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A Igreja Ortodoxa e o culto a seus Santos



São dioceses orientais (da Igreja Oriental e da parte da Igreja que ocupava o território do Império Romano do Oriente) que se separaram, em 1054, da Sé de Roma, alegando que o primado petrino era uma invenção, além de uma série de outras coisas. Por conta disso, embora conservando uma válida Sucessão Apostólica, o que lhes possibilitou celebrar validamente os sacramentos, e também mantendo boa parte de nossa doutrina, esses auto-proclamados ortodoxos, não estão em comunhão com a Igreja de Cristo. Não são católicos, mas cismáticos.
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Eles se chamam ortodoxos exatamente por se julgarem possuidores da verdadeira doutrina. Daí que, para eles, é a Igreja Ortodoxa que é a verdadeira Igreja Católica. Nós é que somos cismáticos para eles. A Igreja una, santa, católica e apostólica seria a deles. Os ortodoxos é que, na visão deles, são os legítimos católicos.    

Por conta da separação, eles não possuem a doutrina que legitimamente se desenvolveu entre nós após a ruptura, e por isso há divergências dogmáticas entre nós. Além disso, a própria separação se deu por questionamentos da parte deles em relação a doutrinas que, embora sempre cridas, não eram, digamos assim, convenientes para eles.

Assim como eles se acham os verdadeiros católicos, precisamos ter em conta que nós, católicos, é que somos os legítimos ortodoxos, dado que nós é que possuímos a verdadeira doutrina. A verdadeira ortodoxia está com o Papa, não com os que se chamam a si mesmos, erroneamente, de 
ortodoxos.
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São Nectários de Aegina

Não devemos confundir os ortodoxos com aqueles orientais que, embora mantendo seus costumes disciplinares (ordenação sacerdotal de varões casados, autonomia patriarcal, etc) e litúrgicos (ritos próprios, com normas e celebrações específicas), permaneceram católicos fiéis ao Papa, ou que, embora nascidos no cisma, voltaram a Roma.

Há orientais de rito bizantino, por exemplo, da Igreja Ortodoxa e também da Igreja Católica.

Eles se acham a Igreja Católica. Daí que, como quem está em cisma somos nós, na visão deles, continuaram canonizando santos. Os santos deles canonizados antes do cisma são realmente santos comuns a nós, e, portanto, santos católicos. Mas eles continuaram canonizando santos (quer pessoas que viveram antes do cisma, mas não eram canonizadas, quer pessoas da Igreja Ortodoxa que viveram depois).

Quanto aos santos orientais canonizados antes do cisma, não há dificuldade. São santos católicos.

Mas e o santos (orientais e ocidentais) de antes do cisma, mas só canonizados por eles depois? E os santos (orientais) posteriores ao cisma que foram por eles canonizados?

A princípio, eles não são santos canonizados validamente, uma vez que seus Bispos e Patriarcas não canonizam validamente, e também porque, embora subjetivamente possam ter tido vida de santidade, não devem ser imitados, a priori, cismáticos que estavam fora da Igreja. Nem a eles, em tese, deveríamos prestar culto público.

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São Nicetas o Godo

Ocorre que, quando alguns orientais voltaram a Roma, o Papa autorizou o culto de certos santos populares entre eles. São Gregório Palamas, São Serafim de Sarov. E, inclusive, os inscreveu nos calendários litúrgicos católicos orientais. Ora, como pode a Igreja Católica reconhecer que um cismático, que um oriental que viveu depois do cisma e não era católico, é santo? Aí é que está. A Igreja Católica NÃO canonizou esses ortodoxos. Apenas autorizou seu culto, o que não implica infalibilidade. Ou seja, mesmo que Gregorio Palamas e Serafim de Sarov sejam chamados, por costume, de santos (São Gregório, São Serafim), e assim os calendários dos bizantinos CATÓLICOS a eles se refiram, eles são, na verdade, BEATOS para nós. E essa beatificação não foi por processo ordinário, mas por eqüipolência, i.e., por reconhecimento de culto já prestado.

Parece óbvio que a Igreja não canonizaria (nem por eqüipolência) um cismático. Mas autorizar seu culto (beatificar), é possível, ainda mais por eqüipolência.

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Os santos católicos que viveram após o cisma não são venerados oficialmente pela Igreja Ortodoxa. Nem São Francisco ou Santa Teresinha. Podem ser venerados por pessoas e grupos, mas não é nada oficial. Por Rafael Vitola Brodbeck
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Os quadros são de origem oriental, mas não necessariamente ortodoxa. Lembra-te de que houve um tempo em que o Oriente esteve ligado e submisso ao Papa.

Sobre os santos ortodoxos, é interessante lembrar também que, até 1448, não havia nenhum documento público que declarasse a Igreja Russa separada da Sé Apostólica (Carta Apostólica Sacro vergente anno: Aos povos da Rússia: sua consagração ao Coração Imaculado de Maria, de Pio XII, 7). Por isso, não se pode dizer que São Sérgio de Radonezh fosse cismático.

Já com respeito a Gregório Palamás, ele fazia parte da hierarquia de uma Igreja cismática: era arcebispo de Tessalônica.

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Igrejas Ortodoxas e o Juízo Particular
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Juízo particular: a Igreja Ortodoxa não aceita o Juízo particular imediatamente após a morte, como ensina a Igreja Católica, admitindo somente o Juízo Universal; conseqüentemente, a Igreja Ortodoxa não admite a existência do purgatório nem do limbo, bem como não aceita as indulgências.

http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cartas&subsecao=apologetica&artigo=20040729215311&lang=bra

Aí estariam negando não só o purgatório, mas também o Céu, o Inferno, o consciência da alma pós-morte, a intercessão dos santos e da Virgem Maria... A veneração de imagens também não teriam sentido... logo eles que são tão apegados aos ícones.

Essa afirmação meio difícil de assimilar, pois seria uma ruptura muito grande com a Igreja.

Além do mais, a Igreja sempre creu nesses pontos e não teria sentido as Igreja Ortodoxas negarem, uma vez que não negam os artigos de fé antigos, inclusive a Comunhão dos Santos, que está no Credo.

As diferenças entre a Igreja Ortodoxa e a Igreja Romana:

http://p035454545.planetaclix.pt/bartholomeo.html

A diferença fundamental é a questão da infalibilidade papal e a pretensa supremacia universal da jurisdição de Roma, que a Igreja Ortodoxa não admite, pois ferem frontalmente a Sagrada Escritura e a Santa Tradição.

Existem, ainda, outras distinções, abaixo relacionadas em dois grupos básicos:

a) diferenças gerais; e

b) diferenças especiais.

Para termos uma ideia dessas diferenças, vejamos o seguinte esquema, de cuja leitura se infere uma possibilidade de superação, quando pairar acima das paixões o espírito de fraternidade que anima o trabalho dos verdadeiros cristãos.

Diferenças Gerais:

São dogmáticas, litúrgicas e disciplinares.

- A Igreja Ortodoxa só admite sete Concílios, enquanto a Romana adota vinte.

- A Igreja Ortodoxa discorda da procedência do Espírito Santo do Pai e do Filho; unicamente do Pai é que admite.

- A Sagrada Escritura e a Santa Tradição representam o mesmo valor como fonte de Revelação, segundo a Igreja Ortodoxa. A Romana, no entanto, considera a Tradição mais importante que a Sagrada Escritura.

- A consagração do pão e do vinho, durante a missa, no Corpo e no Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, efetua-se pelo Prefácio, Palavra do Senhor e Epíclese, e não pelas expressões proferidas por Cristo na Última Ceia, como ensina a Igreja Romana.

- Em nenhuma circunstância, a Igreja Ortodoxa admite a infalibilidade do Bispo de Roma. Considera a infalibilidade uma prerrogativa de toda a Igreja e não de uma só pessoa.

- A Igreja Ortodoxa entende que as decisões de um Concílio Ecumênico são superiores às decisões do Papa de Roma ou de quaisquer hierarcas eclesiásticos.

- A Igreja Ortodoxa não concorda com a supremacia universal do direito do Bispo de Roma sobre toda a Igreja Cristã, pois considera todos os bispos iguais. Somente reconhece uma primazia de honra ou uma supremacia de facto (primus inter pares).

- A Virgem Maria, igual às demais criaturas, foi concebida em estado de pecado original. A Igreja Romana, por definição do papa Pio IX, no ano de 1854, proclamou como 
dogma de fé a Imaculada Concepção. 

- A Igreja Ortodoxa rejeita a agregação do 
Filioque, aprovado pela Igreja de Roma, no Símbolo Niceno-Constantinopolitano. 

- A Igreja Ortodoxa nega a existência do limbo e do purgatório.

- A Igreja Ortodoxa não admite a existência de um Juízo Particular para apreciar o destino das almas, logo após a morte, mas um só Juízo Universal.

- O Sacramento da Santa Unção pode ser ministrado várias vezes aos fiéis em caso de enfermidade corporal ou espiritual, e não somente nos momentos de agonia ou perigo de morte, como é praticado na Igreja Romana.

- Na Igreja Ortodoxa, o ministro habitual do Sacramento do Crisma é o Padre; na Igreja Romana, o Bispo, e só extraordinariamente, o Padre.

- A Igreja Ortodoxa não admite a existência de indulgências.

- No Sacramento do Matrimônio, o Ministro é o Padre e não os contraentes.

- Em casos excepcionais, ou por graves razões, a Igreja Ortodoxa acolhe a solução do divórcio admitindo um segundo ou terceiro casamento penitencial.

- São distintas as concepções teológicas sobre religião, Igreja, Encarnação, Graça, imagens, escatologia, Sacramentos, culto dos Santos, infalibilidade, Estado religioso...

Diferenças especiais:

Além disso, subsistem algumas diferenças disciplinares ou litúrgicas que não transferem dogma à doutrina. São, nomeadamente, as seguintes:

1- Nos templos da Igreja Ortodoxa só se permitem ícones.

2- Os sacerdotes ortodoxos podem optar livremente entre o celibato e o casamento.

3- O batismo é por imersão.

4- No Sacrifício Eucarístico, na Igreja Ortodoxa, usa-se pão com levedura; na Romana, sem levedura.

5- Os calendários ortodoxo e romano são diferentes, especialmente, quanto à Páscoa da Ressurreição.

6- A comunhão dos fiéis é efetuada com pão e vinho; na Romana, somente com pão.

7- Na Igreja Ortodoxa, não existem as devoções ao Sagrado Coração de Jesus, Corpus Christi, Via Crucis, Rosário, Cristo-Rei, Imaculado Coração de Maria e outras comemorações análogas.

8- O processo da canonização de um santo é diferente na Igreja Ortodoxa; nele, a maior parte do povo participa no reconhecimento do seu estado de santidade.

9- Existem, três ordens menores na Igreja Ortodoxa: leitor, acólito e sub-diácono; na Romana : ostiário, leitor e acólito.

10- O Santo Mirão e a Comunhão na Igreja Ortodoxa efetuam-se imediatamente após o Batismo.

11- Na fórmula da absolvição dos pecados no Sacramento da Confissão, o sacerdote ortodoxo absolve não em seu próprio nome, mas em nome de Deus - 
Deus te absolve de teus pecados; na Romana, o sacerdote absolve em seu próprio nome, como representante de Deus - Ego absolvo a peccatis tuis... 

12- A Ortodoxia não admite o poder temporal da Igreja; na Romana, é um dogma de fé tal doutrina. 
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Os Dez Mandamentos

A Santa Igreja Católica Apostólica Ortodoxa conservou os dez mandamentos da Lei de Deus na sua forma original, sem a menor alteração. O mesmo não sucedeu com o texto adotado pela Igreja Católica Apostólica Romana, no qual os dez mandamentos foram arbitrariamente alterados, tendo sido totalmente eliminado o segundo mandamento e o último dividido em duas partes, formando dois mandamentos distintos. Esta alteração da Verdade constitui um dos maiores erros teológicos desde que a Igreja Romana cindiu a união da Santa Igreja Ortodoxa no século XI. Esta modificação nos dez mandamentos, introduzidos pelos papas romanos, foi motivada pelo Renascimento das artes. Os célebres escultores daquela época tiveram um amplo leque de atividades artísticas, originando obras de grande valor. Não obstante, as esculturas representando Deus, a Santíssima Virgem Maria, os santos e os anjos estavam em completo desacordo com o segundo mandamento de Deus. Havia, pois, duas alternativas, ou impedir a criação de estátuas ou suprimir o segundo mandamento. Os papas escolheram esta última solução, caindo em grave erro.

O texto abaixo foi retirado do livro 
Igreja Ortodoxa do bispo Kallistos Ware:

O Inferno existe como uma possibilidade final, mas vários dos Padres acreditaram não menos de que no fim tudo será reconciliado com Deus. É herético dizer que todos deverão ser salvos, pois isso é negar o livre arbítrio; mas é legitimo esperar que todos possam ser salvos. Até que o último dia venha, não devemos nos desesperançar da salvação de ninguém, mas devemos aguardar e orar pela reconciliação de todos sem exceção. Ninguém deve ser excluído de nossa intercessão amorosa. O que é um coração misericordioso? perguntou São Isaac, o Sírio. É um coração que arde com amor por toda a criação, pelos homens, pelos pássaros, pelas bestas, pelos demônios, por todas as criaturas (Mystic Treatises, editado por A J. Wensinck, Amsterdam, 1823, pg.341). Gregório de Nissa disse que os Cristãos podem legitimamente ter esperança na salvação mesmo do Diabo.

 http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/orthodoxy_timothy_ware_p.htm

A Igreja Ortodoxa ensina, portanto, que uma pessoa pode ser salva antes do juízo, mesmo estando no Inferno.

Sobre juízo final:


Primeiro, a deificação não é algo para alguns selecionados, mas para todos sem diferenciação. A Igreja Ortodoxa acredita que ela (a deificação) é o propósito comum de todo Cristão, sem exceção. Nós, é claro, apenas seremos deificados por completo no dia do Juízo Final; mas para cada um de nós, o processo de divinização deve começar aqui e agora, nesta vida. É verdade que aqui poucos atingem total união mística com Deus, mas cada verdadeiro cristão tenta amar a Deus e realizar todos os Seus mandamentos e quando o faz com sinceridade, não importa se fracas as tentativas ou freqüentes as tentações, ele já estará de alguma forma deificado.

A respeito do diálogo com os ortodoxos, é necessário que se esclareça que é com uma parcela dos ortodoxos. Houve um famoso encontro entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras. Todavia, os ecumenistas tendem a relativizar as diferenças.

Já se os ortodoxos podem comungar no catolicismo, eu penso que, estando eles em cisma, seria o mesmo que comungassem em pecado, a não ser que o cisma seja inconsciente, nesse caso, faltaria a intenção, e eles, não estando em cisma por vontade própria, não estariam em pecado.

Mas os ortodoxos geralmente não aceitam a validade das ordens na Igreja Católica, sequer o batismo, a não ser por economia, tipo quando um católico se 
converte à ortodoxia. Sendo assim, um ortodoxo tradicional jamais comungaria numa igreja católica.

Já os católicos podem comungar numa igreja ortodoxa, em razão de grave necessidade, pois os sacramentos deles são válidos, porém ilícitos.

Na verdade, o autor do texto ortodoxo que fala sobre as diferenças ignora que a Igreja Católica tem vários ritos. Algumas diferenças que ele elenca, como a obrigação de cantar o 
filioque, são próprias do rito romano, mas não são próprias de outros ritos legitimamente católicos.
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PARA CITAR ESTE ARTIGO:
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A Igreja Ortodoxa e o culto a seus Santos

David A. Conceição 10/2012 Tradição em Foco com Roma.


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CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS: 

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