contribuiriam a difundir e agravar o inconveniente que deploramos. O papel que lhe cabe é, em tudo o que toca aos interesses religiosos e à ação da Igreja na sociedade, de se submeter plenamente, de inteligência e vontade, como todos os outros fiéis, a seus próprios bispos e ao Soberano Pontífice; de segui-los e reporduzir seus ensinamentos; de seguir-lhe a diretriz com inteira boa vontade; de respeitá-lo e fazer respeitar suas decisões. 

Quem fizer de outra forma, em vista de servir às intenções e os interesses dos que Nós, nessa carta, repudiamos o espírito e as tendências, faltará em sua nobre missão; e em vão se iludirá ao crer que ele serve assim ao bem da causa da Igreja, não menos que aquele que procurasse enfraquecer ou dividir a fé católica ou que disso se fizesse muito timidamente amigo.
   
O que nos inclinou a discorrer convosco sobre essas coisas, Nosso caro filho, é, além da oportunidade que tenham na França, o conhecimento que Nós temos de vossos sentimentos e a maneira com que soubestes conduzir-vos mesmo nos momentos e condições mais difíceis. Sempre firme e corajoso na defesa dos interesses religiosos e dos direitos sagrados da Igreja, vós as tendes, ainda em recente ocasião, virilmente sustentado, defendo-os publicamente com vossa palavra luminosa e potente. Mas, à firmeza, tendes sempre juntado esta maneira serena e tranquila, digna dea nobre causa que defendeis; tendes mostrado constantemente um espírito livre de paixão, plenamente submisso às decisões da Sé apostólica e inteiramente devotado à Nossa pessoa.

Eis porque Nos é agradável poder dar-vos um novo testemunho de Nossa satisfação e de Nossa muito particular benevolência. Aflige-nos apenas saber que vossa saúde não se encontra como Nós ardentemente desejamos que esteja.
   
Fazemos fervorosos votos e contínuas preces ao céu para que ela se torne boa e que a conserveis longamente. E em preito dos divinos favores, que pedimos abundantemente para vós, Nós vos damos, do mais fundo do coração, Nossa bênção apostólica a Vós, Nosso caro filho, a todo o vosso clero e a todo vosso povo.

Dado em Roma, em São pedro, a 17 de junho de 1885, oitavo ano de Nosso Pontificado.

- Leão XIII, Papa (in Lettres Apostoliques ou Encycliques, brefs, &. de S. S. Lèon XIII - Paris, Tome 7 pags. 63/67)  

Temos exemplo dessas reinterpretações do magistério, a todo tempo na história da Igreja Católica, que não são anulações das decisões anteriores, mas explicitações, desenvolvimentos legítimos por parte do próprio magistério, Um exemplo é o dogma de "Fora da Igreja não há salvação". Essa frase, como é óbvio, não exprime, como não exprimia, desde a era patrística, todo conteúdo dessa doutrina, e pode até mesmo produzir equívocos a quem se prende à letra da mesma. Outro exemplo são os ensinos infalíveis dos Papas Pio IX na Quanta Cura e S. Pio X na Pascendi e no Decreto Lamentabili e a interpretação dada pelo Concílio Vaticano II. 

A infalibilidade de um concílio ecumênico e a infalibilidade dos bispos (ou da Igreja docente) são a mesma coisa. A diferença entre magistério extraordinário episcopal (reunião dos bispos num concílio ecumênico definindo doutrina) e magistério ordinário universal (os bispos ensinando dispersos a mesma doutrina como de fé, debaixo da autoridade do Pontífice Romano) é apenas acidental. Os testemunhos abaixo deixam bem claro que os bispos são infalíveis quando ensinam unanimemente dessa forma:

San Ignacio Mártir, Efesios 3,2: "Me he anticipado para avisaros a que os unáis en la sentencia de Dios. En efecto, Jesucristo, nuestra vida inseparable, es la sentencia del Padre, así como los Obispos, constituidos por las regiones de la tierra, están en la sentencia de Jesucristo. De donde es menester que vosotros os unáis a la sentencia del Obispo, como así lo hacéis".

San Ireneo enseña: a) Que el mutuo acuerdo de los Obispos es el criterio supremo de la verdad revelada (R 242);-b) Y que el mutuo acuerdo de los Obispos necesariamente está en armonía con la sentencia del Romano Pontífice (R 209-210).

Tertuliano sostiene: a) Que el criterio de la verdad revelada es la sentencia en armonía de los Obispos (R 293 295); b) Y que la Iglesia Romana custodia "la doctrina toda entera" de los Apóstoles (R 297).


Em suma, testemunhos que falam da "infalibilidade da Igreja" nada mais estão dizendo senão da infalibilidade dos bispos (cuja diferença se estão reunidos em concílio ou dispersos em suas dioceses é apenas acidental). Os bispos compõem a Igreja docente, a Igreja que ensina. Os leigos não ensinam nada. Sua infalibilidade é meramente passiva e receptiva. 

UPDATE:

* " É ele quem deve obter o benefício da Igreja universal, coordenada para o bem de suas diversas partes. " C'est lui qui doit procurer le bien de l'Eglise universelle, auquel se coordonne le bien de ses diverses parties, no original. Correção fraterna feita pelo confrade Jorge Ferraz da página Deus lo Vult 

PARA CITAR ESTE ARTIGO:

Papa Leão XIII dá o tiro de misericórdia nos tradôs independentes sem Roma nem FSSPX. Nelson Monteiro S. Silva e David A. Conceição setembro de 2012, blogue Tradição em Foco com Roma.



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nelson.sarmento@gmail.com

 

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