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As duas naturezas de Cristo

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Algumas heresias clássicas sobre a natureza de Nosso Senhor:

Adocionismo, ou adocianismo (em Portugal, adopcionismo), é uma visão teológica do Cristianismo Primitivo, que professa que Jesus nasceu humano, tornando-se posteriormente divino por ocasião do seu batismo, ponto em que foi adotado como filho de Deus.

Nestorianismo é uma doutrina cristã, nascida no Século V, segundo a qual há em Jesus Cristo duas pessoas distintas, uma humana e outra divina, completas de tal forma que constituem dois entes independentes. A doutrina surgiu em Antióquia e manteve forte influência na Síria, e é sustentada ainda hoje pela Rosacruz e outras doutrinas ligadas à gnose.

Sabelianismo (também conhecido como modalismo) é a crença estabelecida no Século III de que a Trindade não se configura em três pessoas, mas em modos, ou atributos de Deus.

Arianismo sustentada pelos seguidores de Arius nos primeiros tempos da Igreja Cristã, que negava a existência da consubstancialidade entre Jesus e Deus, que os igualasse, fazendo do Cristo antes um homem do que uma Pessoa Divina.

A separação da Divindade da Humanidade de Cristo é uma heresia grotesca professada por algumas correntes protestantes e dela trataremos desse artigo.


Impossível Deus deixar de ser Deus.

A divindade não estava em Cristo como um elemento externo. Cristo não tinha a divindade: ele era (e é) Deus. A hipótese acima nega a União Hipostática, aquela unidade indissolúvel, na mesma Pessoa divina e adorável de Jesus Cristo, entre o homem e Deus.

Et Verbum caro factum est, et habitavit in nobis!

Na morte humana, dá-se a separação entre corpo e alma.

Na morte de Cristo, corpo e alma se separaram. Cristo morre enquanto homem. A divindade permaneceu unida a ambos, corpo e alma, e por isso Cristo pôde ressuscitar a si mesmo.

Algumas explicações mais “técnicas” e importantes argumentos vindos do Magistério:

O que ficou evidenciado é a negação de uma fundamental verdade de fé cristológica: a União Hipostática. Por esta verdade sabemos que a natureza humana e a natureza divina de Nosso Senhor Jesus Cristo nem se confundem, nem se separam. Formam, unidas a tal ponto, uma única Pessoa — a saber: a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Foi no IV Concílio Ecumênico, conhecido como Concílio de Calcedônia (celebrado no ano 451), que a Igreja formalizou dogmaticamente esta verdade. Eis como os Padres Conciliares definiram as duas naturezas em Cristo (Sessão VI – 22/10/451):


Seguindo, pois, os Santos Padres, unanimemente ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na Sua divindade e perfeito na Sua humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, [composto] de alma racional e de corpo; consubstancial ao Pai quanto à divindade, consubstancial a nós quanto à humanidade, “em tudo semelhante a nós, menos no pecado” (Heb 4,15); gerado do Pai antes dos séculos, segundo a divindade; e, nos últimos tempos, por nós e para a nossa salvação, [gerado] de Maria Virgem, Mãe de Deus, segundo a humanidade; que se deve reconhecer um só e mesmo Cristo Senhor, Filho Unigênito, em duas naturezas, sem confusão, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis, de nenhum modo suprimida a diferença das naturezas por causa de sua união, mas salvaguardada a propriedade de cada natureza e confluindo numa só Pessoa e hipóstase, não separado ou dividido em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus-Verbo, Senhor Jesus Cristo, como outrora nos ensinaram sobre Ele os profetas e depois o próprio Jesus Cristo, e como nos transmitiu o símbolo dos Padres.

Portanto, estabelecido por nós tudo isso, com todo o cuidado e diligência, definiu o santo e ecumênico Concílio que a ninguém é lícito professar outra Fé, nem, de modo diferente, escrever, compor, crer, ou ensinar [esta fórmula] aos outros.


Eis aí, irmãos, a afirmação inconteste de que não se pode, sob pena de separar-se da verdade, fazer qualquer tipo de separação das duas naturezas de Nosso Senhor Jesus Cristo, tendo em vista que formam uma única hipóstase, ou seja, uma única Pessoa.

Cabe, então, um breve histórico da necessidade desta afirmação dogmática. É importante notar que, via de regra, as fórmulas dogmáticas nascem quando o Magistério da Igreja se vê obrigado a defender uma verdade que está sendo negada. Ou seja, não se pretende inventar nada, mas apenas tornar patente, de modo formal, algo que sempre se encontrou latente na fé da Igreja.

Voltemos, então, ao ano 382, quando Papa Dâmaso escreve uma carta ao Bispo de Antioquia, Paulino, expressando a fé da Igreja conforme o sínodo celebrado neste ano em Roma. Dentre as condenações aos erros trinitários, encontra-se também, nesta carta, de alguns erros cristológicos, que começavam a surgir. A doutrina de Deodoro de Tarso, que ensinava uma dupla filiação em Cristo (divina e humana) foi devidamente condenada. Eis aí o germe do nestorianismo, propagado por Nestório e Teodoro de Mopsuéstia, que eram ambos da escola de Deodoro.

Nesta mesma carta foi condenada a doutrina de Apolinário de Ladocéia, que aceitava a definição do Concílio de Nicéia, mas que sustentava a tese de que o Verbo seria em Jesus o mesmo que uma alma espiritual.

Vejamos o que diz a carta, conhecida como Tomus Damasi, nos cânones 6 e 7.


6. Anatematizamos aqueles que afirmam dois Filhos: um antes dos séculos, e outro nascido da Virgem depois da Encarnação.

7. Anatematizamos aqueles que dizem que o Verbo de Deus habitou num corpo humano fazendo nele as vezes da alma humana racional e intelectual, porque o Filho e Verbo de Deus habitou Seu corpo, não na qualidade de alma racional e intelectual, mas antes assumiu uma alma racional e intelectual como a nossa, mas sem pecado, para salvar a nossa alma.


Durante o período em que foi Bispo de Constantinopla  -data de 428-431-, Nestório empreendeu a tarefa de defender e desenvolver as idéias, já condenadas, de Deodoro de Tarso e Teodoro de Mopsuéstia. Surge então o nestorianismo, que consiste, essencialmente, na aplicação das ações de Jesus a distintos sujeitos: a humanidade, a divindade e a união destas em Cristo. Segundo Nestório, haveria em Jesus um prósopon humano, um sujeito, indivíduo, que seria responsável pelos atos humanos. Outro sujeito, um prósopon divino, igualmente individual, responsável pelas ações divinas. E, por fim, um terceiro prósopon, Cristo, resultado da união acidental das duas naturezas-pessoas.

Portanto, segundo Nestório, seria incorreto afirmar que o Verbo nasceu de Maria, que Maria é Mãe de Deus, ou que Deus morreu na Cruz.

Nestório expôs estas idéias em um sermão, que escandalizou o povo, e numa carta a São Cirilo de Alexandria. Sabendo disso, o Papa Celestino I convocou novo sínodo em Roma, que condenou Nestório e encarregou o mesmo Cirilo de executar a sentença. Após novo sínodo em Alexandria, Cirilo enviou uma carta a Constantinopla, com doze anátemas contra Nestório. Porém esta sentença ficou sem efeito, pois Imperador Teodósio II achou por bem convocar um concílio em Éfeso (Terceiro Concílio Ecumênico, ano 431).

Na primeira sessão (22 Junho), a Carta de São Cirilo a Nestório foi lida e aprovada. Este foi deposto e se proclamou a maternidade divina de Maria.

Havia, por baixo de toda esta questão, uma certa disputa entre duas grandes escolas teológicas: Alexandria e Antioquia. Alguns antioquenses de renome, sem questionar a condenação a Nestório, não ficaram plenamente satisfeitos com as fórmulas de São Cirilo. João de Antioquia redige, então, uma fórmula de fé que foi plenamente aceita por São Cirilo e que trouxe paz entre as duas escolas. O Papa Sixto III, em cartas a João de Antioquia e ao próprio São Cirilo, aprovou integralmente a fórmula de João.

Não citarei aqui a Fórmula, por considerá-la muito semelhante ao texto supra citado do Concílio de Calcedônia.

Imediatamente após a solução deste problema, nova questão teológica se levantou, agora em sentido contrário ao erro do nestorianismo. Surge o monge Êutiques (segundo São Leão Magno, “ancião mui pouco prudente e demasiado ignorante”) que afirmava que a união em Cristo da divindade com a humanidade resultava uma só natureza. Deslocando, assim, a realidade de Nosso Senhor da unidade de pessoa para a unidade de natureza. É o monofisismo, que evitarei dar maiores referências, por não se tratar do erro que pretendemos debelar. Basta-nos saber que esta nova questão tem papel preponderante na convocação do Concílio de Calcedônia (após o famoso “latrocínio de Éfeso).

Vimos já que o Concílio de Calcedônia é bastante claro ao declarar a inseparabilidade das duas naturezas de Cristo. Portanto, não se pode imaginar, como fazia os nestorianos, que a humanidade de Cristo se separou da divindade durante sua paixão e morte.

A este respeito, convém ainda citar a carta de Santo Inácio de Antioquia - ano 107-, na qual ele chama o Sangue de Cristo de Sangue de Deus:

Imitadores que sois de Deus, reanimados pelo sangue de Deus, realizastes até o fim a obra que convém à vossa natureza. (Ad Ephesios 1,1)

E, por fim, como que para deixar ainda mais claro, cito o Cânon 10 do II Concílio de Constantinopla (V Ecumênico, ano 553):

10. Se alguém não confessar que Nosso Senhor Jesus Cristo, que foi crucificado na carne, é verdadeiro Deus e Senhor da glória, e Um da Santa Trindade — seja anátema. (Sessão VIII – 02/06/553)

Finalizando com as palavras do Rafael Vitola:


A humanidade e a divindade, em Cristo, estão unidas em uma única e adorável Pessoa divina. Assim, Cristo é Deus e homem ao mesmo tempo. Sua alma está unida à divindade, e seu corpo também. Com sua morte, ocorreu a separação entre a alma e o corpo, mas a divindade restou unida à humanidade. Como? Permanecendo unida tanto ao corpo quanto à alma.

Explica Santo Tomás, nesse sentido: "Lo que se concede por gracia de Dios no se quita nunca sin que intervenga la culpa; por esto se dice en Rom 11,29 que los dones y la vocación de Dios son sin arrepentimiento. Pero mucho mayor es la gracia de la unión, por la que la divinidad se unió al cuerpo de Cristo en la propia persona, que la gracia de adopción, por la cual son santificados los demás; y es también más permanente por razón de su propia naturaleza, porque esta gracia se ordena a la unión personal, mientras que la gracia de la adopción se ordena a una cierta unión amorosa. Y, no obstante, sabemos que la gracia de la adopción nunca se pierde sin culpa. Por consiguiente, al no existir en Cristo pecado de ninguna clase, fue imposible que se deshiciese la unión de la divinidad con el cuerpo. Y por tanto, así como antes de la muerte el cuerpo de Cristo estuvo unido personal e hipostáticamente al Verbo de Dios, así también permaneció unido después de la muerte, de suerte que no fuese distinta la hipóstasis del Verbo de Dios y la del cuerpo de Cristo después de la muerte, como escribe el Damasceno en el libro III." (S. Th., III, q. 50, a. 2)

Cristo é uma única Pessoa. Afirmar que o homem Jesus morre, mas não Deus, é cair no nestorianismo, o qual afirmava que havia duas Pessoas em Jesus, e não apenas duas naturezas em uma só Pessoa divina. Portanto, ao afirmarmos que Jesus morre, por ser Deus, pode-se dizer que é Deus quem morre. Atribui-se, em Jesus, os atos humanos aos divinos e os divinos aos humanos, no que a teologia chama de acões teândricas.

Ora, mas Deus é imortal. Como resolver isso?

Novamente, nos vem em socorro o Doutor Angélico. A morte de Jesus pertence à natureza divina em razão da união com a natureza humana (passível) em uma só Pessoa, mas não em razão da própria natureza divina (impassível), considerada em si mesma.

"Como antes se ha afirmado (q.2 a.l, 2, 3 y 6), la unión de la naturaleza humana con la divina se realizó en la persona, y en la hipóstasis, y en el supuesto, permaneciendo firme, sin embargo, la distinción de naturalezas; lo que quiere decir que es una misma la persona y la hipóstasis de la naturaleza divina y de la humana, pero quedando a salvo la propiedad de una y otra naturaleza. Y por eso, como antes se ha dicho (q.16 a.4), la pasión ha de atribuirse a la naturaleza divina, no por razón de esta naturaleza, que es impasible, sino por razón de la naturaleza humana. Por lo cual, en la Epístola Sinodal de Cirilo se dice : Si alguno no confiesa que el Verbo de Dios padeció en la carne y fue crucificado en la carne, sea anatema. Por consiguiente, la pasión de Cristo pertenece al supuesto de la naturaleza divina por razón de la naturaleza pasible asumida, no por razón de la naturaleza divina impasible." (S. Th., III, Q. 46, a. 12)


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PARA CITAR ESTE ARTIGO:

As duas naturezas de Cristo

David A. Conceição 01/2013 Tradição em Foco com Roma.

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