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Filme “A Chave Mestra” e o aproveitamento de demônios em rituais pagãos

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Quem viu o filme A Chave Mestra constatou que além da perfeita técnica de produção e atuação - destaque para Kate Rudson - o filme chama a atenção pela ação metafísica da prática do vodu. A doutrina católica tradicional admite a existência da magia, com o intercurso dos demônios. Sobre os rituais pagãos, os demônios se aproveitam sim, de tais. Porque precisa-se de algo externo para os demônios terem conhecimento de algo. E o ritual pode externar a má intenção do praticante em relação a outrem. 

Na sinopse do filme, Caroline Ellis, uma enfermeira cansada de presenciar a morte de tantas pessoas, deixa seu emprego num hospital para ser babá de Ben, um homem que sofreu derrame, marido da rude senhora Violet Deveraux, que no primeiro dia de trabalho entrega a Caroline uma chave capaz de abrir todas as portas de sua enorme e horripilante casa. Com o passar do tempo, além de proibições misteriosas, a jovem ali depara-se também com sombrios segredos que ameaçam sua vida e suas crenças. 
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Quanto a filmes de terror em geral, não se pode classificar tal gênero como intrinsecamente mau. A questão é que a maioria de filmes deste gênero tem se tornado uma apelação mórbida e bizarra, que glorifica a violência e busca o atrativo do público pela criatividade em requintes de crueldade, como a franga Jogos Mortais e outros do gênero. Evidente que filmes assim podem não ser recomendados e representam um profundo risco de perturbação à alma. Mas pode-se, em outros filmes, usar os mesmos elementos com uma intenção totalmente contrária: denunciar e explorar a maldade humana (ou a possessão demoníaca) como aquilo que ela realmente é: um mal a ser temido e evitado. Um filme que alcança relativamente esse propósito é O Silêncio dos Inocentes, embora haja também a presença de um certo apelo pelo bizarro, mas é contrabalançado pelo bom roteiro.
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Santo Agostinho em “Confissões” e alguns sermões não nega a existência de demônios, mas sim a existência do mal como oposição do bem. O mal não é algo que existe da mesma forma que a Bondade Divina, mas antes é a ausência desta.

A negação voluntária da Bondade Divina é que origina o mal. O mal não existe desde toda a eternidade.   

Sabemos que o homem decaído não perdeu todas as suas capacidades naturais. Mas, quando se fala dos anjos, se crê que eles perderam, pois não se admite que os anjos caídos possam fazer o bem que seriam capazes de fazer só com a sua natureza, sem qualquer auxílio da graça divina, o que somente seria possível, caso Deus lhes impusesse isso como castigo.

O mesmo se pode dizer das almas condenadas: como essas poderiam estar totalmente voltadas para o mal, se o ser humano não peca tudo quanto pode nesta vida? Um assassino não possui todos os vícios. Logo, como não poderia, depois da morte, praticar atos das virtudes que cultivou?

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Só há uma explicação: Deus castiga os demônios e as almas condenadas incapacitando-as na ordem natural a executarem atos bons, todavia, essa solução não é possível, pelo seguinte: crê-se que essa obstinação é total, logo, as almas condenadas têm todas a mesma obstinação no mal. No entanto, a teologia e o magistério católicos ensinam que as penas positivas do inferno são proporcionais aos pecados cometidos nesta vida. Logo, alguém deveria ser castigado com menos obstinação do que outro.

Obs: A obstinação só pode ser entendida como pena positiva, pois Deus não faria alguém obstinar-se no mal suspendendo o concurso divino (já que os atos maus também necessitam do concurso divino). 

Se bem que suspender o concurso divino para os atos bons não é o mesmo que suspender o concurso divino em absoluto. E isso não faria de Deus a causa indireta do pecado, posto que os atos maus dos demônios e dos condenados não são formalmente pecados, uma vez que, se fossem, incorreriam em novas penas (e, após a morte, cessa o estado de merecer e desmerecer).  

Não só as penas positivas seriam proporcionais aos delitos não perdoados, mas também a pena de dano (privativa), embora absoluta, me parece que teria um efeito positivo e relativo na medida em que ela proporcionaria maior ou menor tristeza pela perda da visão beatífica.

Donde se conclui que todas as penas do inferno resultam proporcionais à gravidade e ao número dos pecados. Assim, a obstinação, como também é pena, não ultrapassa o próprio pecado pelo qual se sofre condenação. 
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A doutrina de Santo Tomás, da total obstinação das almas condenadas, não me parece, portanto, certa. 

O IV Concílio de Lyon (ecumênico) e o de Braga confirmam a existência do Demônio. Portanto, a tradição da Igreja ensina a existência do Demônio.

A Sagrada Tradição tem a mesma autoridade da Escritura, ensinou o Concílio de Trento. 

O Catecismo e a tradição escolástica ensina que a Escritura tem quatro sentidos;

- Sentido literal
- Sentido moral
- Sentido analógico
- Sentido anagógico

Pois bem, uma determinada passagem pode referir-se imediatamente ao rei da Babilônia, ao rei de Tiro, ou a Antioco Epífanes, quanto ao sentido literal, histórico, e, analogicamente, ser aplicada ao diabo ou ao Anticristo. Isso fizeram os Padres da Igreja.  

Existe uma coisa no Antigo Testamento chamada typós, ou tipo.

Ester e Ana são tipos da Virgem Maria.
Os reis Davi, que perdoa seus agressores, e Assuero são tipos de Cristo. O rei da Babilônia referido em Isaías e o príncipe de Tiro são tipos do demônio.

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A Revelação acabou com o Apocalipse, mas ela comporta a Escritura e a Tradição.
 
Há quem argumente que em Isaías fica claro que o retratado é o deus Lúcifer, estrela da manhã, filho da deusa Aurora. Mas não existe, entre os hebreus, divindade alguma com esse nome. O deus Heósforo é uma divindade grega, com quem os judeus devem ter entrado em contato somente após o período helenístico - os exegetas acreditam que o trecho é da época de Nabucodonosor -.

Além disso, o deus Heósforo não caiu do céu. Quem caiu do céu foi Faetonte, filho do deus Hélios, e este era mero mortal.

O nome Lúcifer é o equivalente latino de Heósforo. 

Não é permitido interpretar a Revelação contra o consenso unânime dos Padres. E nisso os sedevacantistas erram em afrontar a Patrística em forçar a interpretação de que o anticristo será um Papa Conciliar.

Além disso, mesmo que não faça parte da Revelação bíblica, faz parte da Tradição, que é, com a Escritura, um dos canais da Revelação. 

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Segundo a teoria tomista, não houve transcorrência de tempo entre a criação de Lúcifer e sua queda. Ele caiu no primeiro instante de sua criação (S. Th, I, q.63, a.6)

Então ele não chegou ter sentimentos de misericórdia, bondade e amor?

Já li em escritos protestantes que ele era regente do coro celestial por causa do versículo 13 de Ezequiel 28: 
Em ti foram feitos teus tambores e teus pífaros  
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Eu não concordo que almas penadas possam possuir, pois os anjos têm natureza superior à do homem. E uma alma separada não possui a natureza superior a de uma alma unida ao corpo. Mas Pe. Fortea defende que sim, só com base na sua experiência e de outros exorcistas. Só a experiência, por mais que se inste o demônio a dizer a verdade em nome de Cristo, a mim não me convence.
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A natureza humana nunca foi onipresente, nem onisciente (no sentido de conhecer a essência de Deus), nem onipotente. Mas, enquanto Deus, Cristo tem todos esses atributos, ainda quando unido à carne.  
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Com a ciência divina de sua natureza divina, compreende a Si mesmo perfeitamente e infinitamente.

A alma de Cristo, contudo, enquanto às suas potências humanas, foi dotada da ciência bem-aventurada, bem como da ciência infusa e da ciência adquirida ou experimental.

Com a ciência bem-aventurada, a alma de Cristo conheceu a essência de Deus com maior claridade do que qualquer criatura, embora sem compreendê-la, bem como tudo o que, de qualquer modo existe, existirá ou existiu, ou foi dito ou pensado por quem quer que seja, em qualquer tempo, bem como o infinito que se encontra na potência da criatura (que é menor do que o infinito que existe na potência divina, que é o infinito em todos os aspectos).
 
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Com a ciência inspirada ou infusa, Cristo conheceu, em primeiro lugar, tudo o que os homens são capazes de conhecer por meio da força do intelecto agente, e, em segundo lugar, tudo o que os homens são capazes de conhecer mediante revelação divina. Conheceu essas coisas mais e melhor do que os demais, mas por meio dessa ciência não conheceu a essência de Deus, mas só mediante a ciência bem-aventurada.

Com a ciência adquirida ou experimental, a alma de Cristo conheceu tudo o que pode conhecer-se por ação do intelecto agente, enquanto que a ciência infusa lhe dava o conhecimento de tudo a respeito do que o intelecto possível se encontra, de algum modo, em potência. Cristo fez progressos nesta ciência, mas não aprendeu nada dos homens, nem foi instruído pelos anjos. 

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Contudo, o poder de Satanás não é infinito. ele não passa de uma criatura, poderosa pelo fato de ser puro espírito, mas sempre criatura. Não é capaz de impedir a edificação do Reino de Deus. embora Satanás atue no mundo por ódio contra Deus e seu Reino em Jesus Cristo, e embora sua ação cause grves danos - de natureza espiritual e, indiretamente, até de natureza física - para cada homem e para a sociedade, esta ação é permitida pela Divina Providência, que com vigor e doçura dirige a história do homem e do mundo. A permissão divina da tividade diabólica é um grande mistério, mas nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam (Rm 8,28). (Catecismo da Igreja Católica - § 395)

O diabo não tem poder para criar, nem para transubstanciar, mas tem para mover objetos. 
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Não devemos acreditar em nomes de demônios, revelados em exorcismos. Não faz o menor sentido que anjos possuam nomes no sentido em que usamos os nomes na Terra. Entendemos que os nomes revelados dos anjos revelam algo sobre a missão desse anjo, que possui relação, sem dúvida, com sua identidade. Mas não é necessário que todos os anjos possuam nomes, e nem os demônios. Anjos não precisam de nomes, porque não há quem possa chamar-lhes por nomes, e eles são o que são, independentes de possuírem ou não nomes, distinguindo-se uns dos outros quanto à espécie, e conhecidos por outros anjos pelas espécies infundidas por Deus, as quais diferem deles mesmos como o intencional se distingue do natural (S. Th., Ia, q.56, a.2).  
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O que se questiona são os nomes atribuídos a todos os anjos, uma vez que o anjo não tem língua (a língua dos anjos é a língua de homens com ofício de anjos, como explica Santo Tomás), nem fonemas, nem sílabas, nem palavras, nem precisa dessas coisas. O conhecimento do anjo não é discursivo, como o nosso, porque, nas coisas que conhecem naturalmente, veem em ato tudo o que delas se pode conhecer (S. Th., I, q.58, a.3).

E quando se atenta para a Escritura, se vê que só têm nome os anjos que, de alguma forma, se relacionam com os homens, pois é necessário aos homens conhecer esses anjos. E assim se lhes atribui nomes, para que sejam conhecidos dos homens. 

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O nome que um anjo carrega na Escritura é algo simbólico, é como uma missão para ele. Veja que S. Rafael também se intitula Azarias, filho do grande Ananias (Tb 5,13)
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Referências:

Tese das almas perdidas no capítulo IV do Manual de Exorcistas, uma das partes do livro (corresponde à página 173 do livro)
  

Livro 
O diabo e o exorcismo, Autor Frei Elias Vella , Editora Palavra e Prece, 2004, SP.

Livro O diabo, vivo e atuante no mundo, Autor Monsenhor Corrado Balducci SJ, MIR Editora , 2ª Edição, 2005, SP.
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PARA CITAR ESTE ARTIGO:

Filme “A Chave Mestra” e o aproveitamento de demônios em rituais pagãos


David A. Conceição, 01/2013 Tradição em Foco com Roma.

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