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Os dons criados pela RCC

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O carismático Márcio Mendes afirma existir o Dom Carismático de Lágrimas em seu livro Dom das Lágrimas. Esse dom realmente existe?

Responde primeiramente o confrade Rafael Vitola Brodback:
 
TODOS os autores de teologia mística enumeram os dons carismáticos (como hoje se chama, embora o nome mais tradicional seja graças gratis datae ou carismas mesmo) como nove.

Tanquerey os coloca entre os carismas ou graças gratis datae, junto com as revelações privadas, no grupo dos fenômenos divinos intelectuais, que, por sua vez, faz parte do grande grupo dos fenômenos místicos extraordinários.

O que passar disso é especulação, invenção, sentimentalismo etc.
 

Ou seja, do modo carismático não existe.

Santa Catarina de Sena trata longamente sobre as lágrimas no livro O diálogo (p. 178-200). Os tópicos das lágrimas são:

- As lágrimas, suas espécies e frutos
- As lágrimas nascem do coração
- As lágrimas de vida
- As lágrimas e as fases da vida espiritual
- As lágrimas de fogo
- As lágrimas são infinitas
- Frutos das cinco lágrimas
- Efeitos das lágrimas de condenação
- Efeitos das lágrimas de temor
- Efeitos das lágrimas de autocompaixão
- Efeitos das lágrimas de amor
- Efeitos das lágrimas de união  

O dom das lágrimas, ou compunção, não consta da enumeração tradicional dos carismas, mas é um tema recorrente e muito caro à mística cristã desde o tempo dos primeiros monges.

Do Catecismo da Igreja:

1431. A penitência interior é uma reorientação radical de toda a vida, um regresso, uma conversão a Deus de todo o nosso coração, uma rotura com o pecado, uma aversão ao mal, com repugnância pelas más acções que cometemos. Ao mesmo tempo, implica o desejo e o propósito de mudar de vida, com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda da sua graça. Esta conversão do coração é acompanhada por uma dor e uma tristeza salutares, a que os Santos Padres chamaram animi cruciatus (aflição do espírito), compunctio cordis (compunção do coração). 

Na tradição monástica, tanto ocidental quanto oriental, essa aflição interior (em grego penthos) tem sua contrapartida externa no derramamento de copiosas lágrimas. 

Ter sentimentos, e mesmo deixar eles aflorem, não significa ser sentimentalista. Devemos explorar estes sentimentos e deixar que eles provoquem em nós um bom propósito (em linguagem carismática, deixar que Deus toque seu coração), mas sempre os submetendo ao domínio da razão. Aliás, a razão não deve ser vista como opositora do sentimento, numa dicotomia, mas sim como sua mestra e juíza.

Um confessor meu doutor em Direito Canônico e, mais importante, um santo homem, dizia que chorar por nossos pecados é excelente, contanto que o motivo das lágrimas seja o bom.

Não é bom chorar de vergonha. Pelo contrário, além de burrice (a vergonha só é útil ANTES do pecado, para nos afastar dele; depois, não adianta lhufas, só atrapalha), pode até ser mais um pecado, de amor-próprio ferido.

Também é ruim se lamentar pelo pecado cometido: não raro essas lamúrias são motivadas não pela dor de ter ofendido a Deus, mas pela tristeza de ter, de certo modo, manchado o nosso currículo espiritual.
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Não adianta nada chorar de remorso, ficar, literalmente, mordendo a própria alma, tentando se punir pelo que Deus já perdoou. É sinal de falta de Fé e de Esperança na misericórdia divina.

jeito certo de chorar é motivado pelo arrependimento verdadeiro: pela dor de ter ofendido a Deus, sumamente bom, belo e verdadeiro, cujo amor por nós é totalmente gratuito e mais do que imenso. Essas são lágrimas do coração compungido, do cristão que vive em permanente penthos

D. Manuel Franco Falcão diz: Atitude espiritual de pesar pelos pecados próprios ou alheios, vivo nas pessoas com o dom das lágrimas (*bem-aventurança dos que choram), sobretudo nos místicos medievais, revestia-se de outras cambiantes, como a contrição, o desprezo das coisas do mundo e a ânsia do encontro definitivo com Deus.

O problema grave deste livro do Marcio Mendes é que ele dá 5 passos para que aprendemos a ter o dom das lágrimas, e isto é uma loucura total. Este dom provém de um coração contrito e dolorido, que não quer jamais desagradar a Deus. 
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É limitante reduzir a cinco passos ao caminho para o aperfeiçoamento da espiritualidade. Interfere no caminho que Deus tem preparado para cada um de Seus filhos.

E tal limitação quando formulada através de supostos passos, não pode nem mesmo ser comparada a obras como os Exercícios Espirituais de Santo Inácio ou as obras das Terezas ou São João da Cruz. Elas quais descrevem (e diria de modo muito complexo) a experiência particular do místico mas que ainda assim, contam com elementos que são comuns na vida espiritual de cada um de nós quando Deus permite que passemos pelas situações que tais santos abordaram,por exemplo,quando vivenciamos o que São João da Cruz denomina A Noite Escura da Alma.  

Vejam a carta de Santo Inácio que fala sobre dom de lágrimas On the Gift of Tears.

Esse é de um santo que fala bem sobre o dom.
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Se é um carisma é um dom dado gratuitamente por Deus, ou seja, Deus concede aquela pessoa uma graça que a faz ver seu pecado e querer rejeita-lo a todo custo, mas sabemos que mais que santificar a si mesmo o carisma é dado para os outros.O que edifica o próximo o dom da compunção de alguém? Pois o dom das lágrimas pelos estudos, é fruto de uma grande intimidade com Deus, sofrimento pelos pecados cometidos e pela tristeza de ter ofendido a Deus.

Como no livro, Marcio Mendes parece querer ensinar que todo e qualquer choro já faz dele um dom de Deus. Vejo que ele se equivoca neste sentido - primeiro que nem ele pode chamar todo choro de dom - pois chorar de tristeza e por estar na presença de Deus, pode ser fruto de um sentimento mais forte, o que não constitui um dom.
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Por isso é importantíssimo dizer que quem diz se é dom ou não é a Igreja o que, convenhamos, em nossos grupos de oração, nunca se terá este discernimento.  
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Interessante que só ele sabe deste dom! E mais, ainda ensina com os cinco passos. Por Deus que queria saber quais são.
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É uma bela de uma livre interpretação da palavra de Deus, a seu bel prazer, passando longe, muito longe da Tradição, que logicamente sabe o quanto move o coração de Deus diante das lágrimas de seus filhos e de sua real importância na medida que pode levar a santificação de uma vida.

Mais uma vez usam de termos incorretos levando a confusão. Pedir a Deus que nos ajude a fazermos sua vontade é lícito e necessário. Pedir a Ele que nos dê a docilidade para obedece-lo e colaborar com Ele em nossa santificação, é lícito e necessário, mas daí pedir dom das lágrimas?

Sabe o que é duro neste subjetivismo? Eles se passam por amorosos, e quem quer entender pela Igreja e na retidão, passam por duros, sem amor, e donos da verdade.

O duro é que estão catequizando o Brasil, quero ver e vou exultar neste dia, quando ensinar pela Igreja, pelo catecismo, sem invenções pessoais... Mas sei de onde vem isso, são profetas modernos e Deus está revelando isso hoje... e se esquecem que Deus já SE revelou pela Igreja, que já temos tudo que precisamos saber pra nossa salvação e santificação.

Vocês se lembram daquele alerta que nos fins dos tempos os homens já não suportariam a Sã Doutrina? Seria ela dura demais pra estes tempos de homens frouxos? Queremos nós que a porta seja mais larga do que realmente é?
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Chegamos à velha conclusão de quase sempre:

É o extraordinário sendo transformado em ordinário.
 

É o gratuito sendo mudado em comprável.
 

É o dom sendo colocado como trivial e vindo com manual de instrução.

Ou seja, é a banalização e distorção da milenar Mística Cristã por grupos que se acham no direito de interpretar as Sagradas Escrituras e a Tradição a bel prazer.  

Deus é bom , é pai e porque nos ama usa de muitos meios para nos chamar a Ele, afinal quer que todos cheguem ao conhecimento da verdade e sejam salvos, para isso mandou Seu Filho.

O que acontece é que Ele envia as graças atuais, para chamar seus filhos a Si, e utiliza de Graças exteriores, que atuam diretamente sobre os sentidos e faculdades sensitivas, que atingem nossas faculdades espirituais, nos ajudando assim a encontrá-lo.

É o que acontece quando a pessoa chega a um grupo de oração: a leitura dos livros santos, os cânticos, a oração em comum, agem como graças exteriores e estas por si mesmas não fortificam a vontade, mas produzem em nós impressões favoráveis que movem a inteligência e a vontade e as inclinam para o bem sobrenatural, que é o objetivo. Deus nos dá então, moções interiores, que iluminando a inteligência e fortificando a vontade, ajudam a fortalecer e se tornarem melhores, por isso, aquela explosão de alegria que vemos e que aconteceu conosco.

Deus sabe que nós nos elevamos do sensível ao espiritual, adapta-se à nossa fraqueza e serve-se das coisas visíveis, para nos levar à virtude. Mas não podemos parar aí, e sim a partir daí, aprendermos o correto buscando o necessário, que é fazer sua vontade, agora, se for da Sua vontade nos dar dons, o receberemos com solicitude, sabendo que temos que viver em verdadeiro estado de graça, quebrantado-nos sem cessar, para sermos santos e irrepreensíveis diante de Seus olhos.

Agora, fazer dos dons, o carro chefe, a meu ver, é buscar sim o fim, sem buscar os meios, e isso é puro engano, afinal, somente Deus sabe quem terá os dons. Pedir o Espírito santo, é legitimo, buscar a santidade é agradável a Deus. Já os dons? Pode ser que eu ache que os tenha, e no final o Senhor pode me dizer: Afastai-vos de Mim, pois não te conheço.
 
Ninguém aqui é contra os dons, só queremos que entendam que eles são DONS e que não usemos fórmulas para tê-los.
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Do que entendo que todos deviam aprender a saber (discernir) isso!

Este discernimento deve ser feito pelos nossos pastores. Veja o que nos diz O Papa João Paulo II:

Os verdadeiros carismas não podem senão tender para o encontro com Cristo nos Sacramentos. As verdades eclesiais a que aderis ajudaram-vos a redescobrir a vocação baptismal, a valorizar os dons do Espírito recebidos na Confirmação, a confiar-vos à misericórdia de Deus no Sacramento da Reconciliação e a reconhecer na Eucaristia a fonte e o ápice da inteira vida cristã. E de igual modo, graças a essa forte experiência eclesial, surgiram esplêndidas famílias cristãs abertas à vida, verdadeiras «igrejas domésticas», desabrocharam muitas vocações ao sacerdócio ministerial e à vida religiosa, assim como novas formas de vida laical inspiradas nos conselhos evangélicos. Nos movimentos e nas novas comunidades aprendestes que a fé não é questão abstracta, nem vago sentimento religioso, mas vida nova em Cristo, suscitada pelo Espírito Santo.

8. Como conservar e garantir a autenticidade do carisma? É fundamental, a respeito disso, que cada movimento se submeta ao discernimento da Autoridade eclesiástica competente. Por esta razão, nenhum carisma dispensa da referência e da submissão aos Pastores da Igreja. Com palavras claras o Concílio escreve: «O juízo acerca da sua autenticidade e recto uso pertence àqueles que presidem na Igreja e aos quais compete de modo especial não extinguir o Espírito mas julgar tudo e conservar o que é bom (cf. 1 Ts 5, 12.19-21)» (Lumen gentium, 12). Esta é a necessária garantia de que a estrada que percorreis é justa!  


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Se os líderes da RCC fizerem exatamente o que pediu Nosso querido João Paulo II ela se tornará muito mais agradável a Deus, formando verdadeiros católicos obedientes, já que mantém em seu meio muitas pessoas maravilhosas, sedentas de santidade e com um grande desejo de servir a Igreja e consequentemente a Deus.

O Espírito Santo soprou em mim isso, soprou aquilo, e eu tenho que fazer porque o Espírito me impulsiona, e o homem quer matar o Espírito. Com isso, se vai pregando, ensinando aquilo que o fiel acha que é certo, não aquilo que a Igreja ensina no seu Magistério. E pior, se quer impor ao outro que tenha uma revelação privada da graça, ensinando orar em línguas, ensinando repousar no Espírito. Ora! Quem dá é o Espírito e não é imposição de ninguém.

Ninguém pode afirmar que recebeu uma graça com verdade de fé, e ninguém pode fazer uma experiência privada do Espírito Santo, porque tais dons são para a Igreja. Ninguém pode fazer uma experiência privada e crer, dizer e afirmar é que um movimento do Espírito Santo.
 
Doutrina sobre Dons Extraordinários
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Doutrina exposta por São João da Cruz, doutor da Igreja.

***** Livro III - Capítulo XXX

1. Agora é conveniente tratar do quinto gênero de bens nos quais pode a alma gozar-se: os bens sobrenaturais. Por eles entendemos as graças e dons concedidos pelo Senhor, superiores à habilidade e poder natural, chamados gratis datae, dons gratuitos. Tais são os dons de sabedoria e ciência conferidos a Salomão, e também as graças enumeradas por S. Paulo: A fé, a graça de curar as doenças, o dom dos milagres, o espírito de profecia, o discernimento dos espíritos, a interpretação das palavras, enfim, o dom de falar diversas línguas(Cor 12,9-10).

2. Sem dúvida, todos esses bens são espirituais, como os do sexto gênero, do qual nos ocuparemos mais tarde; todavia, existe entre eles diferença notável, motivo para distingui-las uns dos outros. O exercício dos bens sobrenaturais tem por fim imediato a utilidade do próximo e é para esse proveito e fim que Deus os concede, conforme diz S. Paulo: E a cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito dos demais (ib. 5,7). Isto se aplica a essas graças. Os bens espirituais, porém, têm por objetivo somente as relações recíprocas entre Deus e a alma, pela união do entendimento e da vontade, conforme explicaremos mais adiante. Assim, pois, há diferença entre o objeto de uns e outros; os bens espirituais visam só o Criador e a alma, enquanto os sobrenaturais se aplicam às criaturas; diferem também quanto à substância e, por conseguinte, quanto à operação, sendo, portanto, necessário estabelecer certa divisão na doutrina.

3. Falemos agora das graças e dos dons sobrenaturais, no sentido aqui dado. Para purificar a vã complacência que a alma neles pode achar, vem a propósito assinalar dois proveitos desse gênero de bens; um temporal e outro espiritual. O primeiro é curar doentes, dar a vista a cegos, ressuscitar mortos, expulsar demônios, anunciar o futuro aos homens, e outros semelhantes benefícios. 
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O segundo é eterno, e consiste em tornar Deus mais conhecido e servido, seja por quem opera esses prodígios, seja pelos que deles são objetos ou testemunhas.

4. Quanto ao proveito temporal pode-se dizer que as obras sobrenaturais e os milagres pouca ou nenhuma complacência merecem da alma; porque, excluído o proveito espiritual, pouca ou nenhuma importância têm para o homem, pois em si mesmos não são meio para unir a alma com Deus, como é somente a caridade. Com efeito, essas obras e maravilhas sobrenaturais não dependem da graça santificante e da caridade naqueles que as exercitam; seja Deus as conceda verdadeiramente, apesar da maldade humana, como fez ao ímpio Balaão e a Salomão, seja quando exercidos falsamente pelos homens, com a ajuda do demônio, como sucedia a Simão Mago; ou ainda pelas forças ocultas da natureza. Ora, se entre tais graças extraordinárias algumas houvesse de proveito para quem as pratica, evidentemente seriam as verdadeiras, concedidas por Deus. E estas, - excluindo o seu proveito espiritual, - claramente ensina S. Paulo o seu valor dizendo: Se eu falar as línguas dos homens e dos anjos, e não tiver caridade, sou como o metal que soa, ou como o sino que tine. E se eu tiver o dom da profecia, e conhecer todos as mistérios e quanto se pode saber; e se tiver toda a fé, até ao ponto de transportar montes, e não tiver caridade nada sou (1Cor 13,1-2). Muitas almas que receberam esses dons extraordinários e neles puseram sua estima, pedirão ao Senhor, no último dia, a recompensa que julgam ter merecido por eles, dizendo: Senhor, não profetizamos em teu nome, e em teu nome obramos muitos prodígios? E a resposta será: Apartai-vos de mim, os que obrais a iniqüidade (Mt 7,22-23). 
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5. Portanto, jamais deve o homem comprazer-se em possuir tais dons a não ser pelo lucro espiritual que deles pode tirar, isto é, em servir a Deus com caridade verdadeira, pois aí está o fruto da vida eterna. Por essa razão nosso Salvador repreendeu seus discípulos quando mostravam muita alegria por terem expulsado os demônios: Entretanto, não vos alegreis de que os espíritos se vos submetam; mas alegrai-vos de que os vossos nomes estejam escritos no céu (Lc 10,20). O que, em boa teologia, significa: gozai-vos somente de que estejam vossos nomes escritos no livro da vida. Seja esta a conclusão: a única coisa na qual pode o homem comprazer-se é a de estar no caminho da vida eterna fazendo todas as suas obras em caridade. Tudo, pois, que não é amor de Deus, que proveito traz e que valor tem diante dele? E o amor não é perfeito quando não é bastante forte e discreto em purificar a alma no gozo de todas as coisas, concentrando-o unicamente no cumprimento da vontade de Deus; Deste modo se une a vontade humana com a divina por meio destes bens sobrenaturais.

Livro III - Capítulo XXXI 
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Dos prejuízos causados à alma quando põe o gozo da vontade neste gênero de bens.

1. A meu parecer, três são os danos principais em que a alma pode cair colocando seu gozo nos bens sobrenaturais: enganar e ser enganada, sofrer detrimento na fé e deixar-se levar pela vanglória ou alguma vaidade.

2. Quanto ao primeiro dano, é muito fácil enganar os outros e a si mesmo quando há complacência nas obras sobrenaturais. Eis a razão: para distinguir quais sejam as falsas das verdadeiras, e saber como e a que tempo se devem exercitar, é necessário grande discernimento e abundante luz de Deus: ora,o gozo, e a estimação de tais obras impede muito estas duas coisas. Isto acontece por dois motivos: porque o prazer embota e obscurece o juízo; e porque o homem, movido pelo desejo de gozar, não somente cobiça aqueles bens com muita sofreguidão, mas ainda se expõe a agir fora de tempo. 
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Mesmo no caso de serem verdadeiras as virtudes e as obras, bastam os defeitos assinalados para produzir muitos enganos, quer por não serem elas entendidas no seu sentido real, quer por não se realizarem nem trazerem proveito às almas no tempo e modo mais oportuno. É verdade que Deus, distribuidor dessas graças sobrenaturais, as concede juntamente com a luz e o impulso para obrá-las na ocasião e maneira mais conveniente; todavia, o homem ainda pode errar muito, devido à imperfeição e ao espírito de propriedade que nelas tem, não as usando com a perfeição exigida pelo Senhor e conforme a vontade de Deus. A história de Balaão confirma o que dizemos; quando este falso profeta se determinou, contra as ordens de Deus, - a ir maldizer o povo de Israel, o Senhor, indignado, o queria matar (Nm 22,22-23). Também S. Tiago e S. João, levados por um zelo indiscreto, queriam que caísse fogo do céu (Lc 9,54) sobre os samaritanos, pelo fato de recusarem a hospitalidade a nosso Salvador; mas foram logo repreendidos por ele.

3. Daí se vê claramente como estes espíritos de que vamos falando determinam-se a fazer tais obras fora do tempo conveniente, movidos por secreta paixão de imperfeição, envolta em gozo e estima delas. Quando não há semelhante imperfeição, as almas esperam o impulso divino para realizar essas obras, e só as fazem segundo o modo e o momento requerido pelo Senhor; pois, até então, não convém agir. Deus, por isso, queixava-se de certos profetas, por Jeremias, dizendo: 
Eu não enviava estes profetas e eles corriam, não lhes falava nada e eles profetizavam (Jr 23,21). Acrescentando: Enganaram ao meu povo com a sua mentira e com os seus milagres, não os havendo eu enviado, nem dado ordem alguma (Jr 23,32). Em outro trecho diz ainda que eles tinham visões apropriadas à tendência do seu espírito e que eram essas precisamente as que divulgavam (Ib. 26). Esses abusos não se dariam se os tais profetas não tivessem misturado o abominável afeto de propriedade a estas obras sobrenaturais.  

4. Pelas citações feitas, podemos reconhecer que o dano deste gozo leva o homem a usar de modo iníquo e perverso dessas graças divinas, como Balaão e os que faziam milagres para enganar o povo; e, além disso, induz à temeridade de usar delas sem as haver recebido de Deus. Deste número foram os que profetizavam e publicavam as visões da sua fantasia, ou aquelas que tinham por autor o demônio. Este, com efeito, explora imediatamente a disposição desses homens afeiçoados aos favores extraordinários; fornece-lhes abundante matéria neste vasto campo exercendo as suas malignas influências sobre todas as suas ações; e eles assim enfunam as velas para vogar livremente com desaforada ousadia nestas prodigiosas obras.

5. O mal não pára aí: o gozo e a cobiça desses bens levam essas pessoas a tais excessos que, se antes tinham feito pacto oculto com o demônio (porque muitos fazem coisas extraordinárias por esse meio), chegam ao atrevimento de se entregar então a ele por pacto expresso e manifesto, tornando-se seus discípulos e aliados. Daí saem os feiticeiros, encantadores, mágicos, adivinhos e bruxos. Para cúmulo do mal, esta paixão de gozo nos prodígios extraordinários leva a ponto de se querer comprar a peso de dinheiro as graças e os dons de Deus, a modo de Simão Mago, para fazê-las servir ao demônio. Esses homens procuram ainda apoderar-se das coisas sagradas, e, - não se pode dizê-la sem tremer! - ousam tomar até os divinos mistérios, como já tem sucedido, sacrilegamente usurpando o adorável corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo para uso de suas próprias maldades e abominações. Digne-se Deus mostrar e estender até eles a sua infinita misericórdia.

6. Cada um de nós bem pode compreender quão perniciosas para si mesmas e quão prejudiciais à cristandade são estas pessoas. Observemos de passagem que todos aqueles magos e adivinhos do povo de Israel, aos quais Saul mandou exterminar, caíram em tantas abominações e enganos porque quiseram imitar os verdadeiros profetas de Deus.

 7. O cristão, pois, dotado de alguma graça sobrenatural, deve acautelar-se de pôr aí o seu gozo e estimação, não buscando obrar por esse meio; porque Deus que lha concedeu sobrenaturalmente para utilidade da sua Igreja, ou dos seus membros, movê-lo-á também sobrenaturalmente quando e como lhe convier. O Senhor que mandava aos seus discípulos não se preocupassem do que nem como haviam de falar, quando se tratasse de coisa sobrenatural da fé, quer também que nestas obras sobrenaturais o homem espere a moção interior de Deus para agir, pois na virtude do Espírito Santo é que se opera toda virtude. Embora os discípulos houvessem recebido de modo infuso as graças e os dons celestes, conforme se lê nos Atos dos Apóstolos, ainda assim fizeram oração a Deus rogando-lhe que fosse servido de estender sua mão para obrar por meio deles prodígios e curas de doentes, a fim de introduzir nos corações a fé de Nosso Senhor Jesus Cristo (At 4,29-30).

8. O segundo dano que pode provir do primeiro é detrimento a respeito da fé, de duas maneiras. A primeira, quanto ao próximo; como, por exemplo, se uma pessoa se dispõe a fazer milagres ou maravilhas fora de tempo ou sem necessidade, não somente tenta a Deus, o que é grave pecado, como ainda poderá fazer com que o efeito não corresponda à sua expectativa. Os corações, desde logo, serão expostos a cair no descrédito ou no desprezo da fé. Porque embora o milagre se realize, e Deus assim o permita por motivos só dele conhecidos, como fez com a pitonisa de Saul (1Sm 28,12) (se é verdade que foi Samuel que ali apareceu), nem sempre acontecerá assim. E quando acontecer realizar-se o prodígio, não deixam de errar os que o fazem, e de terem culpa, pois usam dessas graças quando não é conveniente.

A segunda maneira é que o homem pode sentir em si mesmo detrimento em relação ao mérito da fé. A estima exagerada dos milagres, cujo poder lhe foi dado, desvia-o muito do hábito substancial da fé que por si mesma é hábito obscuro; e assim, onde abundam os prodígios e os fatos sobrenaturais, há menos merecimento em crer. A esse propósito, diz-nos S. Gregório: "A fé é sem mérito quando a razão humana e a experiência lhe servem de provas". Por este motivo, Deus só opera tais maravilhas quando são absolutamente necessárias para crer. A fim de que os seus discípulos não perdessem o mérito da fé quando tivessem experiência da sua ressurreição, Nosso Senhor, antes de se lhes mostrar, fez várias coisas, para induzi-los a crer sem o verem. A Maria Madalena primeiramente mostrou vazio o sepulcro e depois lhe fez ouvir dos anjos a notícia desse mistério; porque a fé vem pelo ouvido, como diz S. Paulo, e assim esta santa deveria acreditar antes ouvindo do que vendo. Mesmo quando o viu, foi sob o aspecto de um homem comum. Nosso Senhor quis desse modo acabar de instruí-la na fé que lhe faltava por causa de sua presença sensível. Aos seus discípulos, primeiramente, enviou as santas mulheres a dar-lhes a nova da ressurreição, e eles depois foram olhar o sepulcro. Aos dois que iam a Emaús (Lc 24,15) juntou-se no caminho dissimuladamente; e inflamava-lhes os corações na fé, antes de se manifestar aos seus olhos. Enfim, repreendeu a todos os seus apóstolos reunidos, por não acreditarem na palavra dos que lhes tinham anunciado a sua ressurreição; E a São Tomé, porque quis ter experiência tocando nas suas chagas, censurou o Senhor quando lhe disse: Bem-aventurados os que não viram, e creram (Jo 20,29). 

9. Vemos, portanto, que não é condição de Deus fazer milagres, antes, ele os faz quando não pode agir de outro modo. Foi por isso que censurou aos fariseus: Vós, se não vedes milagres e prodígios, não credes (lb. 4,48). As almas cuja afeição se emprega nessas obras sobrenaturais sofrem grande prejuízo quanto à fé.

10. O terceiro dano é cair ordinariamente a alma na vanglória ou em alguma vaidade, quando quer gozar em tais obras extraordinárias. O próprio prazer por essas maravilhas já é vaidade, não sendo proporcionado puramente em Deus e para Deus. Eis por que Nosso Senhor repreendeu seus discípulos quando manifestaram alegria por terem subjugado os demônios (Lc 10,20); jamais lhes dirigiria esta reprimenda, se não fosse vão tal gozo.

CAPÍTULO XXXII 

Dos proveitos resultantes da abnegação do gozo nas graças sobrenaturais.

1. A alma, além das vantagens encontradas livrando-o se dos três danos assinalados, adquire, pela privação de gozo nas graças sobrenaturais, dois proveitos muito preciosos. O primeiro é glorificar e exaltar a Deus; o segundo, exaltar-se a si mesmo. Efetivamente, de dois modos é Deus exaltado na alma. Primeiramente, desviando o coração e a afeição da vontade de tudo o que não é Deus, para fixá-los unicamente nele. Chegar-se-á o homem ao cimo do coração, e Deus será exaltado (Sl 63,7). O sentido destas palavras de Davi já foi referido no começo do tratado sobre a noite da vontade. Quando o coração paira acima de todas as coisas, a alma se eleva acima de todas elas.

2. Quando a alma concentra todo o seu gozo só em Deus, muito glorifica e engrandece ao Senhor que então lhe manifesta sua excelência e grandeza; porque nesta elevação de gozo, a alma recebe de Deus o testemunho de quem ele é. Isso, porém, não acontece sem a vontade estar vazia e pura quanto às alegrias e às consolações a respeito de todas as coisas, como o Senhor ainda o ensina por Davi: Cessai, e vede que eu sou Deus (Sl 45,11).

E outra vez diz: Em terra deserta, e sem caminho, e sem água; nela me apresentei, a ti como no santuário para ver o teu poder e a tua glória (Sl 42,3). Se é verdade que Deus é glorificado pela completa renúncia à satisfação de todas as coisas, muito mais exaltado será no desprendimento dessas outras coisas mais prodigiosas, quando a alma põe somente nele o seu gozo; porque são graças de maior entidade, sendo sobrenaturais; e deixá-las para estabelecer unicamente em Deus sua alegria será atribuir a ele maior glória e maior excelência do que a elas. Quanto mais nobres e preciosas são as coisas desprezadas por outro objeto, mais se mostra estima e rende-se homenagem a este último.

3. Além disto, no desapego da vontade nas obras sobrenaturais, consiste o segundo modo de exaltar a Deus. Pois, quanto mais Deus é crido e servido sem testemunhos e sinais, tanto mais é exaltado pela alma; porque ela crê de Deus mais do que os sinais e os milagres lhe poderiam dar a entender.

4. O segundo proveito, como dissemos, faz a alma exaltar-se a si mesma. Afastando a vontade de todos os testemunhos e de todos os sinais aparentes, eleva-se em fé muito mais pura, a qual Deus lhe infunde e aumenta com maior intensidade. Ao mesmo tempo, o Senhor faz crescer na alma as duas outras virtudes teologais, a esperança e a caridade. A alma goza, então, de sublimes e divinas notícias, por meio deste hábito obscuro da fé em total desapego. Experimenta grande deleite de amor pela caridade que lhe faz gozar unicamente de Deus vivo; e mediante a esperança permanece satisfeita quanto à memória. Tudo isto constitui admirável proveito, essencial e diretamente necessário à perfeita união da alma com Deus.

(São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo, Livro III. cap. XXX – XXXII) 

Esse blog e seu autor mesmo sendo ex-carismático não é contra o movimento, mas contra algumas idéias e práticas distorcidas que alguns membros cometem, e ao contrário do que pensam, nós aqui não ficamos o dia todo pensando na RCC e infelizmente para nós, temos muitas vezes em forma de artigos sobre RCC e na maioria das vezes eles nunca são edificantes, por dois motivos:

Os membros da RCC não aceitam críticas, nunca!

Os membros da RCC não conseguem debater com argumentos, nunca!

E como isso não acontece, gera sempre confusão.

Tenho certeza que se os membros mais antigos, sentem no seu íntimo um desejo de crescimento, pois passam anos fazendo os mesmos seminários, que são bons, concordo, mas que deixa um gosto de quero ir mais além e não sei como faze-lo - a liderança poderá ajuda-los, com certeza.

Muitos grupos já diminuiram o número de membros, primeiro porque as pessoas se encontram dentro da Igreja e vão a outros movimentos e pastorais, lícito e belo! e segundo pela falta de conteúdo de quem serve e prega, pois não tendo formação, não podem dar o alimento desejado e tão necessário para se crescer espiritualmente e isto se desgasta com o tempo.

Rezo e espero para que compreendam isso, algo muito bom poderá vir por aí! E estou disposto a ajudar, sempre!
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PARA CITAR ESTE ARTIGO:

Os dons criados pela RCC

David A. Conceição, 01/2013 Tradição em Foco com Roma.

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