.

Festas noturnas: ir ou não ir?

 .
Nosso Senhor diz em sua Palavra que melhor seria dos escandalosos que lhes amarrassem uma rocha e lhes atirassem ao rio. Essas palavras saíram da boca de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não se referiu aos que são escandalizados, mas aos que são motivo de escândalo.

Se percebemos que nossas atitudes causam esse tipo de escândalo, não há dúvida que a única postura cristã aceitável é a renúncia. MAS... porém, contudo, todavia, sem embargo, entretanto... é necessário também que, juntamente com isso, sejamos fiéis anunciadores da verdade. Se as pessoas não entendem algumas posturas que tomamos, é nosso dever, antes de mais nada, fundamentarmos nossas atitudes. Não basta sermos exemplo, isso é MUITO importante, mas também temos que dar fundamento, corrigir o que possa ser um pensamento equivocado, preconceituoso e mesmo tendendo à doutrina do puritanismo.

É claro que só podemos fundamentar nossos atos quando temos a certeza que eles não estão em desagrado à vontade de Deus. No caso das festas nortunas, existem casos e casos. Jamais podemos ser simplistas em nossas fundamentações, como por exemplo dizer tudo bem, pode ir sim, ou, pior ainda, incentivar uma pessoa sendo que a reflexão não aconteceu e ela pode generalizar da forma que quiser: vá pra balada sim, divirta-se e seja feliz!

 .
Discordo que deixar de ir em certos lugares seja puritanismo. O puritanismo nao é uma ideologia, é uma doutrina protestante. E como toda doutrina, é complicada de entender, tem seus próprios fundamentos. O puritanismo supõe que certas coisas que podem levar ao pecado são pecado em si; o puritanismo é extremamente material: para ele, o pecado não é moral, não reside na intenção, mas na natureza material das coisas. Por exemplo: Jesus não bebeu vinho em Caná nem consagrou vinho na Última Ceia, porque o álcool -- a subtstãncia mesmo -- causa embriaguez, logo o álcool é uma substância má, impura, pecaminosa, não criada por Deus, fruto da queda do homem. E o homem não pode se aproximar do que é impuro. O puitanismo lembra o farisaísmo que proibía a pessoa de tocar um leproso, mas vai mais além, chega até a ser meio esotérico: confere valor de bem ou mal a uma substância neutra, material.

Dito isso, fica claro que a pessoa que não vai a festas noturnas por prudência de não cair em tentação e/ou de causar escândalo àqueles que o vêem naturalmente não está sendo puritano, está sendo católico, ainda que ao seu modo. 

Não pode haver uma regra para isso, se é certo ou errado. Depende muito do ambiente, do momento em que o jovem se encontra (em relação à sua ascese, ou seja, o seu crescimento na fé) e ainda, do ambiente, que pode ser mais ou menos propício para o pecado. 

Acho que isso pode se resumir em três recomendações:

1) Repito com Sócrates e Agostinho: Conhece-te a ti mesmo;

2) Pondere se existe possibilidade de tentação e queda; pondere quais conseqüências isso poderá trazer para você; se você está buscando uma vida ascética ou fazendo direção epiritual, a responsabilidade é maior. Quanto maior a altura, maior o tombo;

3) Considere a possibilidade de ser causa de escândalo e lembre-se que, mesmo se as pessoas não te compeenderem, mesmo que elas sejam até puritanas, podem criar um juízo de consciência errado com base no seu exemplo.

Ao refletir sobre estes três pontos, acredito que cada um encontrará a resposta apropriada para a situação em questão.


Convém ressaltar, como talvez tenha ficado claro com o que eu disse depois, mas só para não deixar essa frase ambígua, que eu me refiro a coisas que podem levar ao pecado como coisas mesmo, substâncias físicas. Alguém poderia interpretar erroaneamente que, se uma coisa (só que usada no sentido de ato ou decisão) oferece ocasião para o pecado, isto não é propriamente pecado, o que é falso. Ora, é exatamente o contrário, pois como eu disse o pecado reside na intenção moral e não na substância.

Quando o risco é certo (ou melhor, incerto, mas a sua possibilidade é real e indissociável à índole e ao apelo de consciência), o ato de arriscar-se já constitui pecado, geralmente de luxúria e prepotência. É outro pecado, distinto do qual se arrisca cometer, mas ainda assim, pecado.

Por exemplo, manusear uma revista pornográfica, somente por curiosidade de ver como ficaram as fotos, pode muito bem ser pecado. Não porque a revista é má em si mesma, mas porque a pessoa arrisca-se gravemente a cometer outro pecado. Este primeiro pecado é tão mais grave quanto mais fraca for a pessoa para cair, e quanto mais consciência ela tiver disso.

Não tentarás o Senhor teu Deus. (Dt 6,16)


Primeiro, acredito que devo arriscar dar uma definição mais concreta para a palavra balada.  Este vocábulo, isolado, não define nada. Vou usar a definição do que me vêm à cabeça quando escuto essa palavra, balada. Vamos para a balada aqui onde moro significa um convite para ir a uma casa noturna, uma discoteca, aquele lugar onde o povo dança, dança, dança... e vara a noite na farra até a madugada. Não é um barzinho, não é qualquer festa, não é um espaço de eventos onde se comemora alguma festa em específico. É um lugar onde esse esquema impera sempre, é o objetivo do local.

Por si só, ir a um local assim é pecado? Primeiramente, como eu sempre digo, deve-se tomar cuidado quando se usa esta expressão por si só. Se abstrairmos muito, a ponto de tirarmos todo o elemento humano -- a decisão, a consciência, a responsabilidade --, não há como haver pecado. Se não há moral para ser avaliada, não existe possibilidade de pecado. Cairíamos no mesmo erro do puritanismo, só que ao contrário: se os puritanos alegam que ir à balada é pecado por si mesmo, só pela presença no local que é impuro, dizer que algo não é pecado só porque o local não é impuro, é neutro, é usar um raciocínio puritano para negar um pecado. O erro do puritanismo está em como se dá o conceito de pecado, não se é ou não. Rebate-se o ato, permanece-se no erro. Parece irônico, não?

Então, como avaliar se se está pecando ou não? Esqueça o argumento do local puro / local impuro e pense na sua responsabilidade moral. Você está dando bom exemplo? Está se arriscando de forma explícita ao pecado tal que não possa dizer em absoluto que a estadia lá será para ti motivo de pensamentos impuros? Se a resposta for sim, há pecado, vc peca por imprudência e risco de cometer algum outro pecado que foge ao seu controle. Se for não, você não peca. Simples assim. 


Agora.... isso que eu falei foi embasado na doutrina. Agora, vou abrir um parênteses bem grande, lá vai

Abre parênteses

Tudo o que eu disser agora é mera opinião minha, minha, do David, não possui autoridade nenhuma para definir o que é certo e o que não é, serve apenas como reflexão.


Eu defini balada no parágrafo anterior para usar essa definição aqui. Para mim, eu fico me perguntando se existe a possibilidade das duas perguntas fundamentais serem sim, ou se elas seriam sempre não. Meu pessimismo me leva a acreditar, às vezes, que pelo menos em 99% dos casos, a resposta impreterivelmente será não. Por quê?

Digo pelo que eu vejo aqui nas casas de baladas. Estas casas, em teoria, não nos apresentam uma diversão ilícita. Dançar, estar com os amigos e mesmo participar de uma Happy Hour com um chopinho à vontade não é pecado. O poblema é o que acontece na prática.

Isso, sejamos práticos. Pensemos um pouco na realidade desses lugares. Há lugares que a promiscuidade já dominou de tal forma esses ambientes que não há possibilidade de se estar lá e não ser alvo do pecado. É pecado explícito, na sua cara. Não é uma ou outra mulher semi-nua, são todas. Não é um ou outro casal se agarrando, são um a cada mesa. Não é uma ou outra música que fala besteira, é 1 hora de músicas dance compostas de forma a explicitar a sensualidade, e não de forma subliminar, mas descarada.

Observando esse panorama lastimável, que outra conclusão eu poderia tirar? Acreditar que o incentivo, ainda que pequeno, à possibilidade de se ir a um lugar desses, seja lícito a um cristão me parece ingenuidade. Como eu disse, estou contando da minha realidade. Há locais sadios e aí tudo pode mudar. Nada impede que o local exija trajes mais adequados, tenha uma seletividade maior das músicas e por aí vai.  

O que quero dizer, no final das contas, é que é muito fácil para nós, que somos (ou nos achamos) bem-entendidos na doutrina, julgarmos os outros quando o discurso não corresponde à moral cristã, que é puritano, que é fanático, é isso, é aquilo... Pode muito bem ser possível que o clima de promiscuidade que impera nas casas noturnas que algumas pessoas conhecem realmente seja tão deplorável a ponto de não haver dúvidas que é um pecado terrível freqüentá-las. Não deve ser muito fácil para alguns imaginarem a possibilidade de baladas mais light, e muito menos fácil deve ser receber uma repreensão sobre o aspecto teórico da coisa, quando o que lhe incomoda é a prática, é a realidade tal qual estamos vendo aí.

Não estou querendo atacar nem dar lição de moral a ninguém aqui. Admiro outros blogueiros e o serviços que eles prestam pelo zelo à verdade. Mas o que é uma verdade clarevidente aos nossos olhos pode não corresponder à realidade de outra pessoa, pois os aspectos a serem analisados são distintos. Tanto que um pai jamais deixaria seu filho ir para uma balada, em determinados lugares, porque le sabe -- não supõe, eu SABE -- que isso iria lhe fazer mal.

Aqui se encerra a minha reflexão, que nada tem de doutrinária, e visa apenas a contribuição para que percebamos que certos assuntos são mais delicados do que aparentam...

Fecha parênteses

Se eu afirmei alguma coisa que é veementemente e inquestionavelmente errada, eu agradeceria imensamente que me corrijam. Do contrário, só peço para ter a minha opinião respeitada.


Uma reflexão com as palavras do confrade Rafael Vitola Brodback:


Claro que temos que ser exemplos. Mas o que é ser exemplo? É procurar não pecar, é obedecer a Deus. E desde quando ir à balada é pecado?
 
Entra-se num círculo vicioso: ir pra noite é pecado porque escandaliza e escandaliza porque é pecado. Dilema tostines clássico, ou, como diria Aristóteles, petição de princípio (colocar a autoridade de algo que se quer provar justamente nesse algo). 
.
Analisando cada situação com sinceridade e aplicando os princípios à circunstância concreta, sem fórmulas mágicas gerais (isso pode, isso não pode). É aquela velha história de que cada caso é um caso.

Um diretor espiritual pode ajudar também.

Temos, por um lado, que nos preocupar com os demais e evitar algumas coisas que, mesmo não sendo pecado, podem provocar admiração negativa. Mas, por outro, não podemos ter uma vida espiritual neurótica.

Discussões gerais nunca são uma boa nesse sentido
Por outro lado, como cada caso é um caso. Corre-se o risco de, por uma conclusão pessoal, em um caso concreto, válido para uma situação específica e uma pessoa em especial, considerar que é uma lei geral. E aí, sim, surgem os puritanismos e as morais de listas...

O melhor é expor os princípios. O resto é a aplicação no caso concreto que cada um deve fazer em uma situação específica, com a ajuda de seu diretor espiritual. 

.

PARA CITAR ESTE ARTIGO:

Festas noturnas: ir ou não ir?

David A Conceição, 12/2012 Tradição em Foco com Roma.

Grupo Tradição - Vaticano II acesse:


CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS: 

tradicaoemfococomroma@hotmail.com

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino