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Sedevacantismo, a posição que tem mais coerência com a crise pós conciliar


Tenho recebido uma quantidade imensa de pedidos para voltar a escrever sobre o sedevacantismo - lembrando que meu objetivo nunca foi de refutar a crença na Sé Vacante pois ela é inabalável conforme já tratado nesse artigo - mas por falta de tempo e oportunidade de assunto fiquei em dívida com os leitores. Entretanto eis que uma luz se aflora mais uma vez. 

Fui abordado de forma violenta essa semana por um ativista sedevacante repetindo os mesmos clichês que estamos carecas de saber como se para mim fosse novidade ouvir.

Palavras chaves:  subsiste, inválidos, conciliábulo, liberdade religiosa entre outros.

O problema é que a ilusão que a crença na Sé Vacante cria, tem um efeito hipnótico, semelhante ao provocado por algumas drogas. Ela obriga as pessoas à quase que literalmente a atacarem as outras, na tentativa desesperada de conseguir mais adeptos para sua fantasia teológica. 

Os sedevacantistas farão qualquer coisa para atingirem seus objetivos; seja torrando a sua paciência; seja ameaçando você com o fogo do Inferno por seguir o Magitério Conciliar. Mesmo que você repita um milhão de vezes que não tem qualquer tipo de interesse e que seus argumentos já foram refutados, o outro lado insistirá que você está errado/perdido/lascado e o remédio é justamente comprar a crença/ilusão deles. E "padecer no paraíso" sem a Missa, sem os sacramentos e sem qualquer vínculo concreto com a Igreja Militante.

Para representar o ativista que me abordou, irei designá-lo como "Eric".

Eric, como todo bom e fiel guardião da Tradição Católica, se converteu ao sedevacantismo graças a internet, lendo artigos inéditos da década de 80/90 e sendo doutrinado de modo eficaz sobre a invalidade dos sacramentos no rito novo. Eric nem sabe explicar onde se encontra o suposto defeito da forma, ao ser questionado ele demorou um pouco até encontrar um texto antigo pronto dando mais ou menos um marabalismo teológico mas sem nada definitivamente concreto. Mas ainda assim ele mantém sua convicção porque o sedevacantismo é definitivamente a posição que mais dá respaldo para essa crise sem precedentes. 
 
O que o Eric não consegue entender de jeito nenhum, é que acreditar que se é alguém especial; melhor ou superior por ser ativista sedevacante; pressupõe que você; o "neoconservador" é alguém inferior, mau, desprovido de qualquer característica boa.  Não interessa quantas toneladas de boas intenções você carregar em um ato; se você o faz partindo do princípio que o outro é moralmente inferior; você não está sendo altruísta; você está fazendo uma coisa simplesmente para alimentar o seu ego! 

Eric cometeu uma falha vergonhosa no debate. Tal falha se aplica a todos os sedevacantes pelo que já li por aí em textos e em comentários, é absurdamente incrível como conseguem ser tão fortes na crença e falhos em informações históricas e eclesiológicas. Uma vez já corrigimos a Meany Ranheta sobre erros terminológicos.

Mais uma vez, o que dá sustento para a crença da invalidade são textos com teor subjetivo de concepção semi-teologal.


O que é mais engraçado, é a tentativa dos sedevacantistas de encontrarem erro nos sacramentários do novo rito de sagração episcopal, tal proeza dividiu ao logo de uma década a opinão de teólogos sedevacantes mencionado em alguns livros de histórias encontradas em sebos de posse pessoal.

É válido, 1981 
THIERRY, Boris. L'Eglise est ses sacraments Editora Lumineux

É inválido, 1984
AIMON, Antonio.  La consecuencia de la riforma liturgica Editora Internazionali

É válido, 1985
PASCOAL, Joseph. La Iglesia desde el Vaticano II Editora Petrus

É inválido, 1988
AIMÉE, Pierre. La sacerdoce basé sur l'Eglise primitive Editora Boulangerie

É válido, 1991
ARKADIUS, Antonin. E Ele permanece entre nós (título em alemão) Editora Flugel

É inválido, 1994
AGUIRRE, Esteban. La caida y a lucha por hasta Editora Rosalia

Cada um com uma alegação mais sem noção do que a outra, sendo que não há um parecer unificado entre eles sobre o real e qual o suposto defeito no rito. Um motivo bem engraçado é o mencionado pelo Anthony Cekada que diz que depois tantos anos de estudo, ele chegou a conclusão de que "o problema central na nova forma se encontra ao redor do termo Espírito governador" sendo este a "substância" do sacramento.

O que conta aí é a interpretação semântica pessoal dele do que quer dizer esse termo. Pronto. A invalidade está provada.
 Instituição:

O Sacramento da Ordem foi instituído por Nosso Senhor na última Ceia quando conferiu aos Apóstolos o poder e a graça de consagrar. Porém a faculdade de perdoar os pecados deu-lha quando, depois da Ressureição, soprou sobre eles e lhes disse: "Recebei o Espírito Santo; os pecados serão perdoados àqueles a quem perdorades" João 20,22.

Matéria e Forma:

Como nos demais Sacramentos o ritual da Ordem compõe-se de ritos acessórios cuja mudança ou omissão não compromete a validade do Sacramento. Os ritos essenciais contam de matéria, que é a imposição das mãos ou a entrega de instrumentos que simbolizam o poder da respectiva Ordem; e de forma que são as palavras que acompanham essa cerimônia.

No Epíscopado, a matéria é a imposição das mãos feita pela Bispo sagrante. A forma consta das palavras do Prefácio, sendo essenciais. A imposição das mãos deve fazer-se pelo contato físico, embora para a validade baste o contato moral. Pio XII, Constituição Apostólica Sacramentum Ordinis, de 30-11-1947 (A. S. 1948, p.5-7)

Resumo do Cerimonial: 

O Prelado Sagrante, ladeado do dois Prelados Assistentes e acompanhado do Prelado que vai ser sagrado, é recebido à porta da igreja pelo clero e, tendo orado diante do SS. Sacramento, dirige-se para o trono ou para o faldistório do lado Epístola (se não está em território da sua jurisdição). O Prelado Eleito vai com os dois Assistentes para uma capela lateral ou simples altar colocado ao lado do altar-mor.

Aí fazem a preparação para a Missa e paramentam-se: o Sagrante com os paramentos próprios da Missa, os Asssistentes com pluvial e mitra e o Eleito com alva, estola, pluvial e barrete.

Depois vão sentar-se em frente do altar; o Sagrante com as costas voltadas para o altar ladeado dos Ministros Assistentes; e em frente do Sagrante o Eleito no meio dos Prelados Assistentes. O mais digno destes apresenta o Eleito. Um capelão do Sagrante lê o Breve Apostólico que autoriza a sagração. O Eleito faz o juramento de obediência e fidelidade à Santa Sé. Segue-se um exame em que o Sagrante interroga o Eleito sobre suas virtudes e fé ortodoxa.

Elogo começa a Missa, estando o Eleito à esquerda do Sagrante e respondendo ás orações que este diz.

Terminas as preces ao pé do altar, o Sagrante sobe ao altar como de costume, dizendo Aufer a nobis. O Eleito retira-se com os Prelados Assistentes ao seu altar e ali calçam-lhe as sandálias, põem-lhe a cruz peitoral, põem-lhe a estola verticalmente e revesrem-no da tunicela, dalmática, planeta e manípulo.

O Eleito começa a Missa pelo Intróito ao mesmo tempo que o Sagrante. Di-la ao meio do altar; não se volta para o povo para dizer Pax vobis ou Dominus vobiscum. À primeira Oração ajunta-se sob uma só conclusão a Oração pelo Eleito.

Antes do último versículo do Gradual, Tracto, Aleluia ou Sequência, o Eleito vai com os Prelados Assistentes lêem a admonição Episcopum oportet, após a qual o Sagrante convida todos à Oração - Oremus, frates charissimi e canta-se a Ladainha de Todos os Santos.

No fim o Eleito põe-se de joelhos. Sobre a cabeça e os ombros dele põe o livro dos Evangelhos, aberto, com as folhas para baixo. O Sagrante e os dois Prelados Assistentes impõem ao mesmo tempo ambas as mãos entre a cabeça do Eleito e dizem: Accipe Spiritum Sanctum.

Depois dizem a Oração: Propotiare, e a seguir o Sagrante canta o Prefácio, com as mãos estendidas, e os Prelados Assistentes lêem-no, com as mãos juntas. O Sagrante interrompe o Prefácio para ungir a cabeça do Eleito, enquanto o coro canta o Veni Creator.

Terminado o Prefácio, o Sagrante unge as mãos do Eleito, dizendo as fórmulas apropriadas. Depois, sucessivamente, benze e entrega-lhe o báculo e o anel. É então que lhe tiram de cima dos ombros o livro dos Evangelhos que em seguida o Sagrante lhe entrega dizendo: Accipe Evangelium, etc. E termina, dando o ósculo da paz. 

O Sagrado volta ao seu altar e ali continua a Missa ao mesmo tempo que o Sagrante até depois da Antífona do Ofertório.

Então o Sagrado vem para diante do trono e de joelhos oferece ao Sagrante que está sentado, dois círios acesos, dois pães e dois barris cheios de vinho, tudo isto com as armas do Sagrante e do Sagrado.

Depois o Sagrado continua a Missa não no seu altar mas no do Sagrante, do lado da Epístola, de pé, com as mãos juntas, dizendo as mesmas fórmulas que o Sagrante, mas sem fazer gestos. Recebe a paz do Sagrante e comunga também das mãos dele de pé, sem dizer nada, a metade da Hóstia de que foi tirada a partícula que o Sagrante deitou no cálix, e o resto do Preciosíssimo Sangue.

A Missa continua, tendo o Sagrado passado para o lado do Evangelho. Depois da Bênção o Sagrante entoa o Te Deum, durante o qual o Sagrado, acompanhado de seus Assistentes, percorre a igreja, dando a Bênção ao povo. Terminado o Te Deum o Sagrante entoa a Antífona Firmetus manus tua, canta os Versículos e a Oração.

O Sagrado sobe ao altar e dá solenemente a Bênção; depois, de joelhos no supedâneo, com báculo e mitra, voltado para o Sagrante, canta por três vezes: Ad multos annos. O Sagrante recebe o Sagrado ao ósculo da paz. Em seguida o Sagrado retira-se com os Prelados Assistentes, dirige-se para o altar onde tinha começado a Missa e ali recita o último Evangelho.

Terminada a Missa, despem os paramentos pontificais e, rezada a ação de graças, retiram-se como haviam entrado.

Extraído do Curso de Liturgia Romana, Dom Coelho OSB Edições Ora & Labora 1950

Agora comparem com o Rito de Paulo VI e constatem que não houve nenhuma mudança na forma e nem na essência. 

E sobre a falácia da invalidade da Crisma, recomendo ler sobre fórmula do rito novo.

Há também um texto mais detalhado sobre a questão. 

Sedevacantistas repetem o erros dos cismáticos orientais, ditos "ortodoxos". O bispo Kallistos Ware, na sua obra "Igreja Ortodoxa" diz que a crisma às vezes é ministrada mais de uma vez como sacramento da reconciliação, por exemplo, se um ortodoxo apostata para o islamismo e depois retorna à Igreja Ortodoxa, ele é crismado novamente. Similarmente, algumas jurisdições batizam os católicos romanos convertidos à Ortodoxia, outras crismam e outras recebem mediante confissão de fé. Mas a regra geral é que os batismos católicos e seus sacramentos não são válidos, a não ser que passem, talvez, a vigorar no momento em que o indivíduo é recebido mediante economia na Igreja Ortodoxa. 

Se não se submetem à jurisdição do Papa, da mesma forma que os uniatas, estão fora da Igreja, em cisma:

"Nem todos os pecados, embora graves, são de sua natureza tais que separem o homem do corpo da Igreja como fazem os cismas, a heresia e a apostasia." (Pio XII, Mystici corporis, 22)

A própria heresia não é senão uma variedade de cisma, conforme ensina o Compêndio Moral Salmanticense. Portanto, a situação do herege em nada é inferior à do cismático.


Basta negar com pertinácia um único artigo de fé para não se ter mais fé católica (S. Th., IIaIIae, q.5, a.3), mesmo que se aceite todos os outros. 

Talvez o leitor ser pergunte: " Mas se o Eric vive sem os sacramentos, sem a Missa e professa a fé em um deus distante e cruel, como pode ser firme na "fé"? 

Os sentidos humanos nos trapaceiam muito mais do que conseguimos compreender. O mais intrigante é que todos temos uma tendência quase que irresistível a nos maravilharmos com isso! Gostamos tanto de ser iludidos, que chegamos ao ponto de pagarmos para sermos vítimas de uma ilusão. Dos truques de mágica à multibilionária indústria cinematográfica, esse aspecto da natureza humana tem enriquecido, ao longo dos séculos, um incalculável número de pessoas que descobriram como iludir os outros com perfeição.

O que move a "fé" do sedevacantista não é Cristo, Este é completamente estranho entre seus adeptos, pois não é de interesse de nenhum deles a conversão dos pecadores, a teologia, o filosofia, a caridade, nada! É a auto-ilusão de que são os verdadeiros guardiões da Fé Católica que os movem a serem firmes. A auto-ilusão acontece justamente quando o indivíduo tem certo grau de conhecimento sobre a mentira em que está acreditando. 

O problema é que é mais fácil ir para o caminho do mal do que o do bem. O caminho do bem requer esforço, desprendimento, sacrifício e dependendo da situação, até o martírio! Por isso que quando duas pessoas, uma boa e outra má se encontram e querem mutuamente se atrair, a pessoa boa tem que ter uma meta bem clara e um planejamento com muita prudência para atingir os seus fins, caso contrário, a pessoa má terá sucesso no seu empreendimento e a boa não.

Lembrem-se caro leitores, o sedevacantismo é uma posição séria e precisa ser venerada! O blog francês Virgo Maria, sedevacantista, sério e credibilitado, nada mais faz do que expor um gadget em que acusa Ratzinger e Montini de serem homossexuais.
  
Não interessa! Para os sedevacantistas é válido, eles jamais levantam a hipótese de fraude, mentira e calúnia. Definem como "testemunho" assim como crêem fielmente que o amigo do amigo do amigo do português guru via Roncalli frequêntar loja maçônica.

O que ignoram solenemente, por exemplo, foi uma ação entre outras benévolas do Papa Paulo como o veto do pedido da CNBB para rever o celibato. 

Volta e meia, volta-se a essa história de "teoria da conspiração". Um exemplo é o tal "arquivo secreto" do Vaticano, que pouco de secreto é. Para quem conhece nada de latim, informo que "secretus, -a, -um" significa o que "está posto de lado", "sem valor atual"... etc. enfim, arquivado!
 

A questão do controle de nascimento por meio artificiais foi entregue pelo próprio Concílio ao Papa que o tratasse num estudo a parte, o que aconteceu com a publicação da Humanæ Vitæ em 1968 (4 anos após o encerramento do Concílio);
 

A questão do celibato eclesiástico, não é um dogma, mas um tesouro da Igreja a ser preservado. Cito dois exemplos:

- Quando num sínodo em Roma por volta de 1972 o assunto veio à pauta, Paulo VI deixou o sínodo debater à vontade e enfim, o sínodo concluiu que era prematura qualquer decisão. Aí, o Papa tirou da "manga" uma carta que recebera do Irmão Roger Schultz, o fundador da Comunidade de Taizé, que aconselhava o Papa não permitir que a Igreja Católica fizesse isso. Dizia ele: a primeira coisa que nós (os reformados) foi abolir a celibato. E então: o nosso clero é melhor do que o católico? Não, absolutamente! O clero católico nos causa inveja".

- Há uns 10 anos atrás, ao então Cardeal Ratzinger, foi-lhe perguntado pela "milésima" vez por jornalistas porque a Igreja não ordenava homens casados. A resposta foi direta e com um certa dose de humor: "Para não termos problemas como os padres divorciados!". Ratzinger estava se referindo, em parte, ao clero luterano de sua Alemanha, cuja a metade de seus membros estão afastados de seu ministério pelo fato de estarem divorciados. 


Como certa vez notou o então mesmo Cardeal, há uma acentuada diferença na concepção do múnus sacerdotal entre os padres latinos (celibatários) e o orientais (geralmente casados).

Os padres orientais exercem, praticamente, uma função burocrática, ainda que sejam dispensadores dos sacramentos (batismo, crisma, eucaristia), enfim, sem nenhuma atividade missionária ou pastoral. Falta-lhes tempo e disponibilidade, devido a compromissos familiares.

Essa parte missionária e pastoral é exercida pelos monges, que são celibatários e que também são os confessores mais procurados. Aliás, todos os bispos orientais são escolhidos dentre os monges.

Pode-se dizer que a reforma gregoriana do século XI, quando se tornou obrigatória a observação do celibato aos que aspiram ao sacerdócio, é uma disciplina eclesiástica que dificilmente será abandonada, devido aos excelentes frutos que provocaram.

A falta de vocações até o final do pontificado do Beato João Paulo II tinha outras razões, entre elas, o declínio da prática religiosa (uma silenciosa apostasia) e a crise na instituição familiar. Cada vez, há menos crianças, portanto, menos vocações. Cujo quadro tem mudado no pontificado glorioso de Bento XVI, suscitando cadaz vez mais vocações para a Tradição, como sempre mencionei e o termo pegou, é a geração ratzingeriana. Essa ninguém segura, nem os modernistas, nem os sedevacantistas.


Eric, taí! Tudo com referências sem Ctrl V + C como você me apontou. Sugiro uma reflexão com o texto e quem sabe, mediante oração e jejum, você abandone a crença fictícia e passe a ser um católico de verdade, lutando ao nosso lado. 

PARA CITAR ESTE ARTIGO:

Sedevacantismo, a posição que tem mais coerência com a crise pós conciliar http://twixar.com/SPc0 David A. Conceição, novembro de 2012, blogue Tradição em Foco com Roma.


CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:

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