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A compreensão do silêncio de Deus

Todo cristão tem essa sensação de que o Senhor parece distante quando precisamos de uma graça com urgência e não há sinais de que nossas orações foram ouvidas. O protestante James Long, escritor do livro cuja capa é o folder desse artigo, dá a seguinte interpretação para o fato:

Quando, por qualquer razão a voz de Deus não parece clara, podemos encobrir o silêncio e preencher os espaços vazios para Ele ou podemos prestar atenção cuidadosamente para o que Ele possa estar tentando nos ENSINAR através do SILÊNCIO.”

Para a compreensão verdadeira católica, a não intervenção divina só vem realçar a liberdade humana; e quão grandiosa e bondosa é a Suprema Majestade a qual deixa ao homem o encargo de aderir à Verdade e não lhe opõe força quando opta por caminhos tortuosos.

No entanto, não podemos valorizar a liberdade humana em detrimento da onicausalidade divina.

Deus é quem produz todo agir das criaturas. Ninguém pode levantar um braço sem que Deus o faça atuar. Diz o Catecismo:

308) Eis uma verdade inseparável da fé em Deus Criador: Deus age em todo o agir de suas criaturas. E é a causa primeira que opera nas causas segundas e por meio delas: "Pois é Deus quem opera em vós o querer e o operar, segundo a sua vontade" (Fl 2,13). Longe de diminuir a dignidade da criatura, esta verdade a realça. Tirada do nada pelo poder, sabedoria, bondade de Deus, a criatura não pode nada se for cortada de sua origem, pois "a criatura sem o Criador se esvai"; muito menos pode atingir seu fim último sem a ajuda da graça.

A disputa entre os teólogos é se a vontade do homem também é determinada pela ação divina. Para os tomistas, Deus é quem dá o impulso da vontade para o bem, e quando Deus não dá esse impulso, a vontade não se determina ao bem. Já os molinistas ensinam que o homem determina a si próprio a sua vontade, sendo que o agir de Deus acompanha a sua decisão, proporcionando-lhe os meios com que atua.

Esse auxílio divino em todas as nossas ações chama-se concurso divino. O chamado concurso divino natural distingue-se da graça, que é auxílio sobrenatural. 

O pecado, enquanto atuação das potências sensitivas e espirituais de uma criatura, possui ser e é, portanto, algo bom. Deus concorre também no ato físico do pecado (“actio peccati”, “entitas peccato”), isto é, no que ele tem de ser. Esse bem físico é idêntico ao ser, e o mal físico é a privatio boni, privação do bem.

A falta moral inerente ao ato físico do pecado (“malitia peccati”), não pode ser atribuída a Deus, e é toda de responsabilidade da criatura. O bem moral corresponde à finalidade da natureza, às causas finais.

É um assunto que pode-se levar anos sem entender, e até mesmo experientes teólogos confessam suas dificuldades e dizem que a teoria tomista escurece a liberdade humana, ao passo que a teoria molinista escurece a causalidade divina universal.

O concurso divino pode ser físico ou moral, imediato ou mediato, caso Deus atue através de impulsos físicos (causalidade) ou morais (ex.: mandatos, conselhos, ameaças). A doutrina do concurso físico e imediato é ensinada por ambas as escolas, tomista e molinista, e pelo Catecismo Romano. Embora não seja alvo de definição dogmática, pois nenhum Catecismo é infalível, é uma verdade de razão. A diferença está em que, para os tomistas (ou, como alguns preferem, banezianos), a premoção de Deus predetermina infalivelmente a vontade de criatura; distingue-se o concurso divino prévio que faz que a virtude criada passe da potência ao ato, e o concurso divino simultâneo, que acompanha a atividade da criatura enquanto esta dure. Os molinistas só admitem que a Causa primária atue simultaneamente com a causa secundária, a partir do momento em que a vontade da criatura livremente se determina; logo, eles só aceitam o concurso divino simultâneo. Nenhuma das duas teorias foi condenada. 

A teoria tomista obscurece a liberdade humana, e a molinista obscurece a causalidade divina universal. Em razão disso, não é necessário entender que as teorias sejam opostas, pode-se supor que, de um modo misterioso, se complementem.  

O mal físico é a privação de um bem, mas nem sempre a privação de um bem será um mal. A ausência de pernas numa serpente não é um mal. O mal físico é, então, a privação parcial (não total) de um bem que convém à espécie (espécie entendida no sentido tomista como sendo grupo de seres cuja essência é idêntica).

Como toda ação tende para um fim, existe o bem moral. Um ato e quem o executa, é bom no sentido moral quando o ato é de acordo com o seu fim. Se o fim é um fim próximo, o ato é bom tecnicamente, por exemplo, é bom o serralheiro que sabe fazer a obra de sua especialidade. Se, por outro lado, consideramos o fim último, o ato é bom moralmente.

Diz Jolivet, em seu Curso de filosofia:

Todos os atos humanos têm um fim último. — Este designa o que é desejado por si e subordina todo o resto como meio. Aquele que gosta do dinheiro não o faz por ele mesmo, mas pelos bens materiais que lhe proporciona, e estes, por sua vez, são desejados apenas como meios de realizar um fim mais alto e último, único fim verdadeiro, a felicidade. O homem só pode ter, pois, um único fim último.

O fim último, especifica os atos do ponto-de-vista moral.

Com isso, podemos dizer que o título do livro de James está teológicamente errado. Diz o Catecismo Romano:

Não somente Deus conserva e dirige com sua Providência todas as criaturas que existem, mas também às que se movem e obram alguma coisa as impulsa ao movimento e à ação com um poder íntimo de tal maneira que, ainda que não impeça a eficiência das causas segundas, no entanto, precede a dita eficiência, posto que sua força totalmente oculta pertence a cada uma das coisas e, segundo afirma o sábio, se estende fortemente de um extremo até outro extremo e dispõe todas as coisas com suavidade. Pelo qual, ao anunciar o Apóstolo, aos de Atenas, o Deus que ignorantes adoravam, disse: “Não estás longe de cada um de nós, porque por Ele vivemos, nos movemos e existimos” (Atos dos Apóstolos, XVII, 27, 28).

A mesma doutrina, que é a do concurso físico e imediato, é ao menos doutrina teologicamente certa.  

O título do livro está errado porque não intervenção divina dá a entender que o homem age sem ser impulsionado por Deus.

E o Catecismo Romano deixa claro que para toda ação e movimento da causa secundária, há um mover e impulso que lhe é dado pela Causa primária:

"Não somente Deus conserva e dirige com sua Providência todas as criaturas que existem, mas também às que se movem e obram alguma coisa as impulsa ao movimento e à ação"


Deus move todas as causas, tanto as causas livres, quanto as não livres.
O Catecismo diz que Deus não produz o mal moral, mas mesmo no pecado, há constituintes que são físicos.

O mal é sempre a privação de um bem, o que pode ser a privação de um bem que convém existir naquele ser, ou da privação de um bem que o impeça de realizar o fim de sua natureza.

Santo Tomás diz:

(...) O mal que consiste em um defeito da ação, sempre é causado pelo defeito do agente. Mas em Deus não há nenhum defeito, senão que é a perfeição suma, como ficou demonstrado anteriormente (q. 4, a. 1). Por isso, no mal que consiste no defeito da ação, o que é causado pelo defeito do agente, não se reduz a Deus como a sua causa. Mas o mal que consiste na corrupção de algumas coisas, sim se reduz a Deus como a sua causa. E isto é assim tanto nas coisas naturais, como nas voluntárias. Mas já se tem dito que algum agente, enquanto que com sua capacidade produz alguma forma a que se segue corrupção e defeito, com seu pode causa tal corrupção e defeito. É evidente que a forma que de modo primordial Deus pretende nas coisas criadas é o bem da harmonia do Universo. A harmonia do Universo requer, como dissemos anteriormente (...) que algumas coisas possam falhar, e que, de fato, falham. Deste modo, Deus, ao causar nas coisas o bem da harmonia do Universo, como conseqüência e de forma acidental, também causa a corrupção das coisas. (...)

O que há de físico num homem que puxa uma arma para atirar num refém que possa ser causado por Deus? Eu responderia que a própria capacidade de realizar tal ato e não só capacidade no termo dele poder, por ele mesmo, dispor dessa capacidade, mas a possibilidade real de executar aquilo que é objeto de sua deliberação.  

Deus sustenta o criminoso em seu ato, lhe dá as condições de exercer seu ato através de seu influxo criador. Para cada ato, um novo impulso.

Até aí temos o ensino de ambas as escolas, o que também concorda com o Catecismo.

O que é objeto de especulação é se Deus determina também a vontade daquele que atua. Se Deus lhe determina a vontade, é de um modo que não é contrário a ser essa causa uma causa livre, pois, para quem defende essa escola, Deus é fonte tanto das decisões livres, tanto de tudo o mais que for necessário existir na natureza.

O modo como Deus determina essa vontade foi proposto por Domingos Bañez, OP. Deus não impulsiona a vontade para o mal. Ele a impulsiona ao bem, causando a decisão livre do homem em direção ao bem.

Luís de Molina já dizia que a vontade não era assim movida por Deus, como todas as outras coisas. A causa, para permanecer verdadeiramente livre, tinha que mover-se a si mesmo quanto à vontade, embora permanecesse dependente de Deus para executar o objeto de sua deliberação. Assim, o influxo divino acompanharia a decisão humana, sustentando a causa em sua ação, já que esta só pode agir por Ele.  

É demasiadamente clara a sua exposição no Catecismo da Igreja Católica:

308) Eis uma verdade inseparável da fé em Deus Criador: Deus age em todo o agir de suas criaturas. E é a causa primeira que opera nas causas segundas e por meio delas: "Pois é Deus quem opera em vós o querer e o operar, segundo a sua vontade" (Fl 2,13). Longe de diminuir a dignidade da criatura, esta verdade a realça. Tirada do nada pelo poder, sabedoria, bondade de Deus, a criatura não pode nada se for cortada de sua origem, pois "a criatura sem o Criador se esvai"; muito menos pode atingir seu fim último sem a ajuda da graça.

Como Deus não está no tempo, dizemos que a criação é um ato contínuo de Deus. Deus não só cria o mundo e o deixa seguir seu curso independe dele, pois aí a ação de Deus estaria no passado. E para Deus não existe passado, nem futuro.

Em outras palavras, a criação é um ato que, para Deus, existe agora. É como se ele criasse o mundo a cada instante de sua existência.

Pois bem, isso explica por que o homem precisa do influxo criador para todos os seus atos. Mas onde entra o pecado nessa história?

Que o homem possa estar caminhando, é bom, recebe a ajuda de Deus. Que o homem possa ver, é bom, recebe a ajuda de Deus. Também é bom que ele possa estender seu braço, logo, Deus tem que ajudá-lo com seu influxo criador.

O mal depende da finalidade com que o homem se utiliza dessa ajuda divina. No caso do bandido, ele se utiliza dessa ajuda divina com uma finalidade que não está de acordo com a finalidade última estabelecida por Deus para seus atos. Dizemos, então, que a falta dessa conformidade com a finalidade última estabelecida por Deus é o mal moral.  

Deus permite o sofrimento, pois não haveria merecimentos, graça, misericórdia, paciência, coragem, resignação, ou seja, tantas virtudes, que são parcelas da perfeição divina, se todos fossem já plenamente felizes. A felicidade é o fim último da natureza humana, mas Deus não quer que ela seja alcançada sem luta, sem méritos. Esforcemo-nos, meus irmãos, por encontrá-la.  

Referências:

Catecismo da Igreja Católica, 308, o Catecismo Romano, I, 2, 22, 

E as seguintes obras em espanhol, disponíveis na Internet:

Sobre se Deus pode ser a causa do mal:
http://hjg.com.ar/sumat/a/c49.html#a2

Suma Teológica, q. 49
http://hjg.com.ar/sumat/a/c49.html

Manual de teologia dogmática
http://www.mercaba.org/teologia/ott/indice_general.htm

Suma da sagrada teologia escolástica
http://www.mercaba.org/TEOLOGIA/STE/Creante/lib_1_cap_3.htm


PARA CITAR ESTE ARTIGO:



A compreensão do silêncio de Deus  David A. Conceição 11/2012 Tradição em Foco com Roma.




CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:


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